História de duas gémeas separadas à nascença
http://dn.sapo.pt/2008/01/03/ciencia/historia_duas_gemeas_separadas_a_nas.html
3 de janeiro de 2008
O autor da experiência não reconheceu erros
A história foi contada pela BBC e parece tirada de um guião de cinema. As gémeas americanas Elyse Schein e Paula Bernstein deviam parecer-se com as bebés da imagem, mas nunca puderam partilhar as suas vidas com a respectiva irmã idêntica. Foram literalmente separadas à nascença, em nome de uma experiência científica onde nem sequer foram importantes. Durante 35 anos, as duas irmãs nunca souberam da existência da outra. E ninguém se preocupou em informá-las.
À nascença, as crianças foram entregues para adopção, no âmbito de uma experiência científica que visava estudar os efeitos de educações diferentes em gémeos idênticos. Hereditariedade versus cultura. O autor do estudo é hoje um dos principais psicólogos infantis americanos, Peter Neubauer.
Elyse e Paula talvez nunca se tivessem encontrado se a primeira não procurasse, em 2003, mais informações sobre a sua origem, contactando a agência de adopção de Nova Iorque que tratara do seu processo. Em resposta, recebeu uma carta com uma informação surpreendente: "Nasceu a 9 de Outubro de 1968, às 12.51, a mais nova de duas gémeas."
Seguiu-se uma investigação e um contacto. As duas irmãs encontraram-se mais tarde, num café, em Nova Iorque, e foi uma descoberta que mudou as suas vidas. Elyse tinha trabalhado em Paris e, para Paula, parecia "muito europeia, com óculos escuros e a fumar um cigarro". Ela "era ultracool, uma versão alternativa de mim", recorda Paula, na entrevista à rádio britânica.
A experiência de Neubauer tinha criado duas mulheres muito diferentes, cada uma com o seu estilo próprio, mas não deixava de haver estranhas coincidências: ambas tinham o mesmo filme e o mesmo livro favoritos.
As duas gémeas contaram como procuraram confrontar o psicólogo. Foi-lhes explicado que, desde cedo, não tinham sido consideradas no estudo. Para espanto das gémeas, Neubauer recusou responder às suas perguntas, mas usou o encontro como uma oportunidade para recomeçar a investigação e perguntar como tinha sido o seu desenvolvimento naqueles anos.
"Éramos uma espécie de 'ratos de laboratório' que tinham regressado para ver o grande doutor", contou Paula, no seu relato ao canal 4 da rádio BBC. "Esperava que ele assumisse a responsabilidade pelo que tinha feito tantos anos antes", disse ainda a gémea, lamentando o facto de o cientista não admitir qualquer erro nos seus métodos.
A investigação estará sob sigilo até 2066, mas um dos interesses prováveis dos cientistas seria a possibilidade de haver hereditariedade nas doenças mentais. As gémeas souberam entretanto que a sua mãe biológica passou parte da vida em cuidados psiquiátricos. Felizmente, são ambas saudáveis e o encontro enriqueceu-as.
"É engraçado como concluímos um círculo completo", explicou Elyse, na mesma entrevista. "Inicialmente, fomos gémeas, que era um laço biológico. E agora, digo que nos adoptámos uma à outra. Somos família por escolha."
Este caso teve um final feliz e, sem dúvida, dava um bom argumento de cinema, mas também levanta problemas sobre os limites éticos das experiências com seres humanos. - L. N.

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