"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, maio 29, 2008

Descoberta a mais antiga mãe do mundo... um peixe
http://dn.sapo.pt/2008/05/29/ciencia/descoberta_a_mais_antiga_do_mundo_pe.html

SUSANA SALVADOR
Os cientistas australianos esperavam apenas descrever um novo peixe placoderme, uma espécie que dominou os mares durante 70 milhões de anos, mas acabaram por encontrar a mais antiga mãe do mundo. Um último banho de ácido no fóssil com 275 milhões de anos, para mostrar um pouco mais do osso, acabou por revelar um embrião ainda ligado ao cordão umbilical. Esta é também a prova mais antiga de "fertilização interna", ou seja, sexo com penetração, segundo o estudo publicado na Nature.

"A descoberta deste fóssil é certamente uma das mais extraordinárias alguma vez feita e muda por completo a nossa percepção da evolução dos vertebrados", disse um dos autores do estudo, John Long, director do departamento de Ciên- cias do Museu Victoria. Mostra que a reprodução vivípara evoluiu ao mesmo tempo que a ovípara e não sequencialmente.

A descoberta mostra que a fertilização interna e a viviparidade nos vertebrados apareceram primeiro entre os placodermes (assim denominados devido às placas da sua couraça), o que faz recuar cerca de 200 milhões de anos o primeiro sinal desta forma de reprodução, indicaram os autores do estudo. Confirma também que alguns placodermes tinham "uma biologia reprodutiva extremamente avançada", comparável à dos tubarões e raias actuais. O fóssil, de 25 cm, vai ficar exposto no Museu de Melburne.

Foi a decisão arriscada, de última hora, de fazer um novo banho de ácido. Muito ácido "e tudo poderia ter-se desfeito", disse Kate Trinajstic, outra das autoras do estudo, da Universidade da Austrália Ocidental. "Quando retirámos do ácido, o embrião estava simplesmente ali, estava perfeitamente preservado , tão claro, que não podia ser outra coisa", acrescentou, numa entrevista à AFP.

Uma análise depois com um scanner de alta resolução permitiu identificar um vaso sanguíneo no interior do cordão umbilical calcificado. Os cientistas acreditam que os peixes, por alguma razão, terão sido privados de oxigénio na água, ficando no fundo do mar onde foram a pouco e pouco cobertos com lamas que acabaram por endurecer. Os placodermes eram o grupo de vertebrados dominante durante o período Devónico do Paleozóico (há cerca de 420 a 350 milhões de anos), sendo muitas vezes apelidados de "dinossauros dos mares".

A nova espécie foi baptizada de Materpiscis (mãe peixe, em latim) attenboroughi, em honra do conhecido naturalista britânico David Attenborough, o primeiro a chamar a atenção para a região de Gogo, na Austrália, que era uma antiga barreira de coral. "Dizer que estou emocionado com a descoberta é pouco. Estou absolutamente encantado por terem dado o meu nome a uma criatura tão espantosa", escreveu numa carta aos investigadores.| Com agências