"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, agosto 07, 2008

De três em três meses Pequim precisa de um novo mapa

07.08.2008, Francisca Gorjão Henriques, em Pequim
http://jornal.publico.clix.pt/

A capital cresce a um ritmo alucinante. Na voragem cria-se uma monumental ausência
de passado, as referências perdem-se por entre as artérias que trespassam a cidade.
Mas esta é a era do possível. "Os chineses são loucos por coisas novas"


40 anos, calças pretas, camisa preta. Em muitas cidades do mundo este poderá ser o retrato de um arquitecto. Em Pequim também. Zhang Hong oferece-nos peixe com picante, arroz, legumes e sopa de galinha com gengibre no restaurante ao lado do seu atelier. Com uma calma amável, fala da voragem desta cidade que às vezes o torna quase estrangeiro. "Acontece não encontrar um sítio porque de repente está rodeado por edifícios novos, mais altos, que eu não conhecia. É frequente perder-me em Pequim."
Percorrem-se alguns metros até ao Standard Architecture para provar que a mudança pode não implicar destruição. O atelier, instalado num antigo auditório de tijolo dos anos 1950, não apagou a memória desse espaço, se os nossos olhos forem capazes de se desviar das maquetas, fotografias e desenhos que estão pendurados na parede. Numa delas há até um papel a dizer, mesmo assim, em português: "Embaixada." É o resultado de uma parceria com o atelier de Lisboa com o mesmo nome que está a desenvolver alguns projectos na China.
Numa mesa comprida onde estão pousados hotéis e edifícios de apartamentos em ponto pequeno, Zhang Hong e o seu sócio Zhang Ke (não são parentes, o apelido Zhang é partilhado por 270 milhões de chineses) resumem assim a evolução da sua cidade: "Entre as décadas de 1960 e 1980 o mapa era actualizado a cada dez anos; entre os anos 80 e 90, a cada cinco; depois de dois em dois até ao ano 2000; voltou a ser actualizado em 2001 e desde 2002 que são necessárias quatro actualizações por ano."
Isto significa que de três em três meses há novas informações a acrescentar à capital do país mais populoso do mundo. É por isso que em Pequim o passado pode querer dizer 3000 anos, ou 100, ou apenas algumas semanas. É fácil perderem-se as referências numa cidade que nunca dorme, porque está 24 horas sobre 24 horas sob o som das escavadoras e dos pneumáticos.
O crescimento económico da China, o país que consome metade da produção mundial de betão, está reflectido na expansão da sua capital, onde hoje vivem mais de 17 milhões de pessoas. Não foram apenas os Jogos Olímpicos que desafiaram os limites da engenharia, os arranha-céus nascem como cogumelos. Pequim cresce na vertical e estica os seus limites até à exaustão.
A duas velocidades
A cidade não se cristalizou com a tomada de poder do regime comunista, em 1949. A começar por Tiananmen, onde a República Popular foi anunciada, mesmo em frente à exuberância da Cidade Proibida. Era preciso espaço para exibir o orgulho militar em paradas e o apoio maciço do povo aos seus líderes. Mao Zedong mandou traçar largas avenidas, apesar dos poucos carros a circular (hoje parece que toda a cidade foi feita para eles), e erguer edifícios de monumentalidade estalinista.
Mas nos anos 70 e 80 "houve um desenvolvimento muito lento, que guardou muitos traços históricos, como os hutongs", as casas térreas com um pátio no centro, "com muita gente a insistir na tradição", continua Zhang Hong. "A partir de 1996 é que as coisas começaram a mudar. E a mudança foi radical em 2000, quando se começou a pensar que Pequim devia ter uma nova face. Decidiu-se manter algumas partes velhas e modernizar o resto."
O novo rosto veio trazer ainda mais circulares que se impõem sobre a cidade como os muros construídos ao longo da dinastia Ming (1368-1644). Dois quarteirões vizinhos podem estar inexoravelmente separados. Quatro faixas para um lado, quatro faixas para o outro. São seis anéis que dão a volta à capital (a sexta circular, terminada recentemente, tem 130 quilómetros) e que se tornaram nas suas novas referências. Não há muito tempo foi terminada uma avenida que para atravessar é preciso percorrer 200 metros.
A cidade tem uma área total de 16.808 quilómetros quadrados: 180 quilómetros de norte a sul e 160 de leste a oeste. Cresce também em altura. "Até 1950 Pequim tinha uma forma horizontal. O edifício mais alto tinha 38 metros - o tecto da Cidade Proibida. Nenhum podia ser mais alto e os prédios tinham no máximo três andares", diz Zhang Ke. Agora, a Torre 3 do World Trade Center tem 74 andares, e 330 metros de altura, e há pelo menos 35 edifícios com mais de 120 metros.
Copiar, copiar, copiar
A escala de tipo soviético manteve-se, esmagadora, e é agora enfeitada com outdoors de villas nos subúrbios, de estilo americano (o Governo mandou retirar alguns anúncios para não suscitar invejas a quem não tem bolso para tanto) e com os grandes símbolos do consumo capitalista. O pastiche não é a excepção, é a regra, porque não há limites para o que é possível misturar.
"Para os chineses, as cópias são tão boas como os originais", diz o canadiano Shelly Kraicer, sentado no Bookworm, um café-restaurante-livraria de uma das zonas mais ocidentalizadas da cidade, sobre a qual diz estar desactualizado por ter acabado de passar um mês fora. Vive há cinco anos no país e é um dos maiores especialistas em cinema chinês: "O passado só existirá em Pequim quando for uma cópia de si próprio. E será todo em forma de parques temáticos."
E há precisamente um filme para ilustrar o que diz Kraicer. O Mundo, do realizador Jia Zhangke, reflecte o impacto da globalização numa sociedade tradicionalmente conservadora. O próprio Jia Zhangke diz que o filme se passa em Pequim - num verdadeiro parque temático com réplicas dos edifícios mais emblemáticos do mundo, como a Torre Eiffel ou as pirâmides do Egipto -, mas poderia ser em qualquer lugar do planeta. É isso que muitos temem - que a capital do Império do Meio possa ser reduzida a um lugar como qualquer outro de tanto absorver o que vem de fora.
Zhang Ke concorda: "O problema com a arquitectura é o mesmo da música: os estilos copiam-se muito. A maioria dos arquitectos é pouco conscienciosa e a forma mais rápida de produzir é copiando. Já há montes de Ninhos de Pássaro [Estádio Nacional] e CCTV [sede da televisão oficial] por todo o país."
Há outras consequências desta abertura ao Ocidente. O regime não se coibiu de chamar a Pequim grandes arquitectos estrangeiros para erguer as novas obras mais espectaculares da cidade. Como diz Zhang Hong, os clientes gostam de ser surpreendidos. O novo edifício construído por Rem Koolhaas para a CCTV tem 465 mil metros quadrados - o segundo maior edifício de escritórios do mundo a seguir ao Pentágono. Desafia as leis da gravidade com as suas duas torres inclinadas e unidas na base e no topo.
Recordes olímpicos
Os Jogos Olímpicos foram um novo pretexto para a modernização de Pequim e encarados como a montra do desenvolvimento chinês (o país em maior aceleração económica do mundo). A cidade olímpica tem seis vezes o tamanho da criada em Atenas. Catorze dos 37 estádios dos Jogos são novos, e o orçamento de 35 mil milhões de euros é o maior de sempre. O Estádio Nacional conhecido como "Ninho de Pássaro", e construído pela dupla de arquitectos Herzog & de Meuron, tornou-se um dos mais emblemáticos; será lá, com 91 mil pessoas a assistir, que decorrerá a cerimónia de abertura e encerramento dos Olímpicos.
"Os chineses são loucos por coisas novas. Talvez seja uma coisa do subconsciente, por causa da Revolução Cultural. Foi toda uma década em que não houve educação e a falta de consistência cultural veio destruir o que tinha ficado. Depois foi preciso reconstruir o ambiente físico, que levou décadas a acompanhar as mudanças [sociais e económicas]", diz Zhang Ke.
Um realizador da CCTV, Li Ye-mo, conta uma história antiga para falar de uma cidade nova. Durante a dinastia Ming, começa, a parte ocidental de Pequim tinha cinco torres. Em contrapartida, a oriental não tinha nenhuma. Um carpinteiro, Lu Ban, decidiu por isso percorrer todo o país à procura de uma torre. Encontrou-a em Hangzhou, num lago, onde estava um homem alto e forte. Mandou-o levá-la para o Leste da cidade, onde tinha que chegar antes de o galo cantar. O homem andou mil quilómetros numa noite e quando chegou a Pequim, à porta de um templo, viu um grupo de homens a jogar a dinheiro. Pensou: "Que interessante." E ficou a ver. O que ganhou ria muito. O homem alto e forte distraiu-se e de repente o sol nasceu, o galo cantou e ele transformou-se numa torre de pedra. "A torre acabou por ficar fora do Leste da cidade. E há 20 anos foi destruída. É a civilização."
Será que os chineses não gostam do seu passado? A resposta de Li Ye-mo é outra: "A cidade quer ficar mais forte e construir coisas novas. Por isso arrasa as antigas. As pessoas preocupam-se mais com as suas casas, com o dinheiro, em ter ou não um carro do que com a civilização antiga. Não têm tempo mental para isso."
O realizador procura mitos de Pequim para passar no seu programa de televisão. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, uma história de 30 minutos sobre o passado da cidade. Esta é também uma forma de procurar a alma da capital, perdida na permanente construção de edifícios, nos gigantescos outdoors, na velocidade com que todos se movem.
Fachada sem tradição
Uma das coisas que podem surpreender um visitante das cidades chinesas é a "monumental ausência de passado", uma fachada "desprovida de qualquer carácter tradicional", diz o sinólogo Simon Leys (Ensaios sobre a China, Cotovia 2005). Tendo interiorizado a ideia de que nada escapa ao passar do tempo, os chineses "decidiram ceder ao seu impacto para melhor o inflectir ou neutralizar". A arquitectura é feita de materiais perecíveis que exigem reconstrução - "a eternidade não deve habitar a arquitectura, mas sim o arquitecto".
Assim, a tradição, mais do que nos edifícios, encontra-se no que cada chinês transporta consigo. "O passado que continua a animar a vida chinesa de um modo tão surpreendente, inesperado e subtil, mais do que as pedras parece habitar os homens." E é isso que explica o facto de desde há mais de dois mil anos a língua se escrever praticamente da mesma maneira, ou de se poder encontrar raviolis iguais aos que eram cozinhados há 20 séculos.
Leys interroga-se se "não existirá uma certa relação entre o inesgotável génio criador de que a civilização chinesa deu provas ao longo dos tempos e o fenómeno periódico de tábua rasa que impediu esta cultura de sufocar sob o peso dos tesouros acumulados pelos séculos". E conclui: "Com efeito, pensar é eliminar."
Zhang Hong acrescenta outro factor para a forma descomprometida com que as construções mais antigas são arrasadas. "Os chineses tentam preservar, mas a verdade é que são muito abertos." E exemplifica com a sua própria experiência de arquitecto: "O cliente só fica contente se lhe apresentarmos uma coisa totalmente nova. Só os templos são construídos para viverem muito tempo."
Ao lado, Zhang Ke completa: "Uma superestrutura ocupou a antiga. É uma outra cidade, que tem o mesmo nome. Em termos de planeamento, é uma cidade irrelevante, porque despreza a sua existência anterior." Diz também que se antes as referências eram os muros e a Torre do Tambor (do século XIII), agora são a CCTV e o Ninho de Pássaro. Pode não ser por muito tempo, porque o ritmo de mudança está bem instalado. "Pequim vai continuar a transformar-se e até a CCTV será enterrada à sombra de outro ou outros edifícios mais ambiciosos. E Pequim será outra vez uma nova cidade. É como o terramoto: passada a fase de choque emocional fica-se à espera do novo momento." A cidade está, portanto, a aguardar pelas réplicas.