"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Estudo conduzido pela Universidade de Oxford
Tetris pode ajudar a minimizar os efeitos do stress pós-traumático
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1355260&idCanal=62
07.01.2009 - 15h41 Susana Almeida Ribeiro
O popular Tetris, que se espalhou como um vírus por computadores e consolas durante as décadas de 1980 e 1990, pode afinal ser mais do que um simples jogo viciante. De acordo com um estudo conduzido pela Universidade de Oxford, o jogo poderá ter aplicações terapêuticas no domínio do stress pós-traumático, ajudando as suas vítimas a ter menos “flashbacks” penosos relacionados com o episódio traumático vivido.

O stress pós-traumático, muitas vezes associado a antigos combatentes de guerra, pode afectar qualquer pessoa que sofra um incidente repentino e chocante, como seja um acidente de automóvel. Uma das principais características do stress pós-traumático é a ocorrência de “flashbacks”, nos quais a vítima volta a reviver, na sua mente, os acontecimentos traumáticos de forma muito real.

O departamento de Psiquiatria da prestigiada universidade britânica realizou um estudo com o auxílio de 40 voluntários saudáveis, aos quais foi mostrado um filme de 12 minutos com cenas traumáticas (envolvendo acidentes, dor e mortes). Depois do filme, ao qual se seguiu uma pausa de 30 minutos, as 40 pessoas foram divididas em dois grupos. Vinte limitaram-se a ficar sentadas e em silêncio. Às pessoas do segundo grupo foi dada a tarefa de jogarem Tetris durante dez minutos. Após a experiência, foi entregue a cada pessoa um diário. Nele deveriam apontar, durante a semana seguinte, a quantidade de vezes que tinham tido “flashbacks” penosos relativamente às imagens traumáticas que tinham visto. Ao analisarem os diários, os cientistas concluíram que as pessoas a quem tinha sido pedido para jogarem Tetris, tinham tido menos “flashbacks” do que as que se tinham limitado a ficar caladas, quietas e em silêncio.

Por outras palavras, as pessoas que estiveram entretidas a alinhar blocos coloridos, não tiveram tempo para visualizar novamente, nas suas mentes, as cenas traumáticas às quais tinham assistido previamente, e isso reflectiu-se durante toda a semana seguinte. Este estudo baseia-se no princípio - que não é inovador - de que a “distracção” pode ajudar à “dessensibilização”.

A investigadora responsável pelo estudo, Emily Holmes, e a sua equipa, querem provar que, até certo ponto, o jogo de computador ajuda o cérebro a bloquear as memórias dolorosas. “O que o Tetris faz é competir pelos recursos do cérebro, no que toca a informação sensorial. O que nós sugerimos é que o jogo interfere especificamente na maneira das memórias sensoriais serem arquivadas no período após o trauma e que isso reduz o número de ‘flashbacks’ que são vividos mais tarde”, indica Emily Holmes, citada pela BBC online.

“Este foi o primeiro passo para demonstrarmos que esta poderá ser uma abordagem viável à prevenção da síndrome do stress pós-traumático”, acrescentou Emily Holmes ao “Telegraph”, salientando, porém, que ainda é preciso fazer muita coisa para “adaptar este resultado científico experimental a um potencial tratamento”.

“Não estamos a tentar dizer que as pessoas que sofrem de stress pós-traumático devem jogar Tetris, mas achamos que é muito importante percebermos como é que o cérebro funciona e como é que produz ‘flashbacks’ intrusivos”, disse ainda a especialista à BBC.

Fundamental é que o jogo de Tetris seja introduzido logo após o acontecimento traumático, ou pelo menos num intervalo máximo de seis horas após o episódio.

“Sabemos que há um período até seis horas no qual é possível afectar certo tipo de memórias que são depositadas na mente humana (...) O que ficou aqui demonstrado foi que com voluntários saudáveis, o jogo de Tetris durante essa janela temporal pode ajudar a reduzir os ‘flashbacks’, sem que a pessoa perca a habilidade de ter noção do que se passou”, indicou ao “Telegraph” Catherine Deeprose, co-autora do estudo.

Ouvido pela BBC, o especialista do Aberdeen Centre for Trauma Research David Alexander frisou que é eticamente impossível simular em laboratório um acontecimento tão dramático e catastrófico como os que dão origem ao stress pós-traumático, e ainda menos quando os voluntários já sabem que irão ser submetidos a uma experiência desagradável.

Para além disso, David Alexander salientou ainda que, normalmente, o stress pós-traumático só consegue ser diagnosticado algumas semanas após o incidente, e não apenas algumas horas depois.