"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, março 22, 2009

Mulheres bombistas são "carne para canhão"
http://jornal.publico.clix.pt/
22.03.2009, Sofia Lorena


Elas têm motivos próprios e perfis diferentes. Eles decidem deixá-las morrer assim porque que isso resulta. Fazem falta outras heroínas



As mulheres da Al Khansaa estão outra vez encurraladas. Renunciaram à Al-Qaeda há meses - Khansaa era a ala feminina de bombistas suicidas de Duluiyah -, mas o que têm agora também "não é grande vida", escreve a Newsweek na última edição. Proibidas de velar o rosto para serem sempre reconhecidas, são ostracizadas pelos vizinhos. Um dia, quatro saíram à rua ao mesmo tempo e isso chegou para lançar o pânico nas ruas.

O princípio do fim do grupo foi o suicídio de Sana Alwan, em Setembro. Num checkpoint, um dos guardas reconheceu a voz da sobrinha que a família sabia estar a ter "maus pensamentos". Só morreu Alwan, que vinha de túnica preta e véu. Logo depois, as forças de segurança encontraram a líder da célula, outras nove suspeitas e muitos coletes de explosivos.
Duluiyah, 100 quilómetros a norte de Bagdad, é uma cidade pequena e era fácil seguir o rasto às restantes, que começaram a sentir-se sem saída. Quatro recorreram ao mullah Nadhum al-Jabouri, líder religioso local. "Elas pediram-me para encontrar uma forma de voltarem a pertencer à sociedade. As mais novas não podiam casar dentro da tribo, as mais velhas não podiam ir ao mercado, as de meia-idade não conseguiam trabalho", contou Jabouri à revista norte-americana. Em Novembro, 18 entregaram-se, seguiram-se mais 23.
O investigador Yoran Schweitzer, director do Projecto Terrorismo no Instituto para os Estudos de Segurança Nacional de Israel, diz que nunca se viu um tal recurso a esta arma. Mia Bloom, autora de Dying To Kill, The Allure of Suicide Terror (e a terminar Bombshell: Women and Terror), garante que os Tigres Tamil do Sri Lanka usaram mais mulheres suicidas do que a insurreição iraquiana - entre 1999 e 2005, 35 por cento dos 210 atentados dos tamil foram de mulheres, escreve em Dying To Kill. Mas nunca tantas se fizeram explodir num tão curto período. Em 2007, foram oito, mas em 2008 houve pelo menos 36 a tentar ou conseguir levar a cabo 32 ataques. Em Fevereiro, uma suicida de abbaya (túnica) negra matou 35 peregrinos.
As mulheres que decidem transformar-se em bombistas suicidas - ou que são levadas a fazê-lo - terão diferentes motivos e têm diferentes perfis. Os líderes - homens - que decidem deixá-las morrer como mártires fazem-no porque isso resulta.
O facto de elas terem começado a ser mais usadas quando a segurança apertou, com o reforço americano de 2007 e os milhares de ex-insurrectos árabes sunitas que se puseram ao lado dos Estados Unidos, mostra que ainda são uma segunda escolha.
"Não há uma resposta mágica para o aumento súbito, mas suspeito que a Al-Qaeda e os insurrectos perceberam que elas forneciam uma vantagem operacional. Quando os homens começam a perder, viram-se para outras opções. Para estes, foram as mulheres", disse numa conversa por email Farhana Ali, analista da RAND.
Fatwas à medida
A existência de mulheres dispostas a morrer numa guerra é quase tão antiga como o suicídio como arma. Antes, era mais comum em grupos seculares e nacionalistas. Mas o recurso a "mártires" ou shahidas por grupos islamistas, como o Hamas e até a Al-Qaeda, deixou há muito de ser tabu.
No Iraque, Abu al-Zarqawi (na imagem), líder local da Al-Qaeda, foi o primeiro a dizer que isso era permitido. Já havia mulheres bombistas antes - as primeiras fizeram-se explodir logo em Março de 2003. Mas foi com a Al-Qaeda, e depois de Zarqawi reivindicar como seus os feitos delas, que a táctica se tornou mais frequente.
A necessidade faz o engenho e, neste caso, a doutrina. Estes líderes, que se dizem religiosos, "são muito pragmáticos, afastam-se da ideologia à medida das necessidades", disse Bloom numa entrevista. Emitem uma fatwa (édito religioso) e depois outra. E isso é fundamental "como justificação para exterior e para confortar os que realizam os ataques", nota Schweitzer.
Não em nome do género
Do ponto de vista de quem decide, elas representam uma mais-valia mediática - um atentado com uma mulher suicida consegue sempre mais atenção -, são uma ferramenta útil de recrutamento entre os homens, são mais eficientes por representarem ainda um elemento surpresa e porque, nas sociedades conservadoras, é mais difícil que sejam revistadas.
Em Israel, a partir de certa altura começou a ser quase impossível para os homens solteiros com menos de 40 anos passarem nos controlos da fronteira. No Iraque, há agora mulheres (Filhas do Iraque) nas forças de segurança para se aproximarem das outras mulheres e as revistarem.
Alguns estudiosos têm defendido que as bombas humanas no feminino também querem marcar uma posição "em nome de um género". Mas os analistas ouvidos pelo PÚBLICO discordam. Mia Bloom começou por pensar o mesmo até falar com mulheres que tinham querido ser mártires e falhado. "Elas não olhavam para as suas sociedades como desiguais, essa ideia é mais uma construção do feminismo ocidental", aponta.
Nas sociedades conservadoras e religiosas em que se estranha que as mulheres sejam autorizadas a tornar-se shahidas, nota o investigador israelita, esta é na verdade a "forma mais fácil de elas contribuírem", uma solução que não significa dar-lhes treino nem poder real. Muitas vezes, diz Bloom, são só "munições, carne para canhão". E lembra o caso de duas palestinianas que se ofereceram para um ataque e "mudaram de ideias porque teriam de se vestir como israelitas, com mini-saias e muita maquilhagem e não estavam dispostas a expor-se assim".
Coagidas e pressionadas
O que parece acontecer no Iraque é muitas destas mulheres serem "coagidas", diz Schweitzer, e isso é novo. A "mãe dos crentes", como se auto-denomina Samira Ahmed Jassim, de 50 anos, que foi presa em Janeiro e confessou ter recrutado 80 mulheres, contou que os insurrectos organizavam a violação de algumas mulheres antes de a mandarem recrutá-las.
Também é novo os jihadistas recorrerem a crianças - pelo menos uma rapariga de 14 anos tentou cometer suicídio - ou a mulheres já tratadas num hospital psiquiátrico, como as que se explodiram num mercado de pássaros em Bagdad. E há casos de explosivos accionados por controlo remoto, para impedir desistências.
O que é normal noutros conflitos e aqui se repete é "a pressão social mais ou menos subtil, dizem-lhes 'perdeste o marido, o que é que vais fazer agora'", afirma Bloom.
No Iraque, há muito por fazer para combater este fenómeno. Mia Bloom diz que "há uma cultura que faz das bombistas heroínas e é preciso uma cultura que encontre outras heroínas". Melhorar as condições de vida ajudaria, dizem Bloom e Ali. Bloom gostava também de ver mais líderes religiosos criticarem publicamente estes ataques e dizerem que são contra o islão.
Do Iraque para o mundo?
Está por saber se o terrorismo suicida de mulheres nesta dimensão será repetível noutros conflitos, mas a tendência veio para ficar.
"Vamos ver mais mulheres bombistas noutros sítios, mas estes números só são possíveis com condições muito especiais. E as mulheres não são a primeira prioridade nestas sociedades, ainda há refreamento", sustenta Schweitzer. "Não há acordo entre todos os líderes do movimento salafista jihadista sobre o uso de mulheres. Demoram até ultrapassarem as dúvidas. Quando isso aconteceu no Iraque, o número de mulheres suicidas literalmente explodiu", concorda Bloom.
Para a investigadora e professora da Escola de Relações Internacionais da Universidade de Georgia, nos EUA, o Afeganistão pode ser um bom indicador da queda das últimas resistências entre os jihadistas, mas no país dos taliban e das burqas ainda não há registo de mulheres suicidas. Bloom diz que já só ficará "verdadeiramente surpreendida" quando isso acontecer ali ou na Arábia Saudita.