"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, maio 14, 2009

Prefeito quer mudar metade da sua cidade no Nordeste do Brasil para outro sítio
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14.05.2009, Isabel Gorjão Santos


Marajá do Sena fica alagada sempre que chove e agora há um projecto para a tirar do fundo do vale. É uma das cidades atingidas pelas cheias dos últimos dias


As cheias no Nordeste brasileiro já atingiram nos últimos dias mais de um milhão de pessoas em 357 cidades. No Maranhão, um dos estados mais afectados, o responsável da autarquia de Marajá do Sena quer mudar boa parte da cidade para outro local, mais longe do vale que, sempre que chove, fica alagado.
Marajá do Sena tem 6790 habitantes e este ano metade da população já foi atingida pelas enchentes. Cerca de 1900 pessoas ficaram desalojadas. O município só existe desde 1994, depois de a cidade se ter separado de outra autarquia vizinha, Paulo Ramos, mas as cheias são uma constante e parte do problema está na forma como a cidade foi construída.
"O pessoal construiu a cidade no local errado, um vale que sempre alaga. A solução é mudar o centro administrativo [prefeitura e secretarias] e as casas para três quilómetros daqui, lá em cima do vale", disse à versão on-line do Folha de S. Paulo o prefeito Manoel Oliveira da Costa. O objectivo é que os prédios municipais sejam abandonados e que as famílias recebam um sítio para as novas casas.
Ali os mantimentos só chegam depois de uma viagem de cinco horas de barco mais hora e meia de burro, ou então de helicóptero. Não há quase nada que ligue Marajá do Sena a outros locais. Pode andar-se de mota mas não há estradas, nem foram destruídas pelas cheias. Nunca houve.
Ontem, cerca de 50 casas estariam alagadas, apesar de não chover há várias horas, contou ao PÚBLICO o vereador William Martins Chaves. No centro da cidade, banhada pelo rio Grajaú, mora cerca de 15 por cento da população. São 350 casas que quase sempre ficam alagadas quando chove.
Num dos povoados, Catitu, João Posto, 51 anos, atende o telefone da cabine pública e explica que tem cinco filhos, já todos abrigados numa casa mais longe da zona inundada. "Há quatro casas alagadas no povoado e uma é a minha", diz. "Há gente desalojada e tem morrido muito gado."
Quanto ao projecto do prefeito da autarquia, o vereador Martins Chaves diz que será uma solução, mas que "terá de ser concretizada com apoios do Governo federal". Mudar parte das casas é um projecto que custará cerca de dez milhões de reais (ou 3,5 milhões de euros), quase três vezes o que cabe à autarquia através do Fundo de Participação dos Municípios.
A Secretaria Nacional de Defesa Civil anunciou que 300 mil pessoas tiveram de deixar as casas devido às chuvas em 13 estados. Mais de 196 mil ficaram desalojadas e 100 mil tiveram de ser acolhidas em abrigos públicos. A situação é pior no Ceará, onde houve 75 cidades atingidas e 12 das 42 mortes que se verificaram no país.
13
estados brasileiros foram atingidos pelas cheias nos últimos dias, que afectaram mais de um milhão de pessoas