Celebridade
Paris Hilton: o ícone louro do século XXI
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por ANTÓNIO RODRIGUES
Afirma-se como a loira icónica do século XXI, herdeira de Marilyn Monroe e da princesa Diana. Vive rodeada de um circo mediático que a acossa e alimenta, encenando a sua própria existência para os holofotes dos media. Paris Hilton é a fama feito gente num mundo que só existe em versão tablóide como o seu romance com Cristiano Ronaldo
No princípio era o apelido. A herdeira do império Hilton atraía as atenções dos media com as suas extravagâncias, o seu gosto pelas festas, a sua vontade de estar sempre nas bocas do mundo, a disponibilidade para fazer da sua vida uma constante atracção para os jornais, as revistas, a televisão.
A seguir, a persona inventada tomou o lugar no centro do cenário, na parte mais iluminada pelos holofotes, e o apelido, por si só, passou a secundário. Paris deixava de ser atracção por ser herdeira de um dos mais famosos impérios hoteleiros e transformava-se em objecto de atracção noticiosa por ser ela mesma: Paris Hilton.
Da crisálida herdeira irrompeu para o sol dos flashes a borboleta famosa, que é como quem diz, transformou-se Paris Hilton em sinónimo de fama, em luz que se alimenta de si mesma, em ser apaixonado por si próprio e capaz com isso de fazer apaixonar os outros. Já o dizia Camões, "transforma-se o amador na coisa amada, por virtude de tanto imaginar".
Paris fez isso consigo. Transformou-se na celebridade entre as celebridades, num ser que precisa da atenção dos tablóides, da indiscrição dos que lhes estão próximos, da agressividade sem escrúpulos dos paparazzi, do acosso dos anónimos, da protecção dos guarda-costas. Um ser que quando acorda não procura o sol mas o flash da câmara fotográfica mais próxima.
Mesmo continuando a ser a neta de William Barron Hilton - de quem se diz que resolveu doar 97% da sua fortuna de quase 2,3 mil milhões de dólares no final de 2007 por vergonha do comportamento de Paris -, por esta altura a ordem dos factores já foi invertida: é Barron Hilton quem surge identificado como o avô de Paris Hilton. O estatuto de Paris deixou de lhe ser conferido pelo apelido, passando a estatuto em nome próprio.
Paris Whitney Hilton transformou-se em Paris Hilton, um ícone muito parecido com uma das herdeiras do império Hilton - nascida como ela em Nova Iorque a 17 de Fevereiro de 1981 no seio de uma família católica, a mais velha dos quatro filhos de Richard e Kathy Hilton - mas de dimensão excessivamente grande e intensa para se confinar a um nome de hotel, mesmo sendo uma das maiores cadeias de hotéis do mundo.
Aos 28 anos, é já a loura platinada mais conhecida do planeta a seguir a Marilyn Monroe. Ou será antes? No Google.com, ao introduzir apenas Paris, não é a capital francesa quem irrompe primeiro das profundezas do algoritmo mais famoso da história moderna e, sim, Paris Hilton. A cidade- -luz, a capital romântica, o lugar dos sonhos é apenas quarta atrás de Paris Hilton e do seu vídeo e do hotel-casino Paris, em Las Vegas. É caso para dizer que a fantasia ganhou à realidade.
Mais do que uma mulher, Paris Hilton é uma criação: uma celebridade inventada, testada e aprimorada em função da sociedade em que vivemos. Um nome, uma imagem (no Google.com são 53,5 milhões de citações e 7,6 milhões de imagens), linhas de perfumes, extensões de cabelo, jóias, telemóveis, uma colecção de sapatos, outra de roupa, outra de malas de mão, um filme de sexo amador que se transformou em 2004 numa atracção à escala mundial, dois livros (Confessions of a Heiress e Your Heiress Diary), um disco (Paris) e uma carreira como actriz - na maior parte das vezes, interpretando-se a si própria ou com um papel muito próximo do seu.
Tal como aconteceu no The Simply Life, um reality show com Nicole Richie, a filha adoptiva do cantor Lionel Richie. Durante cinco temporadas - primeiro na Fox e nas últimas duas na E! Entertainment Television -, as duas socialites parodiaram as suas imagens, mostrando a incapacidade para os trabalhos mais simples, o seu desajuste em relação à vida dita normal, ao mesmo tempo que facturavam com o estereótipo de loura burra.
"Não existe ninguém no mundo como eu. Acho que em todas as décadas há uma loura icónica - como Marilyn Monroe ou a princesa Diana - e, neste momento, sou eu esse ícone", referiu a própria. "Sou uma empresária, sou uma marca, logo, tudo o que faço é para expandir a minha marca e conseguir uma maior exposição." E são precisas três empresas para gerir a sua carreira e todo o carrossel de produtos baseados na sua imagem: Paris Hilton Enterprises, Bang Bros. e Paris Hilton Entertainment.
De acordo com o site Forbes.com, a modelo, actriz, empresária ganhou o ano passado oito milhões de dólares com o império que construiu em seu nome. No documentário Paris, not France, estreado o ano passado no Festival de Cinema de Toronto, a realizadora Adria Petty mostra o resultado de um ano a acompanhar Paris Hilton para todo o lado.
Para lá da frivolidade dos tablóides, do louro ofuscante do cabelo, do chihuahua carregado como se fosse um adereço, das camisolas com a sua própria silhueta segurando um chihuahua, Petty filma um universo de trabalho intenso onde se pensa ao pormenor a exposição de Paris Hilton como identidade separada da Paris Hilton de carne e osso. Aliás, é razão para perguntar se ainda existe uma de carne e osso para além do calculismo mediático com que se apresenta.
Petty refere que lhe custou encontrar uma forma de passar para lá da personagem; o treino e a força de vontade transformaram Paris Hilton num ser altamente preparado para o mundo mediático, sem nunca abrir a guarda, sempre atida ao guião preconcebido. E foi por acaso, diz a realizadora, que descobriu a única forma de conseguir penetrar as defesas da celebridade.
Sentada ao volante do carro, mais ou menos protegida do mundo lá fora, Paris Hilton vai deixando escapar maiores intimidades, como se a câmara fosse o seu diário - o que acaba por não ser estranho tendo em atenção a relação próxima que têm mantido ao longo dos anos. Há, porém, nessas imagens algo de Big Brother - do confessionário do programa televisivo da Endemol e não do romance de George Orwell - e, por maior que seja a sinceridade subjacente, o pé fica sempre atrás quanto ao resultado a extrair.
Cintra Wilson, célebre analista da cultura popular nos Estados Unidos (autora da coluna "The Dregulator" no Salon.com), chamou- -lhe "génio warholiano de manipulação dos media". Quanto haverá de "génio warholiano" no alegado romance com Cristiano Ronaldo, precisamente na altura em que o jogador português se transformou na maior transferência de sempre do futebol mundial?

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