"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, novembro 25, 2009

a caligrafia difícil

Mussolini na intimidade, numa caligrafia apertada e difícil
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/25-11-2009/mussolini-na-intimidade-numa-caligrafia-apertada-e-dificil-18261238.htm


Os diários da amante de Mussolini deram um livro que promete revelar algumas facetas menos conhecidas do ditador italiano e destruir a ideia de que era afável e humano



Se houvesse uma competição dedicada a eleger o maior ditador de todos os tempos, Benito Mussolini, que governou Itália entre 1922 e 1943, teria conseguido, nas duas últimas semanas, subir vários degraus nessa antipática classificação. O livro Mussolini Secreto, recentemente chegado às livrarias, retrata-o a partir dos diários da amante, Clara Petacci (a mesma que foi enforcada ao seu lado em Abril de 1945), e, talvez por isso, exibe-o como um fanfarrão, um racista avant la lettre e um homem um pouco depravado, que coleccionava amantes e desprezava a mulher. Não é um esboço bonito. Mas, tratando-se d""Il Duce", é possível que esta fosse precisamente a imagem que ele gostaria de deixar para a posteridade.

Escrito pelo jornalista Mauro Suttora, Mussolini Secreto gerou, num ápice, uma avalancha de notícias em todo o mundo, citando os excertos revelados no dia 16 de Novembro pelo jornal italiano Corriere della Sera. As 521 páginas da obra são o culminar de vários meses de trabalho, durante os quais Suttora estudou as mais de duas mil páginas com as confissões de Claretta (assim ficou conhecida), numa caligrafia "apertada e difícil".

Estas confissões, escritas entre 1932 e 1938, terão sido deixadas pela amante do ditador a uma amiga quando a Segunda Guerra Mundial se aproximava do fim e o regime de Mussolini tinha já caído. Encontrados em 1950, os diários permaneceram até agora no arquivo estatal italiano, em Roma.

Conflito com o Vaticano

Quem já tenha visto imagens de Mussolini de braços cruzados, o queixo orgulhosamente erguido, sacudindo a cabeça com trejeitos de brigão num baile de aldeia não se surpreenderá por aí além com as frases de Claretta Petacci. O ditador considerava-se o nec plus ultra do fascismo e detestava ser visto como alguém que se limitava a seguir os ditames de Adolf Hitler. "Eu já era racista em 1921, não sei como podem pensar que imito Hitler se ele ainda nem tinha nascido" politicamente, cita Claretta na entrada relativa a 4 de Agosto de 1938.

"Os italianos deviam ter mais consciência de raça para não criar mestiços, que vão estragar aquilo que temos de bonito", terá dito Mussolini à amante, segundo a qual o Papa Pio XI conseguiu enfurecer "Il Duce" quando defendeu os casamentos interraciais. Pio XI - que antecedeu Pio XII, mais benevolente com a perseguição xenófoba que estava para começar - havia defendido que todos os católicos são espiritualmente judeus e advogou que os hebreus são pessoas iguais às outras, o que desagradou a Mussolini. "Se os do Vaticano continuam assim, vou romper relações com eles. São uns miseráveis hipócritas. Proibi os casamentos mistos e agora o Papa defende que se casem italianos com negras. Não! Vou partir-lhes a cara a todos!", citou Claretta, ainda a 4 de Agosto de 1938.

Nas conversas com a amante, "Il Duce" descrevia Hitler como um "velho sentimental" que, às vezes, era acometido por acessos de fúria a que só ele conseguia pôr cobro. Dois meses mais tarde, o registo do diário diz respeito à conferência de Munique em que foi discutida a invasão da antiga Checoslováquia e reza assim: "A recepção em Munique foi fantástica e o führer foi muito agradável. No fundo, Hitler é um velho sentimental. Quando me viu, tinha lágrimas nos olhos. Ele realmente gosta muito de mim".

O ditador espanhol Francisco Franco também não escapa à jactância de Mussolini. A 22 de Dezembro de 1937, pouco tempo depois do fim da guerra civil em Espanha, o diário regista que, para "Il Duce", "Franco é um idiota". "Acredita que ganhou a guerra com uma vitória diplomática, porque alguns países o reconheceram, mas tem o inimigo em casa. Se tivesse metade da garra dos japoneses, tinha tudo resolvido em quatro meses, mas os espanhóis são apáticos e indolentes, têm muito de árabes (...). É essa a razão pela qual comem e dormem tanto."

Numa entrevista ao jornal espanhol El País, Mauro Suttora considera que os relatos de Claretta destroem, de uma vez por todas, a ideia segundo a qual Benito Mussolini era um ditador humano, um fascista afável e de pequena escala e uma espécie de irmão mais novo de Hitler, que só aprovou leis contra os judeus para agradar ao líder nazi.

"Temos de destruir todos estes judeus nojentos", terá dito, segundo Claretta Petacci (16 de Novembro de 1938). Noutro momento, Mussolini chama aos judeus "répteis" e "inimigos".

Amante arrebatado

Piero Melograni, um historiador citado pela Associated Press, autor de vários livros sobre o fascismo e a Segunda Guerra Mundial, concorda com o diagnóstico de Suttora, mas acrescenta que os episódios íntimos da relação de Mussolini e Claretta acabam por humanizar "Il Duce". E há ainda a possibilidade, recordada por outro historiador, Giovanni Sabbatucci, de os registos da amante não reflectirem o verdadeiro pensamento político do líder fascista, uma vez que as frases citadas podem resultar de simples bazófia amorosa.

Independentemente da interpretação política destas confissões, os diários de Petacci parecem estar repletos de descrições da vida íntima do fascista. "Sabes, amor? Ontem à noite, no teatro, despi-te pelo menos três vezes. Olhava para ti, tirava-te a roupa mentalmente e desejava-te como um louco", terá dito Mussolini no dia 5 de Janeiro de 1938.

Nos diários, o ditador surge como um amante arrebatado e capaz de proferir frases como "o teu pequeno corpo enlouquece-me, amanhã será meu, todo meu; vou tomá-lo e seremos um só". Ainda assim, o mui católico Benito mostra-se totalmente incapaz para a prática da fidelidade. Na entrada relativa a 19 de Fevereiro de 1938, Claretta conta que Mussolini lhe confessou ter outras amantes: "Adoro-te e sou um louco. Não devia fazer-te sofrer. Sim, meu amor, agi mal e cada vez te amo mais e sinto que me és mais necessária do que nunca."

Já outros homens viram a sua intimidade revelada pelas amantes, mas, se houver uma competição para eleger o ditador mais concupiscente da História, é provável que Mussolini esteja agora à frente do campeonato.Clara Petacci foi uma das muitas amantes de Benito Mussolini. Os dois foram executados em Abril de 1945 e os seus corpos expostos durante dias na Praça Loreto, em Milão