Definir o que é ser francês servirá apenas para cortar na imigração?
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/25-11-2009/definir-o-que-e-ser--frances-servira-apenas-para-cortar-na-imigracao-18285528.htm
Por Clara Barata
Governo lançou discussão que para muitos tem contornos xenófobos e a esquerda recusa participar. O primeiro grande debate público é hoje
Uma língua de escritores, um país que não reconhece os seus jovens, uma nação ambiciosa
Governo quer punir patrões que empregam "sem-papéis"
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"O que é ser francês?", perguntou Eric Besson, o ministro da Imigração e da Identidade Nacional de França, lançando um debate nacional. "E para que é preciso definir o que é ser francês?", lançaram-lhe, em contra-resposta, a oposição e muitos intelectuais, que acusam o Governo de Nicolas Sarkozy de querer apenas arranjar maneira de cortar na imigração, e até nos benefícios aos cidadãos franceses filhos de imigrantes, os que se revoltaram nos subúrbios, e que são apontados como não estando "integrados".
O debate já começou, nos media, na Internet, em vários sites e em particular no sítio criado pelo Governo (http://www.debatidentitenationale.fr), mas a primeira grande discussão ao vivo e aberta à imprensa acontece hoje, precisamente no ministério de Besson, em Paris.
Mas todas as prefeituras, na França metropolitana e ultramarina, podem e devem organizar o seu debate - para tal, está a ser distribuído um kit com perguntas para organizar as discussões locais entre os cidadãos, que "junta a política à arte de bem viver", explica o jornal Le Figaro.
A perguntas como "o que faz com que nos sintamos próximos dos outros franceses, mesmo sem os conhecermos?", juntam-se referências "à nossa gastronomia", "às nossas igrejas e catedrais", num ensaio de psicanálise colectiva.
Só que muitas dizem claramente respeito à imigração, denuncia um artigo no Le Monde assinado por várias personalidades, entre as quais a escritora Marie NDiaye, cujo pai era senegalês e ganhou o Prémio Goncourt este ano, e Jean-Pierre Dubois, presidente da Liga dos Direitos Humanos.
"Descobre-se uma lista de preconceitos e falsas evidências definindo, à partida, a identidade nacional. São abordados vários temas, mas o tema do "estrangeiro" é, na realidade, central. E algumas perguntas formuladas a esse propósito são orientadas, chocantes e inaceitáveis", escrevem os signatários deste artigo, que incluem vários sociólogos e juristas.
O artigo, com o título "recusemos um debate colocado em termos xenófobos!", exemplifica o problema com uma das perguntas: ""Como evitar a chegada ao nosso território de estrangeiros em situação irregular, em condições de vida precária geradoras de desordens diversas (trabalho clandestino, delinquência) e causando, numa parte da população, suspeição do conjunto dos estrangeiros?". Encontram-se aqui, condensados numa única frase, todos os lugares-comuns do discurso xenófobo".
"Francité"
Ministério da Imigração, da Integração, da Identidade Nacional e do Desenvolvimento Solidário é o nome completo da pasta de Besson, um ex-socialista que se tornou num homem-chave da galáxia de Sarkozy (escrevia em Outubro a revista L"Express). Coube-lhe lançar o debate sobre a identidade nacional, que se tornou uma bandeira de Sarkozy - muito útil para conquistar eleitores à direita do seu partido, a UMP, nomeadamente à Frente Nacional de Marine Le Pen. Tanto assim que lhe consagrou um ministério, num país construído na tradição do acolhimento de imigrantes.
"A criação de um Ministério da Identidade Nacional lançou na cena pública palavras que designavam o estrangeiro separado de um "nós" nacional. Foram palavras de um misterioso sector do Governo de que não se via bem a função, submerso em tantos símbolos: "identidade" como causa nacional, "integração" como outra palavra de exclusão, "imigração" como problema identitário", escreveu no Le Monde Michel Agier, da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, especialista em temas relacionados com refugiados.
O ambiente nos media, percebe-se bem, não é favorável a este debate, que é recusado pela esquerda. Mas muitos intelectuais e académicos têm oferecido um contributo que passa mais por arrasar os motivos do debate do que por oferecer ideias para definir a "francidade" ("francité", como se diz em vários textos publicados, num tom mais ou menos jocoso).
A líder do Partido Socialista, Martine Aubry, não hesitou em dizer, este fim-de-semana, que Sarkozy "fazia a França passar uma vergonha por querer opor a identidade nacional à imigração", denunciando "o clima atroz" em torno da imigração que se está a instalar no país. Aubry está "orgulhosa por ser basca e francesa".
Uma sondagem TNS-Soffres publicada ontem no jornal La Croix revelava que apenas 38 por cento dos franceses reivindicam espontaneamente a sua identidade nacional, enquanto 45 por cento preferem dizer-se de um bairro, de uma cidade ou de uma região. Quando interrogados sobre quais os elementos da identidade francesa mais importantes, 96 por cento consideravam os direitos do Homem o mais importante, à frente mesmo da língua francesa (95 por cento), do sistema de protecção social (94 por cento) e da cultura e património (92 por cento).
Como se conjugam estes resultados da sondagem com os sentimentos e com um clima em que o multiculturalismo, termo tão em voga na última década, é mais sinónimo de tempestade do que harmonia, é difícil dizer.
"Este grande debate deve permitir valorizar tudo o que a imigração trouxe para a identidade nacional, e propor acções que permitam partilhar melhor os valores da identidade nacional em cada etapa do percurso de integração", escreveu o ministro Besson, na proposta de debate.
No início de Fevereiro de 2010, a França deverá estar apta a responder à pergunta "o que é ser francês?"

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