"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sábado, dezembro 12, 2009

Coimbra
A mesma boneca já deu 'à Luz' em dez cursos
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1445380
por PAULA CARMO


Projecto único no País existe há um ano e é uma verdadeira revolução no ensino médico. No Centro de Simulação Biomédica fazem-se simulacros de nascimentos difíceis para evitar erros

"Ai, ai, vai nascer, ui..." Há uma grávida [boneca], já em pleno trabalho de parto. Sem hesitação, apara-se- -lhe o sofrimento com incentivos: "Vamos lá fazer força, muito bem!" E, esforço consumado, eis que surge, ensanguentado, mais um bebé: "Nasceu!" Mãe e filho são bonecos, a maternidade é virtual, mas o treino é feito por profissionais que todos os dias trabalham nos hospitais e centros de saúde portugueses.

Quem realizou o parto? A enfermeira Maria João Tomás. Quem fez de pai? João Dinis, do 5.º ano do mestrado integrado de Engenharia Biomédica. Para a enfermeira, que trabalha nas urgências dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), que já tem a especialidade de obstetrícia e que há 12 anos presta serviço no INEM, esta vertente formativa em simulação é crucial: "Colaboro na formação dos cenários e colaboro como participante. Para nós é uma mais-valia." Acrescenta: "Treinar estes cenários em equipa, viver as diversas dificuldades que temos em conjunto. O parto pode ser uma intervenção de ansiedade e de sofrimento para a mãe, temos de estar com atenção para com a criança que está a nascer, e para tudo o que nos rodeia." Para ela esta componente de treino das equipas de saúde é também de grande valor nas situações de urgência pré-hospitalar.

No Centro de Simulação Biomédica dos HUC decorreu, ontem, mais um curso. O décimo, desde que esta unidade foi criada a 10 de Dezembro de 2008. Desta vez, destina-se a testar acontecimentos críticos em obstetrícia. Porque o parto é um momento muito delicado, ali treinam-se técnicas e procedimentos de equipa para que se torne sempre um momento sem erros. Há, ali, uma sala de partos, um bloco operatório, uma enfermaria pós--parto (puerpério). Cenários que se assemelham, em tudo, à realidade. "Trata-se de uma estratégia nacional para evitar o erro médico", explica ao DN, Martins Nunes, director deste centro e, também, o actual director do Serviço de Anestesiologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC). "Formula-se um conjunto de cenários com situações críticas e raras, com recursos tecnológicos sofisticados, equipamentos de alta fidelidade, das várias especialidades médicas e de enfermagem, tudo em nome da segurança do doente." E depois é feito o treino em equipa.

A simulação médica pode ter inúmeras aplicações e já está a provocar algumas alterações ao nível do bloco central operatório dos HUC: "Lançámos há cerca de seis meses um programa-piloto de check-list - pondo em prática uma recomendação da Organização Mundial de Saúde -, uma avaliação do bloco operatório central dos HUC. Vamos lançar no dia 16 um programa de rotina no bloco operatório", explica. Vinte cinco por cento dos profissionais que ali passaram são dos HUC, os restantes do resto do País. "Este ano formámos mais de 500 médicos, 120 enfermeiros, de várias especialidades, 80 por cento são já especialistas. O feed-back é muito bom. Vamos fazer em 2010 uma avaliação pedagógica dos conteúdos formativos."

Segundo o coordenador-geral do Centro de Simulação Biomédica, António Augusto, as parcerias com empresas privadas são cruciais. A ambição de futuro é alargar, entre outros aspectos, para outros profissionais, como os bombeiros. O centro multidisciplinar nasceu exclusivamente com verbas das fundações Calouste Gulbenkian, EDP e Luso-Americana para o Desenvolvimento.

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