"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Diz-me o que vês, dir-te-ei quem és...
Entre três fotografias de Obama (uma "normal", uma clareada e outra escurecida), os mais progressistas escolhem o Obama mais claro e os conservadores o mais escuro. Os resultados de um estudo feito nos EUA dão que pensar. Clique para visitar o canal Life & Style.
http://aeiou.expresso.pt/diz-me-o-que-ves-dir-te-ei-quem-es=f554925
José Cardoso (www.expresso.pt)

Num estudo do cientista do comportamento Eugene Caruso, da Universidade de Chicago, perguntou-se a um grupo de estudantes qual das fotografias de Barack Obama - algumas secretamente clareadas e outras escurecidas - representavam melhor quem ele é. Os resultados foram surpreendentes: os que se afirmavam progressistas tendiam a apontar para as fotografias do Presidente clareadas digitalmente, os conservadores para as escurecidas. Ou seja, quanto mais se concorda com um político, mais claro nos parece o seu tom de pele. A seguir, excerto da conversa com Caruso.

Como é que o estudo foi feito? Queríamos saber se a pertença a um partido político influencia o modo como as pessoas vêem o mundo e os políticos. Mostrámos várias fotografias e concluímos que os que disseram ter uma orientação política progressista indicaram que as fotografias clareadas de Obama eram mais representativas do que as escurecidas. Os mais conservadores consideraram as fotografias mais escuras mais representativas do que as clareadas.

Ficou surpreendido com os resultados? Um pouco. Parte da minha investigação incide sobre a maneira como as pessoas que têm opiniões diferentes sobre um assunto conseguem compreender as opiniões de quem está do outro lado, e a conclusão geral é que as pessoas não se saem muito bem quando se trata de compreender a perspectiva de alguém com quem não estão de acordo. Contudo, para além disso, interessei-me pela ideia das nossas crenças poderem na verdade afectar o modo como vemos o mundo - ou se podem de facto afectar a nossa percepção dos objectos e das pessoas que nos rodeiam. E a conclusão é que podem.

Quais são as grandes implicações destas diferenças de percepção? O partidarismo pode afectar todo o tipo de convicções. Não surpreende que um progressista e um conservador que lêem a mesma lei sobre cuidados de saúde cheguem a conclusões muito diferentes sobre os seus méritos. Ou seja, mesmo alguma coisa que sentimos que devíamos ver de modo semelhante, como a identidade racial ou as características físicas de uma pessoa, pode ser influenciada pelo nosso desejo de ver essa pessoa de modo favorável ou desfavorável.

Imagina campanhas políticas futuras utilizando este tipo de investigação? Penso que as nossas conclusões ajudam a explicar a forma como se pode tentar influenciar o nível de apoio, por exemplo, a um candidato birracial.

Exclusivo Expresso/Newsweek (Tradução de Aida Macedo)

(Texto original publicado na Revista Única da edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009)