Crise, depressão e suicídioUm triângulo perigoso?
Um socioepidemiologista britânico defende que um investimento de 130 euros por cidadão chegaria para amortecer eventuais efeitos negativos da crise económica na saúde mental. Em Portugal, como noutros países europeus, ainda não há dados que apontem para um aumento dos distúrbios mentais. Mas há um psiquiatra que fala num fenómeno novo: pessoas com ordenados em atraso que pedem baixa médica porque não têm dinheiro
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/05-01-2010/crise-depressao-e-suicidioum-triangulo-perigoso-18521813.htm
Por Alexandra Campos
A crise económica tem um grande impacto na depressão e no suicídio? A simples lógica levaria a responder: obviamente, sim. Na Grande Depressão do século passado, a taxa de suicídio nos EUA acompanhou a par e passo a curva dos trágicos anos de grandes dificuldades económicas. Mas está mais do que provado que é possível fintar esta aparente inevitabilidade. Como? Investindo em programas de protecção laboral e social e em políticas de suporte familiar, não descurando o tratamento das pessoas com distúrbios mentais.
"É preciso dar um argumento económico aos políticos. É preciso explicar-lhes que investir na saúde mental em tempos de crise compensa", defende o socioepidemiologista David Stuckler, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que investigou a associação crise-depressão-suicídio, dissecando os dados de vários países ao longo dos últimos anos. As suas contas até já estão feitas. "Um investimento a partir de 130 euros por cidadão seria suficiente" para garantir um amortecimento dos previsivelmente efeitos perniciosos da crise na saúde mental da população, calcula Stuckler.
O impacto da recessão económica e financeira na saúde mental preocupa os responsáveis da Comissão Europeia (CE) e da Organização Mundial de Saúde (OMS) - e de tal forma que tem sido objecto de debate em vários encontros sobre saúde mental realizados este ano. Em Budapeste, em Dezembro, voltou a estar em foco numa conferência de alto nível sobre prevenção da depressão e do suicídio. Uma reunião em que participaram também psiquiatras, psicólogos, representantes de organizações não governamentais e investigadores. Muitos receiam que os tempos de dificuldades económicas potenciem os distúrbios mentais e, eventualmente, provoquem um aumento dos suicídios.
A preocupação justifica-se, porque a depressão atinge cada vez mais pessoas. As estimativas mais recentes indicam que afecta 13 por cento dos habitantes na União Europeia (UE) nalguma altura da sua vida; e, ainda que as taxas de suicídio estejam a diminuir, graças às estratégias de prevenção adoptadas por vários países, os dados do Eurostat indicam que em 2006 cerca de 57 mil pessoas puseram termo à vida no espaço da UE - o equivalente a um suicídio em cada nove minutos.
Mais vulneráveis
Apesar do crescimento acelerado do desemprego, da instabilidade laboral e das dívidas, e dos relatos esporádicos de um aumento da procura dos serviços de saúde, não existem por enquanto dados que apontem claramente no sentido de um aumento dos distúrbios mentais e dos suicídios. Ainda é demasiado cedo para sentir os efeitos da crise, justificam os especialistas.
Em Portugal, também ainda não há informação que permita traçar um retrato consistente da situação. O P2 tentou perceber se há mais pessoas a necessitar de apoio e a procurar os serviços de saúde. "Os dados que nos vão chegando das pessoas que procuram serviços de urgência e consultas não andam muito longe dos do ano passado. O que houve é um aumento significativo do consumo de ansiolíticos e antidepressivos que vem de alguns anos atrás e que se deve a muitos factores, não é possível dizer que seja resultado directo da crise económica", responde o coordenador nacional para a saúde mental, José Caldas de Almeida, que participou no encontro de Budapeste. E o número de suicídios tem-se mantido relativamente estável (1014 em 2007 e 1035 em 2008).
"As repercussões da crise actual só se sentirão lá para o fim deste ano", vaticina o presidente do colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, João Marques Teixeira. Autor de um recente artigo de opinião sobre esta matéria (disponível no sítio da Sociedade Portuguesa de Suicidologia), o psiquiatra Nuno Gil, que trabalha no hospital de Viseu, acredita também que o impacto não será imediato. O que nota já é que na sua urgência hospitalar têm aparecido mais pessoas com problemas não propriamente clínicos mas sim sociais que acabam por ter repercussões sobre a saúde mental. E está a assistir a um fenómeno "inédito": "Há indivíduos com ordenados em atraso que nos pedem para passar baixas [pagas pela Segurança Social] porque não têm dinheiro".
Nuno Gil concede que em tempos de crise possam surgir suicídios em cluster, como os de magnatas que perdem tudo subitamente, mas recorda que o suicídio é muito mais complexo do que isso - é "um comportamento multifactorial que integra factores predisponentes e precipitantes".
"Não é correcto dizer que as pessoas se matam devido à crise", corrobora Ricardo Gusmão, coordenador nacional do programa Aliança Europeia Contra a Depressão e professor na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. "As pessoas matam-se porque, num determinado momento, junta-se uma série muito variegada de factores", o mais importante dos quais "é a presença de um estado de doença mental". O problema é que, perante uma crise, uma pessoa com depressão "é muito mais vulnerável".
Anos de circunstâncias excepcionalmente negativas são, assim, anos perigosos: "Mais pessoas ficam com depressão e as que já tinham depressão e são atingidas pela pathos da economia vêem o seu quadro clínico agravado".
E Portugal é um dos 15 países da União Europeia que não têm um programa nacional de prevenção da depressão e do suicídio, como ficou patente no encontro de Budapeste. O que existe é apenas um programa regional "em implementação nos concelhos de Oeiras e de Cascais", recorda Ricardo Gusmão. O futuro programa nacional de prevenção do suicídio e de doenças afectivas deve ser criado este ano.
O psiquiatra Daniel Sampaio não está pessimista, até porque apenas prevê que a situação se possa agravar em Portugal se se assistir a um desinvestimento no tratamento da depressão. O impacto da crise no suicídio foi visível nos anos 30 do século passado, concede, mas é preciso ver que "nessa altura não existiam as actuais armas terapêuticas".
O exemplo sueco
A nível internacional, os políticos também não parecem estar, pelo menos por enquanto, muito preocupados com a monitorização da eventual associação entre crise-depressão e suicídio. Em Abril deste ano, na mesa-redonda Reduzir o impacto psicossocial da crise financeira e económica, em Bruxelas, foram vários os responsáveis dos estados-membros que disseram esperar um impacto da crise na saúde mental da população, mas nessa altura só a Letónia estava a quantificar o fenómeno, lamentou Jurgen Scheftlein, da Direcção-Geral para a Saúde e Consumidores da Comissão Europeia, na reunião de Budapeste.
Actuar por antecipação pode compensar, porém. Basta recuar a períodos recentes e igualmente complicados para se perceber que nos países com políticas de protecção social mais robustas a previsível associação entre crise-depressão e suicídio atenua-se ou não se vislumbra, sequer. No trabalho que dirigiu em conjunto com uma equipa de investigadores e foi publicado no The Lancet em Agosto, David Stuckler concluiu que subidas no desemprego semelhantes às que estamos a assistir causaram num passado recente aumentos no número de suicídios. E no de homicídios também.
Analisando dados relativos a 26 países da UE entre 1970 e 2007, a equipa constatou que cada incremento de um por cento nas taxas de desemprego foi acompanhado por um aumento de 0,8 por cento nas de suicídio nas pessoas com menos de 65 anos e de um acréscimo semelhante dos homicídios. Quanto às mortes devido ao abuso do álcool, essas cresciam substancialmente. Vai acontecer o mesmo agora? - inquietam-se os especialistas. Não necessariamente.
Os investigadores de Oxford sugeriam então várias receitas para driblar a crise: "Os governos poderão proteger as pessoas, nomeadamente através de medidas orçamentais que as mantenham empregadas, de ajudas para os desempregados lidarem com os efeitos negativos e de oportunidades para encontrarem rapidamente outro emprego".
Em Budapeste, Stuckler avançou com os exemplos de dois países europeus afectados por aumentos de desemprego acentuados no início dos anos 90 - a Suécia e a Espanha - para ilustrar a sua tese de que as políticas de protecção social e laboral podem mesmo "fazer a diferença". Enquanto em Espanha as taxas de suicídio masculino (os homens matam-se três vezes mais do que as mulheres, daí a escolha deste indicador) subiram a um ritmo sincronizado com o aumento do desemprego, na Suécia, apesar da perda de empregos ter disparado subitamente, o número de homens que puseram termo à vida no mesmo período até desceu. A diferença é que Espanha gastou então, em média, quatro vezes menos do que a Suécia em programas laborais e de protecção social, justificou.
A jornalista viajou a convite da Comissão Europeia

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home