"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, abril 27, 2010

Laki

O vulcão que assustou a Europa em 1783
http://jornal.publico.pt/noticia/23-04-2010/temas-19236089.htm
Por Susana Almeida Ribeiro

Durante meses expeliu gases que envenenaram a fauna e a flora. Foi responsável pela morte de dez mil pessoas na Islândia. E há quem defenda que precipitou a Revolução Francesa


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Há pouco mais de 200 anos, ainda antes da Revolução Francesa, um vulcão islandês dizimou um quinto da população do país. Durante quase um ano, o céu da Europa encheu-se de um "nevoeiro constante", nas palavras do Presidente americano Benjamin Franklin. Houve fome, doenças e morte.



O Laki foi, até hoje, o vulcão (em rigor, trata-se de uma fissura vulcânica) que produziu maior volume de lavas, disse ao P2 Carlos Rosa, vulcanólogo do Laboratório Nacional de Energia e Geologia. "Desde que o homem existe e que começou a presenciar erupções vulcânicas, o Laki foi o que expulsou maior quantidade de lava. Produziu 15 quilómetros cúbicos de lavas basálticas." Feitas as contas, o equivalente a quase quatro barragens do Alqueva na sua cota actual.



Entre Junho de 1783 e Fevereiro de 1784 as lavas espalharam-se ao longo de um total 600 quilómetros quadrados em redor das fissuras em ebulição (o equivalente a 14 vezes a área da cidade de Lisboa). Foi a pior catástrofe na história relativamente curta da Islândia onde viviam cerca de 50 mil pessoas. Quando tudo acabou, dez mil tinham morrido.



Hoje, a Islândia não esquece a sua herança vulcânica. Os vulcões fazem parte da sua paisagem e da sua memória. Vários estão activos. Por isso, não é de estranhar que os alunos islandeses tenham, obrigatoriamente, nas escolas, a disciplina de Geologia.



Cem vezes mais forte



As semelhanças entre este temível Laki e o Eyjafjallajokull, o vulcão que por estes dias tem sido notícia, são poucas, exceptuando o facto de se situarem ambos na região sudeste da Islândia. Estão a 140 quilómetros de distância um do outro.



O vulcão que obrigou os aviões a permanecerem em terra está, na verdade, muito longe da potência do Laki, cuja erupção de 1783 foi a maior dos últimos mil anos - ficando apenas atrás do Monte Tambora, na Indonésia. Citando um especialista britânico em vulcanologia, Stephen Self, a cadeia de televisão britânica BBC indica que o poder do Laki foi cem vezes superior ao do actual Eyjafjallajokull.



A quantidade de dióxido de enxofre expelido pelo Laki chegou a ultrapassar a que foi lançada pelo Pinatubo (Filipinas), em 1990. Se o vulcão das Filipinas produziu 17 megatoneladas de dióxido de enxofre, o Laki, durante o seu período de máxima actividade, lançava essa mesma quantidade de gases para a atmosfera a cada três dias.



Carlos Rosa explica que há ainda outra diferença de base entre as erupções destes dois vulcões: a de 1783 ocorreu ao longo de um troço de 27 quilómetros de fissuras. "Foi uma erupção alongada e não focalizada, como a que está activa neste momento, no Eyjafjallajokull, onde a actividade permanece circunscrita a apenas um quilómetro de extensão."



Podem as fissuras do Laki voltar a abrir-se num futuro próximo? "O Laki não está extinto, mas a quantidade de magma que foi expelida no Laki foi anormalmente grande", diz Carlos Rosa.



"A pergunta que devemos fazer é esta: qual é o tempo de retorno do Laki? Tem ele capacidade para produzir igual volume de lava? Em quantos anos? Ou em quantos milhares ou milhões de anos? Este tipo de erupções não são comuns, são pouco frequentes. Por isso, diria que num futuro próximo poderá haver erupções ao longo da fissura, mas, se calhar, da mesma dimensão, eu diria que é difícil."



A história do Laki fará, certamente, parte das lições dos alunos das escolas islandesas. Esta erupção de dimensões bíblicas afectou durante vários meses todo o Hemisfério Norte. Há relatos que dão conta que o nevoeiro de cinzas vulcânicas e de partículas de enxofre chegou aos EUA, a Espanha e até ao Egipto, conta Greg Neale, editor da BBC History Magazine, num artigo publicado há dias no jornal britânico The Guardian.



O Laki e a revolução



Os gases tóxicos expulsos pelo vulcão, a par com o inclemente Verão registado em 1783 e com o rigoroso Inverno de 1784 (que originou um surto de tifo), provocaram milhares de mortes não só na Islândia, mas também no Reino Unido - aqui, sobretudo devido às doenças que resultaram do Verão escaldante e do Inverno gelado pós-erupção.



Mais: esses mesmos gases envenenaram a fauna e a flora e "esconderam" o sol durante dezenas de semanas. Estima-se que oito em cada dez ovelhas tenham morrido na Islândia, indica a BBC on-line. Metade dos cavalos também sucumbiu.



"O elevado número de mortes teve a ver essencialmente com a escassez de alimento. Muitas culturas ficaram inutilizadas e muito gado ovino e bovino morreu, havendo assim falta de alimento", explicou Carlos Rosa ao P2.



A erupção do vulcão veio igualmente mexer com a "psique" de uma Europa que se estava a abrir às ideias iluministas, ao progresso e à ciência. O período medieval, das trevas e da servidão, que tinha ficado para trás, ameaçava agora voltar por intermédio do Laki, que provou aos europeus que afinal o progresso não podia avançar contra a força da natureza.



Entrevistado pela BBC, Gunnar Karlsson, um dos mais importantes historiadores islandeses, explica que a erupção do Laki teve até efeitos mais surpreendentes na sociedade islandesa: "Os islandeses deixaram de dançar. Perdemos as danças antigas. A minha suspeita é que eles deixaram de dançar porque as pessoas estavam em tal estado de choque por causa da fome que não quiseram dançar mais."



Alguns historiadores, como escreve o The Guardian, vão ainda mais longe. E sugerem que a erupção do Laki, e a forma como os seus efeitos agravaram a fome no Norte da Europa, poderá ter ajudado a lançar as sementes da Revolução Francesa de 1789.

Missão
Exploradores anunciam descoberta da Arca de Noé
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1553960

por FILOMENA NAVES
Hoje


Exploradores evangélicos identificaram estrutura de madeira com 4800 anos, no monte Ararat

É uma velha estrutura de madeira, com compartimentos interiores dotados de barras, como se fossem jaulas. A sua localização, no monte Ararat, na Turquia (o pico mais alto em toda a região), e a sua idade - 4800 anos, verificados pelo método do carbono 14, um dos mais rigorosos que se conhece -, batem certas com uma extraordinária conclusão: aqueles poderão ser os tão procurados (e até agora nunca encontrados) restos da famosa Arca de Noé. É pelo menos essa a convicção do grupo de exploradores chineses evangélicos que fez o achado.

"Não temos cem por cento de certeza de que se trata da arca [de Noé], mas temos 99,9 por cento", declarou Yeun Wing Cheung, realizador de documentário em Hong Kong e um dos 15 elementos chineses e turcos do grupo Noah's Ark Ministries International, que empreendeu a missão.

O achado foi feito a quatro mil metros de altitude no monte Ararat, na Turquia, que é o ponto mais elevado em toda em região e que, por isso mesmo tem sido apontado por investigadores bíblicos como o local mais provável onde a arca terá tocado a terra firme, após a descida das águas diluvianas.

Os participantes na expedição excluíram a hipótese de a estrutura de madeira ser um indício de uma antiga ocupação humana, já que nunca até hoje se encontraram sinais de povoamento acima dos 3500 metros de altitude naquela zona.

A construção tem um formato em arco e no seu interior os exploradores identificaram vários compartimentos, alguns com barras de madeira, que poderiam ter abrigado animais, segundo explicou Yeun Wing Cheung. A sua datação por carbono 14 estabeleceu que tem 4800 anos, o que é compatível com a época estimada pelos especialistas para a salvadora navegação da arca.

A equipa vai fazer escavações no local, para investigar e fundamentar a sua hipótese, e as autoridades turcas locais já decidiram que vão solicitar à UNESCO a classificação do sítio como património mundial, para garantir a sua preservação durante as escavações, adiantou o realizador chinês e participante na missão.

segunda-feira, abril 26, 2010

Usar o nome do marido prejudica as mulheres
As mulheres que mudam de nome depois de casadas são prejudicadas no mercado de trabalho, afirma estudo holandês. Clique para visitar o canal Life & Style.
Christiana Martins (www.expresso.pt)

http://aeiou.expresso.pt/usar-o-nome-do-marido-prejudica-as-mulheres=f578343

As mulheres são tratadas de maneira diferente consoante o apelido que usem, segundo um estudo elaborado pelo Tilburg Institute utilizando a população holandesa como referência.

As mulheres que adoptam o nome dos seus companheiros serão, em geral, menos qualificadas academicamente e mais velhas. E, mesmo quando os dados demográficos são idênticos, a reacção do mercado de trabalho será diferente, refere o jornal americano The New York Times, citando a pesquisa holandesa.

Várias experiências envolvendo estudantes universitários e as suas reacções face a mulheres imaginárias permitiram concluir também que a atitude muda conforme o nome assumido pela mulher em causa.

"Mais dependentes, menos inteligentes, mais emocionais, menos competentes e menos ambiciosas" foram algumas das características associadas às mulheres que adoptaram os nomes dos maridos.

As mulheres que mantêm os nomes de solteiras foram consideradas pelos mesmos estudantes como "menos carinhosas, mais independentes, mais ambiciosas, mais inteligentes e mais competentes".

O pior é que, quando confrontados com candidaturas de emprego ao posto de gestora de recursos humanos, os estudantes revelaram ter menores intenções de contratar aquelas mulheres com os nomes dos maridos e, se contratadas, teriam salários significativamente inferiores às outras.

Livro
Os segredos do sexo no Antigo Egipto
por FILOMENA NAVESHoje

http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1553267

Espanhol estudou a vida amorosa e sexual dos egípcios e diz que não era diferente da nossa

"Amava-se no Antigo Egipto como se ama hoje, é a mesma coisa." Mas chegar a esta conclusão implicou muita investigação e também muitas "interpretações pessoais", a partir do pouquíssimo material disponível. O resultado da pesquisa exaustiva está agora em livro, da autoria do egiptólogo espanhol José Miguel Parra Ortiz, que acaba de ser traduzido para português pela editora a Esfera dos Livros. A Vida Amorosa no Antigo Egipto, lançado em Espanha em 2001, fala de sexo e de erotismo, de amor, de casamento e também de orgias e perversões, de violações, de homossexualidade e muito mais.

Mas a investigação foi complicada. "Há muito poucas representações gráficas de cenas sexuais no Antigo Egipto e os textos que falam das relações sexuais nunca as descrevem. Dizem que alguém passou uma hora com alguém e já está. Não há relatos eróticos nem relatos pornográficos", adianta o egiptólogo espanhol.

No entanto, a vida sexual é uma parte muito importante de todas as civilizações. Sabe-se muito sobre essa vivência, por exemplo, na civilização romana, ou na grega, que não se furtaram a descrevê-la com abundância de pormenores. Mas os egípcios não eram muito dados a representá-la e a falar dela em termos explícitos. "Porquê? Não sabemos", admite o investigador. O certo é que essa "é uma das particularidades da cultura egípcia antiga".

E será que havia muitas diferenças em relação à forma como as sociedades modernas vivem o sexo?

Parra Ortiz acredita que não. "Eram pessoas como nós, a biologia é a mesma", diz, explicando que "o motivo poderia ser o pudor, ou apenas o facto de aquela ser uma sociedade em que apenas dez por cento da população, a classe alta, sabiam ler e escrever".

Apesar desse pudor - pelo menos aparente -, chegaram até hoje alguns ostracos (fragmentos de cerâmica ou de pedra destinados à escrita) com representações e desenhos sexuais explícitos. Mas, curiosamente, não eram "arte oficial", como explica Parra Ortiz. "Sabemos que resultaram de momentos de ócio, ou seja, os escribas que os produziram não estavam a trabalhar nas suas tarefas oficiais quando os fizeram, estavam a divertir-se." Foi, portanto, a partir das representações nesses ostracos, incluídas nas ilustrações de A Vida Amorosa do Antigo Egipto, e de alguns outros (poucos) materiais disponíveis - como o Papiro Erótico de Turim, que foi publicado em 1973 e inclui 12 desenhos de actos sexuais, alguns objectos fálicos encontrados em monumentos fúnebres, ou os poemas amorosos do Reino Novo - que o egiptólogo espanhol se lançou ao seu estudo, depois de ler os dois livros que já existiam sobre o assunto. Um da década de 80, da egiptóloga dinamarquesa I. Manniche, e outro publicado em 1995 pelo português Luís Manuel Araújo, sob o título O Erotismo no Antigo Egipto, que "é sobretudo um estudo filológico", como o descreve Parra Ortiz.

Iniciado em 1998, o seu trabalho ficou concluído dois anos depois. Mas o autor continuou a investigar o tema, em especial em relação à questão das perversões sexuais, que a versão portuguesa do livro já inclui. "Que perversões eram essas? Bem, tudo o que possa ocorrer-nos: zoofilia, sadismo, masoquismo e por aí fora", diz Ortiz.

Não se pense, no entanto, que este é um livro erótico. "Não é", garante o autor. "Este é um livro científico sério, mas escrito de forma divertida e destinado ao grande público. Por isso incluo dois tipos de notas, umas para quem não sabe nada sobre o Antigo Egipto e outras para quem quer aprofundar mais a questão", conclui.

sábado, abril 03, 2010

Livro
Quando Hollywood era uma fábrica de sonhos gay
http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=221546

24.01.2009 - Bruno Horta


Um livro publicado nos EUA defende que ser homossexual em Hollywood nem sempre deu direito a proscrição.


A história é conhecida, mas não cansa recordá-la. Dois homens cheios de charme, em início de carreira, pretendidos por todas as mulheres e acabados de chegar à terra de todos os sonhos. Hollywood, 1932. Cary Grant tem 28 anos e Randolph Scott 34. Dá-se a coincidência de começarem a trabalhar quase ao mesmo tempo para a Paramount Pictures, já então um gigante da indústria do cinema. E por coincidência também travam conhecimento nas filmagens de Hot Saturday, de William A. Seiter - segundo filme a sério em que Grant participa, depois de uma estreia prometedora em A Vénus Loira, de Josef von Sternberg. Ficam amigos. Tão amigos que se tornam mais do que amigos e decidem ir viver juntos. "A imprensa descreve essa vida em comum através de frases como 'a dupla de Hollywood' ou 'o casal feliz' e os boatos que circulam atraem os fãs e dão a entender que os dois actores partilham mais do que o apartamento", escreve Brett L. Abrams no livro Hollywood Bohemians, agora editado nos EUA.

O livro, de que foram publicados excertos este mês na revista gay americana "Advocate", não traz novidades sobre a alegada relação entre Cary Grant, considerado um dos melhores actores da história do cinema americano, e Randolph Scott, que ficou conhecido por protagonizar westerns realizados por Budd Boetticher no fim dos anos 50. Mas traz nova interpretação sobre o assunto, recorrendo para isso a fotografias da época, onde os dois actores aparecem unidos pela extremosa intimidade que em público sempre negaram.

Brett L. Abrams, que trabalha como arquivista na National Archives and Records Administration, defende uma tese controversa: entre 1917 e 1941, os estúdios de Hollywood e os media que faziam a cobertura do que por lá se passava veicularam propositadamente imagens daquilo a que o autor chama "boémios". A saber: "homossexuais, adúlteros, homens efeminados e mulheres másculas, ora reais, ora de ficção". Com que objectivo? "Atrair o público e forjar a mística de Hollywood enquanto fábrica de sonhos e o sítio mais vigoroso, libertino e extravagante de todo o país".

No caso de Grant e Scott, é sugerido, mas não dito, que até foi conveniente para a Paramount explorar a ambiguidade sexual dos dois actores, pois quanto mais impressionados ficassem os fãs, mais se sentiriam atraídos por eles.

As fotografias de Grant e Scott a que Abrams recorre para explicar isto foram feitas por volta de 1932 pelo departamento de Relações Públicas da Paramount. Não são inéditas, mas estavam esquecidas. Nelas, Grant e Scott aparecem na casa de praia que partilhavam em Santa Mónica, Los Angeles. O objectivo oficial das fotos, segundo escreve Brett L. Abrams, que as encontrou na Academy of Motion Pictures Library, em Beverly Hills, era o de sublinhar a aura de estrelas dos dois actores e vender a imagem de galãs solteiros, que tinham vidas independentes mas, por acaso, até viviam juntos. Homossexuais sem o serem. Heterossexuais capazes de transgredir. "Estas imagens apelavam quer às mulheres heterossexuais, que apreciavam a aparência dos actores e a exposição da sua privacidade, quer aos homens heterossexuais, que projectavam neles a fantasia de uma vida na alta-roda", lê-se em "Hollywood Bohemians: Transgressive Sexuality and the Selling of the Movieland Dream" (título completo).

No meio das fotos, Brett L. Abrams encontrou uma que lhe chamou a atenção e que, no seu entender, faz prova da ligação romântica entre Grant e Scott. Ao fim da tarde, no pátio da casa de praia, com o oceano Pacífico em fundo, Scott acende com a ponta do seu cigarro o cigarro que está preso aos lábios de Grant. Uma foto em contraluz, como a de dois apaixonados num momento de grande intimidade. "A imagem de dois homens a fumar juntos era, à época, muito frequente, mas apenas em bares, saloons ou outros áreas 'masculinas', nunca num espaço considerado romântico e com a interacção desses dois homens isolada do que está à volta", diz o autor. "Um homem raramente acendia o cigarro a outro e de certeza que não tomaria a iniciativa de o fazer se o cigarro estivesse a pender da boca do outro". Isso, conclui Brett L. Abrams, era normal nos anos 20 na publicidade aos cigarros, mas apenas entre homem e mulher e na tentativa de criar um ambiente romântico entre os dois.

Estamos a falar de uma época em que mesmo nas grandes cidades americanas "havia poucos bares gays ou zonas onde os homossexuais se encontrassem", segundo explica ao P2, numa entrevista por e-mail, Damon Romine, dirigente da Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (GLAAD), com sede em Los Angeles. "Quase toda a gente estava 'fechada no armário', sem se poder assumir perante a família e muito menos no trabalho, por medo de despedimento".

No microcosmos de Hollywood, os homossexuais tinham uma atitude ainda mais resguardada. "Os actores eram despedidos se se soubesse que tinham comportamentos homossexuais, razão por que muitos deles arranjavam casamentos de fachada para proteger a sua verdadeira orientação sexual", conclui o activista. Uma época, aliás, em que pedofilia e homossexualidade, então consideradas uma e a mesma coisa, eram punidas em vários estados americanos com penas de prisão entre cinco e 15 anos, segundo o "Alyson Almanac" (1993). Uma época em que a palavra gay só significava alegre ou feliz, de acordo com o mesmo almanaque. E a palavra homossexual tinha entrado na linguagem comum havia poucos anos (aparece nos EUA a partir de 1890; em 1899 em Portugal, segundo o Dicionário Houaiss). Faltavam, no fundo, cerca de 40 anos para a chamada Revolta de Stonewall, em Nova Iorque, em 1969, que marcará o início do movimento organizado de defesa dos direitos dos homossexuais.

É por isso que a tese de Abrams é polémica. Será que os estúdios Paramount estariam mais interessados em vender o exotismo que, aos olhos do grande público, uma relação entre dois homens representava, em vez de contribuírem para a construção de uma fachada heterossexual? Ou será que a forma como se interpretava a camaradagem entre homens tinha um espectro suficientemente alargado para permitir cenas íntimas, não se vendo nisso qualquer sinal de erotismo? Não se sabe. O PÚBLICO contactou por e-mail os dois responsáveis pelas Relações Públicas da Paramount, Carl Folta e Patricia Rockenwagner, mas não obteve resposta.

De qualquer forma, sabe-se hoje que Cary Grant (1904-1986) e Randolph Scott (1898-1987) viveram juntos entre 1932 e 1934 e que a relação continuou mesmo quando Grant se casou e foi viver, em 1934, com Virginia Cherrill (primeiro de cinco casamentos, todos falhados). No ano seguinte, com o divórcio já em curso, Grant e Scott voltaram a dividir casa, relata Hollywood Bohemians. E seria assim até 1944, com alguns intervalos pelo meio.

Nunca assumiram nada: nem a provável relação amorosa, nem outras que terão tido mais tarde com outros homens (na biografia "Brando Mas Pouco", Darwin Porter garante que Cary Grant foi amante de Marlon Brando). Portanto, oficialmente eram perfeitos heterossexuais. E em Novembro de 1980, por exemplo, Grant processou o actor cómico Chevy Chase por este ter dito num programa da NBC que Grant era gay. A hipótese de bissexualidade também nunca foi admitida. Betsy Drake, com quem Grant foi casado entre 1949 e 1962, chega a dizer que talvez o ex-marido se sentisse atraído por ambos os sexos - no documentário "Cary Grant, A Class Apart", de Robert Trachtenberg (2004). Mas logo a seguir declara que nunca teve tempo para tomar atenção a esses boatos, pois ela e Grant estavam os dois "demasiadamente ocupados a ter relações sexuais".

Ainda que seja de colocar a hipótese de a amizade entre os dois ter sido apenas uma amizade, tal é pouco provável. As omissões sobre o assunto são suficientemente reveladoras nas várias biografias que se têm escrito sobre eles. Em "The Private Cary Grant" (1983), por exemplo, os autores, William Currie McIntosh e William Wever, sentiram necessidade de sublinhar que "nunca houve qualquer dúvida sobre a afeição de Cary Grant por mulheres". Ao mesmo tempo, em 150 páginas de livro, referem-se a Randolph Scott apenas uma vez e de passagem.

Mesmo que a boémia hollywoodesca tenha servido para tornar a indústria do cinema mais rentável, o que parece correcto concluir é que a negação da homossexualidade sempre foi a regra. E ainda hoje é assim.

Num artigo de Maio de 2007, na revista gay americana "Out", o publicista Michael Musto escreve, a propósito da assunção da actriz Jodie Foster, que existe actualmente em Hollywood um "armário de vidro" que permite às estrelas homossexuais viver a vida íntima com normalidade, ao mesmo tempo que em público têm uma imagem de certo modo heterossexual. Musto cita o director da empresa de Relações Públicas Fifteen Minutes, segundo o qual há quatro géneros de gays em Hollywood: os assumidos; os que toda a gente sabe que são gays, mas nunca falam sobre o assunto; os casados, que nunca se referem à sexualidade; e aqueles que ameaçam processar toda a gente que diga que são gays. Grant e Scott, a confirmarem-se as suspeitas, encaixariam na perfeição na terceira e quarta categorias. Seriam aquilo a que o activismo gay português chama "armariados" ('closeted', dentro do armário).

No extremo oposto daquilo que Abrams diz no seu livro, há quem entenda que a pressão exercida sobre a orientação sexual tem uma explicação: o lucro. Bryan Batt, gay assumido e actor na Broadway, dizia há poucas semanas à CNN que "há alguma homofobia em Hollywood", mas não por razões morais. "Hollywood é uma máquina de milhares de milhões de dólares; se os actores gays apresentarem resultados e venderem, voltam a ser escolhidos para novas produções". Mas haverá uma primeira oportunidade?

Ao PÚBLICO, Damon Romine, da GLAAD, não tem dúvidas em afirmar que "os actores assumidos enfrentam desafios que os outros não enfrentam. É certo que conseguir um papel envolve grande competição, mas quando alguém assumido é rejeitado tem de se perguntar se a sua sexualidade foi ou não determinante nisso". Romine recorda o caso de Rupert Everett, que na sua autobiografia, "Red Carpets and Other Banana Skins" (2006), garante ter ficado de fora dos filmes "Era Uma Vez Um Rapaz" e "Instinto Fatal 2" por ser gay assumido. E recorda, também, por outro lado, Neil Patrick Harris, conhecido pela série "O Menino Doutor", do fim dos anos 80, e actualmente protagonista de "Foi Assim que Aconteceu". Ele assumiu-se em Novembro de 2006 e nem por isso deixou de conseguir trabalhar - se bem que seja um actor de televisão e na televisão a homossexualidade é bem aceite ("Nunca na televisão houve tantas personagens gays, bissexuais, lésbicas e transgénero: 83, segundo a GLAAD, sem contar com reality shows, telenovelas e canais por cabo temáticos", lia-se no "New York Times" em Setembro último).

Numa entrevista à revista gay americana "Out", em Agosto, Neil Patrick Harris revelou que "a maioria das pessoas que trabalha nas empresas de casting é gay e muitos dos directores também". Mas disse compreender em parte as barreiras que Hollywood levanta aos homossexuais assumidos. "Se eu fosse um activista gay, provavelmente eles teriam preocupações acerca da minha credibilidade em determinados papéis" (heterossexuais, leia-se). "Percebo que um agente não quisesse ser representante de um actor masculino muito efeminado, não por aversão, mas porque os agentes sabem a limitação que essa característica impõe em termos de oportunidades de trabalho".

Jason Stuart, um actor e comediante americano que dirige a secção gay da Screen Actors Guild, sindicato de actores, acha que os actores assumidos "não perdem apenas a oportunidade de serem o novo Brad Pitt, mas também a de serem famosos e de, através disso, conseguirem bons trabalhos" - disse ao "New York Times", no ano passado. E dá um exemplo actual: porque é que Gus Van Sant, que é gay, teve de ir buscar um actor "hetero", Sean Penn, para protagonista do seu novo filme, Milk, que até é sobre um activista gay americano? "Porque não há actores gays suficientemente famosos para ficarem com o papel", diz Jason Stuart.

Vamos construir edifícios que não nos matem?
Escombros, pessoas enterradas em ruínas, milhões de desalojados. Catástrofes naturais como o terramoto no Haiti ou o furacão em Nova Orleães podem ser uma oportunidade para fazer nascer uma arquitectura melhor. Por todo o lado há arquitectos - e, já agora, também Brad Pitt - a trabalhar nisso.
http://jornal.publico.pt/noticia/03-04-2010/vamos-construir-edificios--que-nao-nos-matem-19013900.htm
Por Alexandra Prado Coelho

Trienal lança concurso para Luanda

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terramotos que matam as pessoas. São os edifícios." Pode parecer uma evidência, mas é sempre bom dizê-la em voz alta, acredita Robin Cross, que nos últimos tempos tem repetido várias vezes esta frase em declarações à imprensa. Director de projectos da Article 25, um grupo de arquitectos baseado em Londres e especializado em reconstrução em zonas afectadas por catástrofes, Cross viu de perto, em vários sítios do mundo, como as pessoas morreram debaixo dos edifícios - e percebeu como, em muitos casos, isso podia ter sido evitado.

Há muito a aprender com a experiência de um terramoto. E dois casos recentes mostram isso mesmo: enquanto no Haiti, em Janeiro, os edifícios, com uma baixa qualidade de construção, desabaram como castelos de cartas, esmagando as pessoas no interior, no Chile resistiram muito melhor e o número de mortos foi, por isso, muito inferior.

É precisamente esse o ponto a que Robin Cross quer chegar quando diz que são os edifícios que matam. Num texto disponível na Internet, o responsável do Article 25 dá alguns números: "No terramoto de Los Angeles em 1994 (magnitude de 6,7) houve 72 mortes e nove mil feridos, enquanto no de Caxemira em 2005 (magnitude de 7,6) houve 79 mil mortos e 106 feridos. No Haiti em 2010 (magnitude de 7) calculam-se 170 mil mortos e 250 mil feridos." E conclui que se há alguma coisa de bom que se possa retirar de uma tragédia como esta é que ela "deve ser uma oportunidade para construirmos melhor".

Mas será também uma oportunidade para fazer uma arquitectura diferente, menos "tradicional"? Para convidar arquitectos-estrela? Para introduzir preocupações ecológicas?

Não é logo a seguir a uma tragédia - como aquelas a que assistimos recentemente no Haiti e no Chile - que os arquitectos entram no terreno. Esses são os dias em que é preciso organizar a ajuda, fazer chegar comida, água, cobertores, arranjar abrigos provisórios. Só depois há espaço para grupos como o Article 25 ou o norte-americano Architecture for Humanity avançarem. E quando o fazem sabem que vão ficar durante muito tempo. Só em Port au Prince, a capital do Haiti, perto de dois milhões de pessoas perderam as casas.

A reconstrução de uma cidade devastada não se faz rapidamente. Aliás, um dos conselhos no site do Architecture for Humanity é este: "Quando estão a reconstruir não deixem os media estabelecer os prazos e as expectativas para a reconstrução." O autor do texto diz lembrar-se nitidamente de ver jornalistas de televisão sobre as ruínas de Nova Orleães devastada pelo furacão Katrina a anunciar que, dali por um ano, as famílias estariam de regresso às suas casas.

A realidade é muito diferente, como mostra o calendário do grupo: só a avaliação dos danos e o planeamento prévio demoram um ano, e a construção de novas habitações permanentes realiza-se entre o primeiro e o quinto ano da intervenção. E durante o processo surgem dúvidas, incertezas, opiniões divergentes. Nova Orleães é um bom exemplo disso.

Um convite de Brad Pitt

Wayne Curtis, da revista The Atlantic Monthly, fez no final do ano passado uma reportagem pelas ruas daquela cidade, passando por casas que correspondem a modelos diferentes propostos por arquitectos com diferentes visões do que deve ser a reconstrução. "Na ausência de uma forte liderança central, a reconstrução dividiu-se numa série de projectos vizinhos independentes", explica.

O mais mediático é o da organização não governamental (ONG) Make it Right, de Brad Pitt - 23 casas construídas até agora, sendo que o objectivo é a construção de 150 casas na zona de Nova Orleães, mais afectada pelo furacão. O actor propôs a vários ateliers de arquitectura conhecidos que desenhassem (gratuitamente) um protótipo de casa para as famílias que tinham ficado desalojadas. O "catálogo" com as diferentes casas é apresentado aos futuros moradores e estes escolhem a que mais lhes agrada. Há de tudo, até uma casa que flutua (do arquitecto Thom Mayne, do Morphosis) para a eventualidade de um novo furacão atingir a cidade.

O arquitecto chileno Alejandro Aravena (do Do-Thank Elemental) foi um dos convidados por Brad Pitt. O actor interessou-se pela proposta de Aravena para resolver o problema da habitação para pessoas de poucos recursos - a ideia é que os arquitectos construam metade de uma casa, garantindo a qualidade de construção e permitindo que os habitantes construam a outra metade mais tarde, quando tiverem condições económicas para isso.

Reconstruir, mantendo fielmente o que existia antes, não faz sentido, diz ao P2, por e-mail, Aravena, que não estava no Chile no dia do terramoto, mas que chegou logo em seguida e comprovou que os edifícios tinham conseguido resistir bastante bem (incluindo as meias-casas feitas pelo Elemental). E, no entanto, tem uma visão radical (sobretudo vinda de um arquitecto) do que deve ser feito. "No Chile somos mais geográficos do que históricos", explica. "É a natureza que nos atira ao chão e é a natureza que nos pode salvar. Este tipo de catástrofe recorda-nos que o nosso património é a natureza e não o que foi construído. No Chile não houve impérios. A nossa cultura construída é leve. Aqui é preciso eliminar a nostalgia, esquecer as intenções de reconstruir o que havia, tal como era, sempre e quando o que o substitua seja de qualidade."

Mas, acima de tudo, é preciso respeitar esse espaço da natureza, e não ter medo de deixar um vazio, diz Aravena. "Qualidade no Chile significa reconhecer que o construído ocupa um segundo plano em relação à natureza, à paisagem. A dívida das nossas cidades antes do terramoto era para com o espaço público. O terramoto e o maremoto destruíram parte das nossas cidades. Em vez de reconstruir aí arquitecturas de um ou outro tipo devíamos aproveitar a oportunidade para deixar esses espaços vazios, e deixar aí a natureza."

Quanto ao que tem realmente que ser reconstruído, não é importante definir se será melhor que seja um arquitecto famoso a fazê-lo ou um anónimo. "O que interessa é identificar com precisão o que é preciso resolver, qual é a pergunta que deve ser satisfeita. Se a resposta a essa pergunta vier de um grande nome ou de um anónimo é igual, desde que responda bem."

Mas há uma coisa sobre a qual Aravena não tem dúvidas: "Não há espaço para agendas criativas pessoais (isso de querer deixar uma marca ou marcar uma presença de autor), assim como para falta de qualidade profissional na resposta. É preciso muita qualidade profissional para responder rápido e à altura e nem sempre o anónimo pode ter esse know-how." E, claro, faz sentido aproveitar estas situações para introduzir preocupações com as questões ecológicas. "A sustentabilidade não é mais do que o uso rigoroso do sentido comum. Nunca é tarde para que o sentido comum seja o fio condutor das operações."

"Podemos estar num daqueles momentos", escreve Wayne Curtis na Atlantic Monthly, "com noções de design moderno, avanços nos materiais ecológicos e imperativos técnicos de sustentabilidade, todos convergindo para que seja dado um grande salto na arquitectura urbana." E segue o seu passeio pelas ruas de Nova Orleães, passando pelas casas do projecto Global Green (completamente ecológicas, produzindo a electricidade que consomem e recolhendo a água da chuva para reutilizar) e encontrando mais à frente Andrés Duany, um defensor de outro tipo de solução para a cidade.

Reconstruir Timor

Duany, um dos fundadores do Congress for New Urbanism, é um entusiasta do small town design (ele e a mulher são os autores da pequena cidade na Florida que serviu de cenário ao filme The Truman Show), o tipo de sítio sem arquitectura "de assinatura", em que casinhas anónimas se alinham em ruas paralelas. "Podemos passar por elas num passeio de bicicleta sem dar por isso", diz Curtis. Mas é um tipo de arquitectura que muitos criticam por ser pouco criativa, monótona, uma repetição do que já foi feito, sem acrescentar nada de novo.

Outro exemplo deste tipo de solução são as casas desenhadas por Marianne Cusato e que transformaram esta arquitecta até então desconhecida "numa das 50 pessoas mais influentes do mundo na indústria de construção de casas", de acordo com a revista Builder. As suas Katrina Cottage parecem as vivendas de estilo inglês do século XVII e, diz a autora, remetem para a "arquitectura vernacular" da região.

Embora seja um caso particular (trata-se, apesar de tudo, de uma operação de reconstrução no país mais poderoso do mundo), Nova Orleães é um bom exemplo do tipo de questões que surgem aos arquitectos perante um cenário de destruição.

Em cada país a experiência é diferente. E num país que está a nascer é uma experiência muito particular. Construir melhor foi o que tentaram fazer os arquitectos que reconstruíram Timor-Leste quando, em 1999, terminou a ocupação e os indonésios deixaram para trás um país incendiado e destruído, temporariamente sob administração da ONU. Pedro Reis era um desses arquitectos. "Houve uma primeira fase em que se distribuíram kits de reconstrução às pessoas", recorda. "Tratava-se de pôr uma cidade a funcionar e para isso tivemos que começar por reconstruir os edifícios públicos."

A opção foi, tanto quanto possível, usar tecnologias locais e mão-de-obra disponível em vez de trazer muitas empresas de fora para trabalhar no país. E, sobretudo, "melhorar a qualidade construtiva dos edifícios". Ou seja, explica Pedro Reis, "subir sempre um patamar" nessa qualidade e garantir que os edifícios seriam sustentáveis, "resistentes, robustos, com ventilação natural". Não procuraram uma "arquitectura timorense" à qual tivessem que ser fiéis (uma das questões polémicas em Nova Orleães - mas, pergunta Pedro Reis, "porquê fixar e replicar uma fase da evolução da cidade quando existem outras?"). "O que tentámos em Timor foi melhorar a arquitectura corrente."

Tinham dois anos para reconstruir um país - não podiam perder muito tempo com experiências ecológicas, ou "a testar sistemas solares", mas preocuparam-se com a sustentabilidade (pôr ou não ar condicionado, por exemplo, ponderando os custos de funcionamento no futuro).

A experiência de outro arquitecto português, Filipe Balestra, não é exactamente numa zona de catástrofe, mas em situações que podem levantar questões semelhantes: favelas no Brasil e bairros da lata na Índia. "É essencial absorver a cultura do país, cidade ou bairro onde acabámos de chegar antes de começar a desenhar seja o que for", defende. "Especialmente se essa comunidade estiver traumatizada por uma recente catástrofe natural. Vivemos num estilo de vida e economia preguiçosa - máximo lucro, mínimo esforço. Quer-se fazer tudo à pressa. Esquecemo-nos que ainda ontem éramos agricultores e que o ritmo da natureza é bem mais lento do que o da cidade. A arquitectura deve tentar desacelerar para se sincronizar com a natureza local."

Corbusier enganou-se?

Para Filipe Balestra, trabalhar em territórios como estes implica uma enorme disponibilidade para ouvir os habitantes e discutir com eles. "Arquitectura desenvolvida por uma comunidade, lentamente e de modo colectivo, vai ser bem mais apropriada do que outra desenvolvida somente por arquitectos num escritório qualquer." Por isso, "é sempre bom começar com uma ideia muito simples, que possa ser facilmente compreendida por qualquer um [e que] tem que atrair o maior número possível de pessoas para fazerem parte do projecto".

Um exemplo simples de como uma tragédia modifica a forma de olhar para os edifícios: em 2005, um terramoto no Paquistão deixou sem casa perto de 3,5 milhões de pessoas. Os arquitectos do Article 25 britânico foram para o terreno e, em colaboração com a Muslim Aid, conceberam um tipo de casas baseadas na arquitectura local mas com uma estrutura muito mais leve. "No exterior não parecem muito diferentes", explica um artigo no jornal britânico The Guardian, "mas, na eventualidade de outro terramoto, irão abanar em vez de colapsar inteiramente".

Tal como Pedro Reis e os arquitectos com quem trabalhou em Timor, também os do Article 25 dizem que o melhor é trabalhar a partir dos materiais e técnicas de construção locais, tentando sempre que possível melhorá-las. Só assim é que é possível que um dia, quando os arquitectos estrangeiros se forem embora, os construtores locais estejam preparados para construir melhor. É também a isso que Brad Pitt se refere quando diz que é preciso "transformar a tragédia em vitória". "O mais revoltante", diz Pitt sobre Nova Orleães, "é pensar que tudo isto podia ter sido evitado."

Por isso, o Architecture for Humanity criou a Open Architecture Network - uma rede de profissionais que podem partilhar ideias e oferecer projectos. Têm um manifesto de apresentação que começa com a frase de Le Corbusier "Arquitectura ou Revolução. A Revolução pode ser evitada", para dizer que o arquitecto francês estava enganado: "Mil milhões de pessoas vivem numa pobreza abjecta. Quatro mil milhões vivem em economias frágeis mas em crescimento. Uma em cada sete vive num bairro de lata. Em 2020 será uma em cada três. Não precisamos de escolher entre arquitectura e revolução. Aquilo de que precisamos é de uma revolução arquitectónica."