"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Cinquenta mil entrevistas depois, o King diz adeus
A última entrevista de Larry King

http://www.publico.pt/Media/a-ultima-entrevista-de-larry-king_1471238?all=1
Por Kathleen Gomes, em Washington



Como será o mundo sem Larry King? Nos últimos 25 anos, a sua voz - e os seus suspensórios - foram omnipresentes. Cinquenta mil entrevistas depois, o King diz adeus.
King com Bill Clinton (Foto: DR)

Larry King sabe o que perguntaria a Deus se ele fosse ao seu programa na CNN. "Tem um filho?"

Quando se entrevistou tanta gente como Larry King, sobra muito pouco por fazer. King também preparou perguntas para Osama bin Laden, pelo sim, pelo não. Não começaria pelos atentados de 11 de Setembro, porque isso poria Bin Laden "na defensiva". Perguntar-lhe-ia "por que deixou uma das famílias mais ricas da Arábia Saudita para viver em lugares como o Afeganistão".

Se Deus ou Bin Laden descessem à terra, talvez só aceitassem ser entrevistados por Larry King. O seu programa, no ar há 25 anos, foi recentemente reconhecido pelo Livro dos Recordes Mundiais do Guinness como o mais sério caso de longevidade televisiva.

Em Junho, King entrevistou Lady Gaga. Dias depois, o comediante americano Bill Maher, que foi o convidado de Larry King, notou: "Pensei: "Quem mais é que consegue trazer a Lady Gaga ao seu programa? Nunca vi Lady Gaga em mais lado nenhum. Vi-a usar um aquário na cabeça. Mas nunca a vi a falar realmente com outro ser humano. Não fazia ideia de como ela era antes de falar contigo."

Uma das características do programa Larry King Live é, precisamente, ter convidados que não vão a mais lado nenhum. Mas, no fim de Junho, justamente no dia em que tinha Bill Maher em estúdio, Larry King anunciou que iria terminar o seu programa na CNN ao fim de 25 anos. A última entrevista vai para o ar esta noite.

O mais velho

É toda uma era da televisão americana que desaparece com os seus suspensórios. Larry King ainda faz parte da geração de entertainers que se formou na rádio antes de transitar para a televisão. Foi autor de um programa de entrevistas na TV por cabo com um estilo pioneiro: nem estritamente noticioso, nem exclusivamente showbiz, devedor dos grandes anfitriões dos programas de variedades do período clássico da televisão americana (Ed Sullivan, Johnny Carson...).

E anda nisto há tempo suficiente para ter entrevistado John Steinbeck (que morreu em 1968). Ele não é apenas a personalidade mais duradoura da televisão americana - aos 77 anos, é a mais velha.

Larry King explicou que ia deixar o programa para dedicar mais tempo à família - o entrevistador tem seis filhos, dois dos quais com 10 e 11 anos, do seu oitavo e último casamento com Shawn Southwick, uma cantora 26 anos mais nova. Também disse que saía por iniciativa própria, e que a CNN aceitou "graciosamente". Mas o anúncio surgiu após meses de especulação de que a CNN não sabia o que fazer com Larry King, cujas audiências tinham chegado ao valor mais baixo de sempre. Na Primavera, o seu programa contava com menos de 700 mil espectadores. Recentemente, quando a revista New York lhe perguntou o que faria se mandasse na CNN, King respondeu: "Ter-me-ia convencido a ficar." Não é a resposta de alguém que tem vontade de arrumar as botas - melhor dizendo, os suspensórios. E Larry King é um homem de hábitos: todos os dias, toma o pequeno almoço no mesmo café de Los Angeles. Em 2007, depois de uma operação a uma artéria, o New York Times perguntou-lhe o que é que o faria parar. "Deus queira que não, mas só se tiver uma crise de demência ou de Alzheimer. Só assim. E o que eu desejaria é que, a acontecer, isso acontecesse enquanto eu estivesse no ar. Só para ver como é que eles lidavam com a situação."

Esta noite improvisa-se

Mas em 2007 Barack Obama ainda não tinha ganho as eleições presidenciais e a Fox News ainda não era o que é: uma grande tenda para o descontentamento conservador e reaccionarismo anti-Obama. A Fox News é hoje o mais visto dos canais de notícias da televisão por cabo, seguido da sua nemésis de esquerda, a MSNBC. Ter uma lente agressivamente (Fox) ou histericamente (MSNBC) ideológica é sinal de audiências e, num cenário destes, a neutralidade da CNN surge em desvantagem. "Tornou-se moda criticar a CNN por não estar em sintonia com a natureza fundamentalmente ideológica da televisão por cabo no horário nobre", diz Mark Jurkowitz, ex-crítico de media do jornal Boston Globe e actual director adjunto do Project for Excellence in Journalism, um observatório da imprensa.Com o seu estilo não-contencioso e democrático, Larry King corre o risco de parecer arcaico. Nas décadas de 80 e 90, o seu programa era paragem obrigatória para quem quisesse aparecer. E era comum as suas entrevistas fazerem parte do noticiário do dia seguinte. No mundo de hoje, George W. Bush pode lançar um livro de memórias, Decision Points, e não ser entrevistado no Larry King Live.

"Agora há muita gente a fazer entrevistas. Quando Larry King começou, não havia assim tantas", nota Robert Thompson, professor e director do Centro de Televisão e Cultura Popular da Universidade de Syracuse.

King ainda consegue assegurar uma lista de entrevistados que nenhum outro programa de televisão consegue igualar - Al Pacino, Stevie Wonder, Angelina Jolie, Mike Tyson e Tony Blair estão entre os mais recentes. Mas as suas entrevistas tornaram-se um questionário de tópicos, com King a introduzir um tema e a perguntar "O que pensa disto?" como se estivesse em piloto automático.

"Existe uma certa frustração porque ele consegue ter uns convidados óptimos, que estão mesmo em cima dos acontecimentos e muitas vezes damos connosco a querer gritar para a televisão: "Porque é que não fez esta pergunta?" "Como é que não sabe quem esta pessoa é???"", ri-se Robert Thompson.

Em Janeiro deste ano, quando Roman Polanski esteve sob prisão domiciliária na Suíça, Larry King entrevistou a ex-cunhada do realizador, irmã de Sharon Tate, e confundiu Polanski com Charles Manson.

King: Alguma vez falou com Roman Polanski?

Debra Tate: Sim.

King: Como consegue ter uma conversa civilizada com alguém que assassinou a sua irmã de forma tão brutal?

Tate: Roman não matou a minha irmã.

Larry King sempre se orgulhou de não preparar as suas entrevistas. "Ele dizia que não queria saber demasiado sobre as pessoas que vinham ao seu programa. Se fosse um actor ou uma actriz, por exemplo, nem sempre queria ver o filme", conta Peter Occhiogrosso, co-autor de dois livros de memórias escritos com King, Tell It To The King (1988) e Tell Me More (1990). "Ele queria ser surpreendido, por isso confiava na sua curiosidade e intuição e fazia perguntas que lhe ocorriam naturalmente."

Occhiogrosso lembra-se de estar no estúdio com King e a produtora do apresentador entregar-lhe uns cartões azuis antes de entrar no ar, com informação sobre o convidado. "Ele dedicava-lhes provavelmente menos tempo do que você e eu gastaríamos a rever uma folha de apontamentos antes de um teste da faculdade. E não penso que ele usasse realmente esses cartões durante as entrevistas. E nos intervalos quase nunca falava com as pessoas. Perguntei-lhe: "Porque é que não lhes faz perguntas para preparar a parte seguinte da entrevista?" E ele respondeu: "Não quero saber o que vão responder. Quero reagir no momento em que eles dizem as coisas. Quero a adrenalina de lhes perguntar ao vivo e ver como respondem e depois reagir a isso." Se calhar é um exagero, mas nesse sentido ele era como um músico de jazz, improvisando no momento."

É uma prática que trouxe dos seus dias da rádio. King, lembra Occhiogrosso. Começou a sua carreira em Miami Beach, na Florida, num programa radiofónico emitido a partir de um barco-restaurante chamado Pumpernick"s, onde entrevistava os clientes em directo.Conversa de café

Na CNN, Larry King não se tornou conhecido apenas pelos suspensórios, os óculos de lentes grossas, e aquela forma muito sua de apontar o dedo como uma pistola ao disparar uma pergunta. As suas entrevistas também eram um género em si.

"A sua principal qualidade é um estilo de entrevista muito descontraído. Ele faz perguntas que não parecem ameaçadoras, que não são agressivas, e esse estilo põe as pessoas que estão a ser entrevistadas à vontade, e elas abrem-se", diz Paul Levinson, professor de comunicação e media na Fordham University, em Nova Iorque. "Quando vemos o seu programa, é quase como se estivéssemos a assistir a uma conversa entre dois amigos sentados num café."

"Ele disse-me que gostava de fazer o tipo de perguntas que iria querer ouvir se estivesse a ver uma destas pessoas a ser entrevistada", diz Peter Occhiogrosso.

"Acho que parte do sucesso de Larry como anfitrião e da sua habilidade para atrair grandes nomes tem a ver com o facto de ele ser visto como um entrevistador que não intimidava. Ele punha as pessoas à vontade, fazia boas perguntas, e às vezes obtinha respostas lancinantes ou honestas, mas não é como se as pessoas que iam ao seu programa sentissem que iam ser encostadas à parede ou que iriam estar à defesa", diz Mark Jurkowitz. "Em vez disso, Larry era uma espécie de conversador nato, que a maior parte do tempo punha os seus convidados numa zona de conforto que deixava a conversa fluir mais facilmente."

"Existe a teoria de que muitas pessoas aceitavam ir ao programa de Larry King e a mais nenhum porque sentiam que iam estar num ambiente favorável", explica Robert Thompson. "Nesse sentido, Larry King pode ter agarrado uns quantos convidados que outros entrevistadores mais rigorosos jamais conseguiriam ter e isso vale alguma coisa." Nesse contexto - amigável, sem pretensões intelectuais, da pequena conversa sem muita profundidade -, uma figura política, por exemplo, talvez acabasse por revelar mais do que tencionava à partida.

Outra singularidade do programa de Larry King: a distinção entre o histórico e o trivial não existe. A sua lista de entrevistas revela uma incrível versatilidade, capaz de lidar com a política nacional num dia, uma estrela pop no dia seguinte e um tema dos tablóides (escândalos, crimes) noutro. Entrevistou Lady Gaga, Bill Gates e o Presidente Obama na mesma semana. Na anterior, tinha recebido o vencedor da edição americana de Ídolos.

"A Estátua da Liberdade tem escrito: "Venham a mim os vossos pobres, as vossas massas apinhadas...". Larry King também é um pouco assim. "Dai-nos as vossas estrelas pop, os vossos líderes políticos. Eu sentar-me-ei e terei uma conversa com qualquer pessoa." Essa é uma das razões porque ele durou tanto tempo", diz Robert Thompson. "O verdadeiro legado do programa é o seu departamento de marcações [de entrevistas], porque nos dá uma visão muito abrangente do que se está a passar em termos de cultura. Não é apenas um programa político, não é apenas um programa de entretenimento, não é apenas um programa de tablóide. E conseguiu ter as pessoas relevantes quando surgia uma notícia de última hora."

Robert Thompson continua a ver o programa com regularidade - "ainda mais agora, que está perto do fim" -, mas os seus alunos não. "Ele é um tema frequente nos programas de comédia nocturnos. E há paródias dele na Internet. Existe toda uma cultura juvenil que dá conta da existência de Larry King a quem não vê necessariamente o programa."

Thompson admite que as entrevistas "têm vindo a ficar cada vez mais surrealistas". "Quando às vezes oiço que certos convidados vão estar no Larry King, acabo por ver menos por achar que vão ser ditas coisas importantes e mais porque não quero perder alguma comédia involuntária que possa acontecer. Tal como costumava assistir ao Ídolos quando Paula Abdul fazia parte do júri. Uma pessoa nunca sabia o que é que ela poderia fazer que valesse a pena ver."

Investigação
Cinco milhões de livros digitalizados para decifrar “genoma” cultural

http://www.publico.pt/Tecnologia/cinco-milhoes-de-livros-digitalizados-para-decifrar-genoma-cultural_1471376

Cientistas norte-americanos usaram cinco milhões de livros digitalizados para decifrar o “genoma” da cultura humana, detectar as palavras mais usadas em cada época e analisar como mudou a sintaxe.
Outra conclusão dos cientistas é que, a cada ano que passa, a Humanidade esquece o seu passado de forma mais célere (Mike Segar/Reuters)

Dois investigadores da Universidade de Harvard dedicaram quatro anos a este trabalho, que designaram como culturomics, e publicaram hoje os resultados na revista "Science".

Como seria impossível ler todos os livros existentes no mundo, a equipa recolheu uma amostra de cinco milhões de obras e socorreu-se das novas tecnologias, como o Google.

Concluíram que o Inglês cria cerca de 8.500 novas palavras todos os anos, apesar de muitas não serem imediatamente assumidas nos dicionários.

Outra conclusão é que, a cada ano que passa, a Humanidade esquece o seu passado de forma mais célere.

Como exemplo, indicam que as referências a 1880 perduraram até 1912, durante 32 anos. Já as referências a 1973 desapareceram, em média, dez anos depois.

Contudo, as novas descobertas divulgam-se agora mais rapidamente que nunca. Os cientistas asseguram que no final do século XIX as novidades eram difundidas duas vezes mais depressa do que em 1800.

Em relação à notoriedade alcançada por personalidades, os investigadores descobriram que se tem tornado mais óbvia mas também mais efémera. As celebridades nascidas em 1950 atingiam a fama, em média, aos 29 anos. No início do século XIX, a média era de 43 anos.



Corrigir Provedor do Leitor Feedback Diminuir Aumentar

terça-feira, dezembro 14, 2010

Semelhante à Wikipédia
Cuba lança a sua própria enciclopédia online
14.12.2010 - 11:18 Por PÚBLICO

http://www.publico.pt/Tecnologia/cuba-lanca-a-sua-propria-enciclopedia-online_1470873

O governo cubano está a lançar a sua própria enciclopédia online, à semelhança da Wikipédia. Nela consta uma versão do Mundo e da História feita à imagem de Havana.
A entrada sobre Fidel Castro descreve-o como alguém que “escreve e participa na luta de ideias a nível global” (Reuters)

O novo site - www.ecured.cu - deverá ser lançado oficialmente hoje, mas cerca das 11h00 (hora de Lisboa) ainda não estava em funcionamento. De acordo com a BBC esta base de dados sem fins lucrativos posta em marcha pelo governo cubano já tem cerca de 20 mil entradas.

As actualizações poderão, segundo a BBC, aparecer online após a aprovação prévia dos administradores - embora não seja claro quem serão eles. No fundo esta ecured.cu é uma espécie de Wikipedia, mas com a necessidade de aprovação prévia por parte dos administradores do site, como acontece, de resto, com a própria Wikipedia em cerca de 2000 entradas mais polémicas.

De acordo com a própria EcuRed, o site foi desenvolvido “para criar e disseminar o conhecimento de todos e para todos, a partir de Cuba e com o Mundo”. “A sua filosofia é a acumulação e o desenvolvimento de conhecimento, com um objectivo de democratização, não lucrativo, objectivo, de um ponto de vista descolonizador”.

EUA é o “império dos nossos tempos”

De acordo com a BBC, alguma das entradas já disponíveis no site oferecem a visão cubana da História e do Mundo. Por exemplo, quando se faz uma busca por “Estados Unidos”, a EcuRed descreve o país como “o império do nosso tempo, que historicamente tomou pela força territórios e recursos naturais de outras nações, para os pôr ao serviço dos seus negócios e dos seus monopólios”.

“[O país] consome 25 por cento da energia produzida no Planeta e, apesar da sua riqueza, mais de um terço da sua população não tem acesso a cuidados médicos”, indica o artigo.

As relações entre a Cuba e os EUA têm melhorado desde que Barack Obama chegou ao poder, mas o embargo norte-americano à ilha mantém-se firmemente de pé.

O site EcuRed indica ainda que os EUA sempre quiseram tomar aquela ilha do Caribe. No mesmo artigo pode ler-se - segundo a BBC - que os líderes norte-americanos sempre olharam para Cuba como “aqueles que admiram uma fruta maravilhosa que acabará por cair nas suas mãos”.

Por outro lado, a entrada sobre Fidel Castro descreve-o como alguém que “escreve e participa na luta de ideias a nível global” e que influenciou “decisões revolucionárias importantes e estratégias”. Já o seu irmão - Raul Castro - que sucedeu a Fidel no poder - é descrito como “um combatente revolucionário, um líder político, um estadista e um chefe militar”.