Bélgica nasceu de uma ópera
Há 175 anos, o grito de revolta passou do palco para a rua, dando origem ao país
http://dn.sapo.pt/2005/07/21/internacional/belgica_nasceu_uma_opera.htmlFernando de Sousadelegado em bruxelas
Quando o compositor Daniel Auber retratou uma revolta na ópera La Muette de Portici, em 1828, nem desconfiava que iria provocar outra e dar origem a um novo país na Europa a Bélgica. Os 175 anos da sua independência são hoje assinalados. O ambiente político estava já deteriorado, com fortes tensões no seio da população do Reino Unido da Holanda, criado pelo Congresso de Viena de 1814, a envolver o território que hoje é a Bélgica. A ideia passava por criar um Estado-tampão capaz de conter quaisquer aspirações expansionistas da França, após a queda de Napoleão I. A população belga, porém, sentia-se tratada como de segunda categoria face aos holan- deses. Os belgas, de temperamento mais vivo, ressentiam-se com a austeridade dos hábitos holandeses. Os primeiros eram católicos e falavam francês, os segundos calvinistas e preservaram a sua língua.Em 1830, Bruxelas estava animada por uma grande Exposição Industrial, mas os relatos da época não deixam dúvidas. Nas paredes de Bruxelas, lia-se "Segunda, fogo de artifício. Terça, iluminações. Quarta: revolução."A 25 de Agosto de 1830, no palco do teatro de la Monnaie, no centro de Bruxelas, a ópera La Muette de Portici trazia a emoção da insurreição de Nápoles contra a dominação espanhola. Vivia-se o Século XVII. Perante uma assistência ao rubro, o pescador Tommaso Aniello, conhecido como Masaniello, chefe da revolta, entoava o refrão "Amor sagrado da pátria, dá-nos a audácia e o orgulho". Quando Masanello lança o seu "Às armas!", a sala levanta-se e grita em uníssono. REVOLTA. A multidão vem para a rua, várias casas de figuras destacadas ficam em chamas e a Câmara Municipal, a pouca distância, é ocupada. Os revoltosos adoptam, imediatamente, a sua bandeira preta, amarela e vermelha, as cores do Brabante, a região de Bruxelas. Muitos queriam ligar-se à França, como no tempo da Revolução Francesa, mas o projecto é mal aceite no exterior. Em cidades como Liège e Namur, todavia, chega a cantar-se a Marselhesa, o hino da França, com as cores da bandeira francesa, azul, branco e vermelho. Surge, entretanto, o hino dos revoltosos, a Brabançonne, que ainda hoje simboliza a Bélgica.Propõe-se, a seguir, ao rei holandês Guilherme I, uma "separação administrativa". Este mecanismo consagraria a divisão mas ainda deixaria uma ligação pessoal à dinastia holandesa de Orange- -Nassau. O rei envia, a 20 de Setembro, o Príncipe Frederico, à frente de um exército para retomar o controlo. Não foi bem sucedido e acaba por retirar a 26, impotente perante as barricadas em Bruxelas e noutras cidades. No dia seguinte, os Estados Gerais da Haia, entretanto convocado por Guilherme I, acabam por aprovar a separação administrativa. Contudo e depois da tentativa militar de recuperação do poder, a resposta dos revoltosos foi "tarde de mais!"O governo provisório, entretanto formado, decide declarar a independência da Bélgica a 4 de Outubro, reconhecida em Dezembro pelas potências europeias. O primeiro rei da Bélgica será Leopoldo I, que prestou juramento a 21 de Julho de 1831, que passou a ser o Dia Nacional da Bélgica. Os 175 anos da independência serão assinalados hoje pelos belgas com grande júbilo. Certamente que, no meio dos festejos, haverá um lugar especial para o compositor Daniel Auber e para a recordação do grito de revolta do pescador Masaniello.