Acordos de saúde
Doentes graves, africanos, depositados em pensões obscuras
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1240545&idCanal=21
30 de Novembro de 2005
POR Ricardo Dias Felneros doentes com cancro, insuficiência e outros diagnósticos gravessão transferidos para um abrigo instalados em apartamentos com baratas, ratosmuitos deles marcados prematuramente pela morte os seus quartos imundos, húmidos e escuros estão longe do seu paísda embaixada responsável pelos alojamentosa escolha tentar a cura com este suplícioou deixá-las a morrer em ilhas longe do prédio sai uma mulher magra, escura, com um roupão durante dois minutos fica parada engolindo o que traz consigoobservando a gente no comércio tradicional e arranca, lenço na cabeça e mãos compridas nos bolsosaté ao fundo da rua e regressa em minutos o ruído das buzinas apanhar ar juntamente com uma filhacom ela vivem mais 24 pessoasboa parte com cancrona porta de um edifício a mulher não é a pessoa certa para falarfixa o olhar num funcionário eu não sei nadanum momento a mulher mudasobe as escadas indiferente à madeira dos degrausvenha, venha", indica. Ao segundo lanço, entra pela porta escancarada do primeiro andar, por onde soam ritmos sintetizados de música pop africana misturados com mornas cabo-verdianas. "Pode já ter uma ideia do que aqui se passa", diz, aceitando agora revelar tudo, "pôr toda a gente a contar a sua situação". Os quartos sucedem-se ao longo do corredor, numerados. O de Cesária é o segundo, do lado direito. "Veja isto: é a minha filha. Tem encefalia." Prostrada de costas numa cama imunda, Sónia olha os intrusos, a cabeça inchada, desproporcional ao corpo paralisado de seis anos de idade. A presença da criança quase passa despercebida no espaço exíguo, cheio de roupas amontoadas e lixo, caixas de medicamentos e fraldas usadas. Cesária justifica o cheiro a excrementos - o ar absolutamente irrespirável. "Não posso estar sempre a limpar-lhe o cocó e a mudar-lhe a roupa", alega. A residência é um mostruário de horrores, as paredes esventradas e enegrecidas, cabos pendurados ao longo dos corredores escuros. Pontas de fios eléctricos junto a um estendal interior.No meio da cozinha, duas botijas de gás fazem temer o pior. Os canos que ligam ao esquentador estão velhos e quebrados. Basta lavar dois copos de água para se perceber as fugas e o risco de explosão. Como se não bastasse, há resistências de aquecedores espalhadas pela habitação e alguns inquilinos fazem as refeições nos quartos, usando bicos de campismo. Medos, misérias, doenças e lamentosOs residentes dos outros andares do prédio centenário já detectaram o perigo e receiam pela vida. "Qualquer dia acontece uma tragédia. Quando era um lar, veio cá a inspecção e mandou fechá-lo. Mas agora ninguém parece importar-se com isto", alerta um vizinho, indignado. "Não compreendo como deixam que se tratem assim as pessoas, em Portugal, no século XXI."A casa está, também, muito longe de garantir o mínimo de condições de salubridade e conforto, tanto mais albergando doentes fragilizados do ponto de vista físico e emocional. Em qualquer ponto sente-se frio, humidade, correntes de ar. A janela da única casa de banho está rachada. E o mesmo acontece nalguns quartos, onde as portadas para o exterior revelam frestas invernais. Pior: a porta do apartamento e a porta do prédio, ambas empenadas e com as fechaduras avariadas, estão sempre abertas - garantem os inquilinos. "Já apanhei aqui angina de peito", garante Fátima, 30 anos, sentada sobre a cama, almoçando peixe cozido com legumes. A sua mobilidade é muito reduzida: um tumor obrigou à remoção da parte inferior da perna. "Os médicos fizeram uma cirurgia no coto e agora estou a aguardar que acabem a prótese", afirma, acrescentando. "Ninguém se importa connosco. Tratam-nos como animais. Há pouco tempo estivemos sem esquentador durante três dias. Queixei-me à empregada do senhorio, mas ainda fui ofendida", diz. "Estamos completamente abandonados. Nós é que temos que ir comprar a comida, é que cozinhamos, é que fazemos a limpeza dos quartos."Na sala de convívio, nome pomposo para uma divisão com dois sofás cavos e sujos, os outros moradores do apartamento vão-se acercando e adicionando lamentos. A uma dezena de mulheres foram diagnosticados cancros no útero e na mama; os homens sofrem quase todos de insuficiência renal ou "problemas na uretra"; uma criança está a ser "tratada ao coração e outra à bexiga".Uma cabo-verdiana, acabada de chegar à residência, põe o problema nestes termos: "Nós viemos para ser tratados, não para ficarmos ainda mais doentes. Fomos enganados. Na viagem para aqui, disseram-me que esta pensão até era das melhores."* Todos os nomes usados nesta reportagem são fictícios