"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, agosto 22, 2006

Grass à TV alemã: "Ser soldado, ir para a frente, era libertador, de certa forma"
http://dn.sapo.pt/2006/08/22/artes/grass_a_alema_ser_soldado_para_a_fre.html
22 de Agosto de 2006

Prossegue muito aceso na Alemanha, e não dá mostras de acalmar, o debate em redor da revelação do romancista Günter Grass de que, aos 17 anos, pertenceu às Waffen-SS durante a II Guerra Mundial, após ter sido recusado como voluntário para os submarinos. Agora, foi o próprio Grass a pronunciar-se na televisão, dias depois do lançamento da sua autobiografia, Descascando a Cebola, que contém a revelação, e que esgotou uma primeira edição de 150 mil exemplares em dois dias. A entrevista foi dada a um programa de televisão da cadeia ARD, apresentado por Ulrich Wickert, e parcialmente reproduzida pela revista Der Spiegel.O autor de O Tambor explica que só agora fez esta revelação que lhe tem "pesado" toda a vida, porque a tinha "reprimido", frisando: "Não lhe posso dar razões precisas. Isto sempre esteve comigo, e eu acreditava que o que eu estava a fazer como escritor e cidadão, coisas que significavam exactamente o oposto das ideias que me tinham moldado nos meus anos de juventude, na época do nazismo, era suficiente". Recordando a Grass um discurso que este fez em Israel em 1967, em que dizia que nunca tinha escondido o facto de ter sido da Juventude Hitleriana aos 14 anos, de ser ter alistado aos 16 e sido feito prisioneiro de guerra aos 17, o entrevistador pergunta ao escritor porque é que ele não "mencionou nessa altura que tinha pertencido às Waffen-SS".A reposta é imediata: "Sim, podia tê-lo feito. É fácil dizer isto agora e pergunto-me a mesma coisa. Discuti isto no livro, incluindo o meu silêncio. O livro está agora disponível, para que os leitores possa formar a sua opinião. É por isso que, na actual situação, só posso mesmo é encaminhar os leitores para o meu livro."Instado por Ulrich Wickert, Günter Grass refere que o que o fez ser voluntário para a tropa tão novo pode ter sido "em parte" a vontade de "ser herói". Mas invoca motivos mais pessoais: "Foi também a falta de espaço em casa, no apartamento dos meus pais. Tal como sucedeu com muitos daqueles que cresceram em condições tão constrangedoras nesses tempos, ser soldado, ir para a frente, era libertador, de certa forma." E volta a insistir: "Eu fui recrutado para as Waffen-SS, não fui lá exactamente oferecer-me, o que seria igualmente idiota. Queria ir para os submarinos e depois acabei nas Waffen-SS."