O produtor que falsificava discos da mulher por amor
http://dn.sapo.pt/2007/04/09/artes/o_produtor_falsificava_discos_mulher.html
9 de Abril de 2007
POR José Mário Silva
Já lhe chamam o Hattogate. A história de Joyce Hatto, uma pianista mediana que o marido, apaixonado mas sem escrupúlos, transportou ao Olimpo da crítica musical - ao inventar os seus discos, através da apropriação ilegítima do trabalho de outros músicos e de manipulações digitais - tem feito correr rios de tinta nas últimas semanas, tanto nas publicações especializadas como na imprensa generalista e na Internet. O escândalo rebentou em Fevereiro, quando a revista Gramophone revelou a primeira prova concreta da fraude de William Barrington-Coupe, marido de Hatto (falecida em Junho de 2006) e produtor musical da Concert Artist, a pequena etiqueta em que a pianista, supostamente retirada dos palcos devido a um cancro debilitante, publicara misteriosamente mais de cem discos na última década. Esta prolixidade tardia, que abarcou não apenas as sonatas completas de Beethoven, Mozart, Haydn ou Prokofiev, mas também as peças mais difíceis de Liszt ou Rachmaninoff, já levantara muitas suspeitas em fóruns de discussão na Internet, no início de 2006. Como é que uma mulher enfraquecida conseguira gravar tantos discos, ainda por cima de altíssima qualidade e elogiados entusiasticamente pela mesma crítica que a ignorara durante décadas? Por muito improvável que fosse a ascensão desta intérprete obscura, os melómanos desconfiados não se mostraram capazes de apresentar provas credíveis contra Hatto, que continuou a merecer uma espécie de culto entre um círculo de "conhecedores" cada vez menos restrito. Entre outros epítetos laudatórios, houve quem a considerasse "a maior pianista viva de que quase ninguém ouviu falar".Até que o acaso interveio. Brian Ventura, um analista financeiro norte-americano, decidiu ouvir no seu computador o disco de Hatto com os 12 Estudos Transcendentais de Franz Liszt. Para seu espanto, o software da loja iTunes, que recorre à base de dados da Gracetone, identificou o disco como sendo do pianista húngaro Laszlo Simon (ver infografia ao lado). Perplexo, escreveu à Gramophone e a revista, somando dois mais dois, pediu imediatamente um estudo detalhado dos discos de Hatto a Andrew Rose, um engenheiro de som da empresa Pristine Audio.O resultado foi devastador: pelo menos 20 dos discos atribuídos a Hatto contêm material realmente gravado por Laszlo Simon e outros pianistas (Carlo Grante, Yefim Bronfman ou Vladimir Ashkenazy), além de manigâncias digitais grosseiras. Depois de ter negado as acusações, Barrington-Coupe confessou a fraude, em carta a Robert von Bahr (director da editora sueca BIS, a principal lesada), dizendo que manipulou as gravações por amor à mulher doente, para corrigir as suas falhas, apagar "os murmúrios de dor" que ela não conseguia suster e para lhe criar a ilusão de que o cancro não lhe minara a capacidade criativa. Além disso, garante que a mulher não sabia de nada, o que muitos analistas também põem em causa. O escândalo está agora sob investigação da British Phonographic Industry, a autoridade competente no combate à pirataria no Reino Unido.Contactado pelo DN, o musicólogo Rui Vieira Nery afirmou que, embora nunca tenha ouvido os discos da polémica, compreende o engano que traiu os críticos. "Ninguém conhece todos os discos que se gravam no mundo, pelo que ao ouvir uma gravação excelente, apresentada como original, nunca se pode ter a certeza de que não pertence a outro músico". Quanto à história humana de Joyce Hatto, não tem dúvidas: "Dava um belo guião para um filme".

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home