"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

segunda-feira, outubro 08, 2007

Monges agredidos para "denunciar os líderes"
http://dn.sapo.pt/2007/10/08/internacional/monges_agredidos_para_denunciar_lide.html
MONY CHRIS, em Rangum

"Espancaram-nos e depois interrogaram-nos para denunciarmos quem eram os líderes." Um jovem monge contou à AFP como, com cerca de mil outros monges, detidos durante as manifestações contra o regime militar, ficou refém durante seis dias num armazém sobreaquecido e sofreu agressões, fome e sede.Uma manhã, os soldados chegaram ao seu mosteiro budista, explicando aos monges que iam levá-los a um almoço oferecido pelo exército.Armadilha grosseira, atrás da qual se escondia um dos ataques das forças de segurança contra 18 mosteiros: ao chegarem a uma escola, os monges foram atirados para dentro de um edifício sobreaquecido, sem janelas, nem casas de banho. Antes de serem obrigados a despir-se e de serem espancados repetidamente."Fomos forçados a ajoelhar, com a cabeça virada para o sol, como os prisioneiros. Ficámos assim durante dois dias, antes de nos despirem", testemunha o monge de 18 anos, que preferiu manter o anonimato."Fomos espancados a murro e a pontapé ou com bastões. Depois fomos separados em grupos de dez e interrogados um a um. Eles queriam saber se tínhamos participado nas manifestações e quem era o líder no nosso mosteiro", diz o monge. No fim dos interrogatórios, os monges eram fechados em salas de aulas em grupos de 60, obrigados a ajoelhar e a fazer as necessidades no chão. Segundo o jovem monge, os soldados budistas confessaram ter vergonha do tratamento que lhes estavam a dar."Alguns soldados budistas vieram pedir desculpas e implorar o nosso perdão. Disseram-nos que se nos estavam a tratar assim era porque tinham recebido ordens superiores", conta o monge. "Alguns monges disseram então aos soldados que iriam para o Inferno e estes começaram a chorar porque sabiam ser verdade." Para obter misericórdia, os soldados levaram água aos prisioneiros.O jovem reconheceu entre os prisioneiros vários monges do mosteiro de Ngwekyaryan, duramente espancados pelos soldados a quem tentaram resistir. "Alguns estavam feridos, com os olhos fechados após terem sido agredidos. Outros estavam feridos na cabeça e nos braços. Alguns apresentavam mesmo fracturas expostas", garante o monge.Os religiosos foram depois separados em vários grupos: no primeiro ficaram os que eram suspeitos de ter participado nas manifestações, noutro os acusados de terem liderado os manifestantes e por fim os suspeitos de os terem apoiado.O jovem monge foi finalmente libertado com outros religiosos do seu mosteiro, após ter garantido aos militares que nunca se tinha manifestado.Enquanto espera o regresso à sua aldeia, onde irá reencontrar toda a calma e segurança, o monge garante não sentir ódio pelos seus torturadores. "Não tenho raiva dos soldados. Envio-lhes mesmo uma mensagem de amor, para que reencontrem a paz, um dia." AFP