"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, novembro 08, 2007

Previsões da AIE até 2030
Chineses constroem "uma central de Sines" de quatro em quatro dias
http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1310046
08.11.2007 - 09h25

Por Lurdes Ferreira, Ricardo Garcia
Beawiharta/Reuters (arquivo)
Especialistas portugueses afirmam que a AIE resiste a assumir o declínio da produção do petróleo e que falta sensibilidade para a mudança de modelo energéticoNo mundo ideal, os carros são movidos a hidrogénio, as casas quase não gastam energia, o sol e o vento é que produzem electricidade e ninguém mais teme o aquecimento global. Mas nos cenários da Agência Internacional de Energia (AIE), está tudo ao contrário.O seu relatório anual sobre o futuro energético global (World Energy Outlook 2007), ontem divulgado, diz que a humanidade consumirá ainda mais petróleo e carvão em 2030 do que hoje. E qualquer solução para aliviar os problemas da dependência dos combustíveis fósseis passará pela China e pela Índia, os dois "gigantes emergentes da economia mundial e do mercado energético", como diz o documento.É a primeira vez que a AIE olha em detalhe para a possível evolução futura dos dois pesos-pesados do mundo em desenvolvimento. Um dado novo: os cenários, hoje, indicam que a procura de energia em 2030 vai ser quatro por cento maior do que se imaginava há apenas um ano, no anterior relatório. Esta variação aparentemente pequena corresponde a mais de um terço do consumo energético actual de toda a União Europeia.Outra evidência do relatório é a de que a utilização do carvão - o mais sujo dos combustíveis fósseis - vai continuar a subir em flecha, cerca de 73 por cento entre 2005 e 2030, num cenário de referência, que conta apenas com as políticas que já estão em curso neste momento. Mais uma vez, a China e a Índia são as locomotivas: ambas respondem por 80 por cento deste aumento.Mesmo com os preços actuais a chegarem aos 100 dólares o barril, o consumo de petróleo também sobe no futuro. Em 2030, poderá chegar aos 116 milhões de barris por dia, 37 por cento mais do que hoje. O petróleo ainda continuará a ser a fonte de energia mais usada, embora o seu peso diminua. A Agência Internacional de Energia afirma que as reservas de petróleo são suficientes para a procura em 2030. Mas não põe de parte a possibilidade de uma crise por volta de 2015, "envolvendo uma abrupta escalada nos preços".Pouco tempo para agirPara o físico Rui Namorado Rosa, um dos raros portugueses ligados ao grupo internacional de "petropessimistas" reunidos na Associação para o Estudo do Pico do Petróleo (ASPO), a AIE continua a "não assumir a realidade" do declínio da produção de petróleo, "uma realidade que vai sendo disfarçada por etapas", mas que "se vai impondo". No cômputo geral, a procura de energia irá subir 55 por cento até 2030, ou 38 por cento, num cenário alternativo, que contabiliza todas as medidas para poupança energética que estão a ser pensadas neste momento. Quase metade desta subida (45 por cento) cabe à China e à Índia. O que mais preocupa a agência é o pouco tempo que há para agir. Os dez próximos anos, diz o relatório WEO2007, "são cruciais", devido à necessidade de expansão rápida de infra-estruturas, para atender ao crescente consumo. "O ano 2030, em termos energéticos, é já amanhã", afirma o antigo secretário de Estado do Ambiente e conselheiro da Comissão Europeia para as questões ambientais. Diz que falta à AIE a sensibilidade da mudança, por o futuro não se jogar entre regiões, mas "no casamento entre as tecnologias de informação e a energia e no casamento entre os sistemas de transporte e a electricidade". E isso, defende, vale para qualquer região, qualquer que seja o seu nível de desenvolvimento.Só em 2006, a China construiu 105 gigawatts de potência em centrais térmicas, sobretudo a carvão. Isto significa, em média, instalar uma central como a de Sines - a maior de Portugal - a cada quatro dias. A Índia, segundo o WEO2007, vai precisar de 400 gigawatts de capacidade adicional até 2030. Tudo se mede em números superlativos. A frota automóvel chinesa era de 5,5 milhões de veículos em 1990. Em 2005, tinha subido para 37 milhões e até 2030 explodirá para 270 milhões. As vendas de carros novos deverão superar as dos Estados Unidos já em 2015.