Quem matou o ícone da segunda Intifada?
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15.11.2007, Maria João Guimarães
Caso judicial sobre autenticidade das imagens do tiroteio que levou à morte de Mohammed al-Dura, em Setembro de 2000, voltou ontem aos tribunais em França
Muitos não hesitam em classificá-la como "a" imagem da segunda Intifada. Logo no segundo dia da revolta palestiniana de 2000, uma câmara de televisão foca um menino de Gaza aterrorizado, agachado atrás do pai, que tenta protegê-lo durante uma furiosa troca de tiros entre israelitas e palestinianos, atrás de uns blocos de cimento cinzento, perto de um colonato judaico na Faixa de Gaza. Passados uns segundos, o menino está morto e o pai ferido.
A imagem de Mohammed al-Dura multiplicou-se em selos em países árabes, foi repetida em stencil ou em cartazes gigantes pela Faixa de Gaza, o seu nome foi atribuído a ruas ou parques pelo mundo árabe. A sequência foi ontem visionada na totalidade pelo tribunal da relação de Paris, numa audiência do caso judicial que nasceu da polémica à volta da autenticidade das imagens. O episódio data de Setembro de 2000. A afirmação, feita a acompanhar a imagem, de que teriam sido os soldados israelitas a matar o menino foi muito questionada logo após a difusão das filmagens. Quem as obteve foi o operador de câmara da France 2 em Gaza, Talal Abu Rahma, e foram comentadas pelo chefe da delegação da estação pública francesa em Jerusalém, Charles Enderlin (que não estava presente no cruzamento de Netzarim, Sul da Faixa de Gaza, na altura do incidente). Inicialmente, o Exército israelita pediu desculpa, afirmando que seria provavelmente um soldado israelita o autor dos disparos que mataram o rapaz. Mas, numa segunda investigação, já dizia que isto era pouco provável. Cada vez mais dúvidasE quanto mais tempo passou, mais dúvidas vieram sendo expressas - por exemplo, num documentário de uma estação de televisão alemã de 2002. Em Israel há mesmo um homem que se dedica, há anos, a duvidar de todo o incidente, alegando que se trata de uma encenação. Nahum Shahaf põe inclusivamente em dúvida a própria morte de Mohammed al-Dura. Mas Shahaf é um velho conhecido destas andanças de desacreditar os acontecimentos que fazem as primeiras páginas dos jornais: já tinha afirmado ter "novo material" sobre o assassínio do antigo primeiro-ministro israelita Yitzhak Rabin. Um académico americano, Richard Landes, também se dedicou à análise exaustiva de todo o material difundido nesse dia, e concluiu que a morte de Al-Dura foi encenada. Para ele, tratava-se do que chama Pallywood, ou seja, "drama feito por palestinianos para as câmaras palestinianas", e alegava que o menino nem morreu.O caso nos tribunais Um processo judicial a decorrer em França já levou à acusação por difamação de Philippe Karsenty, director de uma agência de vigilância dos media, a Media Ratings, por este ter acusado Charles Enderlin de ter falseado as imagens. Karsenty recorreu da decisão. E ontem, pela primeira vez, o tribunal de relação viu a totalidade das imagens captadas por Abu Rahma, ou seja, os 25 minutos de gravação que foram depois editados - na primeira vez que difundiu as imagens, a France 2 usou 55 segundos destas filmagens. Sobre isso, Philippe Karsenty escrevera que a estação tinha sido responsável por uma "falsificação que desonra a França e a sua televisão pública", segundo o diário israelita anglófono Jerusalem Post. A estação de televisão tinha cedido as imagens gratuitamente após o incidente a todas as televisões do mundo, mas negou o acesso a todas as gravações à produtora alemã que fez o documentário de 2002. A France 2 alegava que tinham sido cortados pedaços das imagens que mostravam os últimos momentos de "agonia" do menino.Outras pessoas acabaram por ver a totalidade dos 27 minutos de filmagens: três respeitados jornalistas franceses, a convite da directora da France 2, Arlette Chabot. Tratava-se de três jornalistas seniores, que não puseram em causa a morte do menino, mas que afirmaram que os momentos de agonia não eram visíveis, como alegava a France 2. O artigo em que falavam sobre a questão foi publicado no jornal Le Figaro. Soube-se depois que o propuseram ao Le Monde, que recusou publicá-lo pela "bizarria" do debate, segundo o director das páginas de opinião, citado na altura pelo jornal norte-americano The New York Times.Falta de provasO problema central no caso Al-Dura é a falta de provas. O funeral do menino foi feito logo no final dessa tarde, segundo a tradição muçulmana. O corpo não foi sujeito a autópsia. Não foram recuperadas balas, e o muro e cilindro israelitas onde pai e filho se abrigaram foram demolidos pelo Exército do Estado hebraico pouco depois. O estratega israelita Dan Schueftan, em declarações ao artigo que James Fallows publicou na revista norte-americana Atlantic Monthly (de 2003), explicou o caso deste modo: "É o símbolo do que os árabes querem pensar: o pai está a tentar proteger o filho, e os judeus satânicos - não há outra palavra para isso - estão a tentar matá-lo. Estes judeus são pessoas que vêm matar as nossas crianças, porque não são humanos." Por outro lado, poder-se-ia dizer que o caso alimenta também a pior ideia dos israelitas em relação aos palestinianos: a de que seriam capazes de fingir uma morte, ou pior, de matar uma das suas crianças, para culpar disso o inimigo. A responsável da estação francesa, Arlette Chabot, tem afirmado inúmeras vezes que "ninguém pode dizer com certeza quem matou" Mohammed al-Dura. Desviar atençõesMas enquanto em Israel alguns mostram alívio pela nova postura do Estado hebraico, ao recusar responsabilidade neste incidente, outros acham que o que importa é a bigger picture. Num artigo recente publicado pelo jornalista israelita Gideon Levy, antigo porta-voz de Shimon Peres e membro da direcção do respeitado Ha"aretz, insurgia-se contra este debate, lembrando todos os outros menores mortos em acções do Exército israelita nos territórios palestinianos. "Todas estas perguntas de mau gosto estão feitas para desviar as atenções do que é importante", escrevia Levy a propósito do ressurgir do debate sobre a morte de Al-Dura."De acordo com dados da organização de direitos humanos B"Tselem, Israel é responsável pela morte de mais de 850 crianças e adolescentes palestinianos desde que Al-Dura foi morto, incluindo 92 apenas no ano passado." Assim, "nem milhares de Nahum Shahafs [o israelita que se tem dedicado à investigação do caso] conseguirão ofuscar o facto inequívoco de que uma escandalosa matança de crianças está a acontecer nos territórios". Pequeno destaque em caixa com fundo que tambem pode servir de legenda para a fotografia do lado esquerdo

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