Anticlímax na segunda ronda dos leilões de Outono: o mercado resistiu a um Van Gogh
09.11.2007,
Inês Nadais
Anteontem, os analistas leram os recordes batidos por Matisse, Pissarro e Signac no leilão de arte impressionista e moderna da Christie"s como um sinal da avidez dos investidores por um mercado ultimamente bem mais fiável do que a bolsa ou o imobiliário. Ontem, não sabiam o que fazer disto: Campos de Trigo (1890), a última paisagem pintada por Van Gogh duas semanas antes de se suicidar, não teve compradores no leilão da Sotheby"s. Parou tudo: na véspera, os analistas tinham avisado que se este Van Gogh não vendesse era muito mau sinal.Vamos mudar de assunto (ainda ontem o mercado da arte moderna era o melhor do mundo) e falar de crise? Por enquanto não. A Sotheby"s admite ter tido uma péssima noite (o total das vendas ficou muito aquém das expectativas: 270 milhões de dólares, contra os 355 milhões com que contava), mas por excesso de confiança: "O leilão foi muito difícil, mas esta má performance deve-se mais a uma resistência dos compradores às nossas estimativas agressivas do que a uma inflexão do mercado, que continua muito forte", reagiu David Norman, responsável da Sotheby"s para a arte impressionista e moderna. Os preços de referência estavam inflacionados, admite agora a leiloeira, mas há outras explicações para o anticlímax: alguns dos lotes eram demasiado familiares, e os compradores não simpatizam com material déjà vu. Os sobressaltos da bolsa ao longo do dia também terão contrariado o eufórico leilão da Christie"s. O barómetro Van Gogh veio agora obrigar a uma reavaliação do estado do mercado: a Sotheby"s esperava vender Campos de Trigo por um montante entre os 28 e os 35 milhões de dólares, e, tendo em conta a especificidade do Van Gogh em causa (a última paisagem do pintor holandês que apareceu num leilão, em 1995, foi vendida por 27 milhões de dólares), os analistas mais optimistas chegaram a equacionar os 50 milhões. Surpresas"Neste momento, o mercado está tão saudável e há tanta liquidez por aí que eu ficaria muito surpreendido se houvesse percalços", comentou Richard Feigner à Reuters. Deve estar muito surpreendido agora. Dos 76 lotes em leilão, 20 ficaram por vender: Picassos (quatro), Monets, Renoirs, Matisses, Mirós e Bracques incluídos. Mesmo a obra mais bem-sucedida - Te Poipoi (A Manhã), um óleo da fase taitiana de Paul Gauguin - foi arrematada por um valor muito inferior ao esperado (35 milhões de dólares). Num leilão que podia ter sido histórico só pelos piores motivos, a Sotheby"s ganhou o dia com uma escultura de Picasso: Cabeça de Mulher (Dora Maar) foi comprada por 29 milhões de dólares, esmagando o anterior máximo para uma escultura do artista, 6,7 milhões.

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