Na primeira pessoa Ayman Nimer Conhecem algo que me faça voar de Gaza?
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26.01.2008
Ayman Nimer, muitas vezes intérprete do PÚBLICO em Gaza, passou os últimos dias fechado em casa, com a mulher e as três filhas. Dentro de casa não há luz, fora de casa só há perigo. Por Alexandra Lucas Coelho
Desculpem descarregar este peso, mas gostava de conhecer a vossa leitura da situação, e talvez confirmar as minhas raízes humanas.
Podem imaginar uma saída? Conhecem algo que me faça voar? Pode um homem transplantar asas? Acreditem, todos precisamos de terapia para o resto da vida. Esta é a pior situação que alguma vez vivemos em Gaza.
Vivo no meu pequeno apartamento com a minha mulher, Heba, e as minhas três filhas. Lulu tem dez anos, Mimi oito e Nunu seis e meio. São maravilhosas e têm excelentes notas. Todos os dias me pedem coisas que em qualquer parte as crianças podem ter. Aqui ninguém pode protegê-las, dar-lhes liberdade, educação, saúde.
Às duas da manhã [de quarta-feira] ouvimos nas notícias que tinham feito explodir uma parte da fronteira entre o Egipto e Gaza. Às quatro ouvimos que as pessoas entravam no Egipto à procura de bens essenciais. Agora acho que um quarto de milhão de pessoas estão em Rafah [zona de fronteira] a tentar arranjar tudo o que não havia.
Em Gaza, cerca de 80 por cento das lojas estão fechadas, ou porque não têm o que oferecer, ou porque os donos foram para Rafah abastecer-se. Gasolina, gás, electricidade e todas as fontes de energia desapareceram há semanas.
Por causa das faltas de electricidade não podemos congelar comida. Falta carne no mercado e o preço chegou a 70 shekels por quilo [13 euros], quando o mês passado era metade. Duplicou, como a maior parte das coisas - sal, leite, ovos. Nos últimos dias, as pessoas tentaram alternativas como farinha e arroz. Um saco de 50 quilos de farinha, que comprávamos por 85 shekels [16 euros], custa agora 185 [34 euros]. Cigarros, custavam sete shekels, agora custam 20 [3,6 euros].
Sou funcionário público. Formei-me em Farmácia numa universidade americana das Filipinas em 1991, voltei pouco depois e comecei a trabalhar. [A partir das eleições ganhas pelo Hamas, em Janeiro de 2006] deixei de receber salário. Voltei a receber em Junho, quando foi para o governo Salam Fayyad [ministro das Finanças nomeado pelo presidente Mahmoud Abbas na Cisjordânia, depois de o Hamas tomar Gaza]. Abbas ordenou aos funcionários públicos que não participassem na administração controlada pelo Hamas, portanto não estamos a ir aos nossos empregos.
Quando tomou o poder, o Hamas disse que alguns grupos da Fatah tinham ultrapassado os limites [ao causarem distúrbios de segurança] e que esses eram os visados. Mas agora o Hamas está a forçar as pessoas: ou estão connosco ou contra nós. A maior parte dos problemas de segurança ainda existem, o Hamas detém centenas, senão milhares, de pessoas por apenas irem a cerimónias, desfilarem, clamarem os seus direitos, lutarem contra o governo.
A situação em Gaza não melhorou verdadeiramente [com o governo Hamas], e isto sem falar na deterioração económica. Antes, durante o período da Fatah ou da Autoridade Palestiniana, pelo menos as pessoas conseguiam alguns direitos básicos, podiam ter cuidados médicos, serem levadas para fora para terem meios de assistência mais sofisticados. Agora, é como se a vida estivesse ao nível zero em Gaza. Mesmo tendo dinheiro, o que é muito difícil.
O Hamas vai falhar
Estou muito, muito preocupado com aquela maioria de palestinianos que não é Fatah ou Hamas. Sofre em nome dos interesse de um grupo muito pequeno. O Hamas nunca foi tão teimoso, continua a dizer que controla, quando sabe que não pode controlar por muito tempo. Definitivamente, no fim, vai falhar, porque todo o mundo, incluindo todo o mundo árabe, não está disposto a aceitar o Hamas. Vai ser muito difícil para nós, palestinianos, andarmos para a frente a partir deste ponto. Voltámos talvez uns 30 anos atrás em relação ao ponto em que estávamos com Arafat.
Penso que o Hamas não conseguiria metade dos votos agora. Agora, a maior parte das pessoas que estão com o Hamas são militantes do Hamas, e não muitos dos que votaram pelo Hamas na última eleição. A revolta é maior, as pessoas estão a começar a criticar os mísseis - chamam-lhes mísseis, mas, claro, são rockets caseiros, muito, muito primitivos, que feriram mais palestinianos que israelitas. As pessoas criticam estes mísseis desesperados, estes meios de protesto contra Israel, por não terem trazido nada à comunidade palestiniana senão destruição e nos levarem para o domínio terrorista aos olhos da comunidade internacional. Do ponto de vista europeu, agora temos este sistema sofisticado de mísseis e estamos a atingir Israel, e isto justifica as acções militares de Israel, quando na verdade se trata sobretudo de ruído que deixa em pânico as comunidades [israelitas] na zona de Ashdod. Não justifica que se percam tantas vidas. Há centenas de outros meios contra Israel, a maior parte deles mais eficaz.
Bush foi uma bofetada
A Al-Jazira dizia ontem que 95 por cento do mundo árabe está contra as boas-vindas de herói que Bush recebeu, sobretudo na Arábia Saudita, porque deu luz verde ao Exército israelita para executar a sua última operação em Gaza antes sequer de o seu avião sair dos céus do Médio Oriente. A Liga Árabe há anos que tem uma proposta de paz [para o conflito israelo-palestiniano] e os líderes nem conseguiram dizer a Bush: "Esta é a nossa escolha, é assim que vemos a paz." Não, eles apenas dançaram e se divertiram com ele, enquanto o Exército israelita, que vemos como o braço direito de Bush, está a destruir, a matar, a desperdiçar as vidas aqui. A visita de Bush foi uma bofetada na cara de Abu Mazen [Abbas]. Não acrescentou nada, a não ser mais apoio a Israel.
Tenho muita pena de Abbas. Está entre o Hamas de um lado e Israel do outro, e ninguém lhe dá oportunidade de virar a cabeça. Não tem qualquer forma de fazer o Hamas voltar à casa palestiniana e não pode dar nada a americanos e europeus - eles fazem exigências aos palestinianos, enquanto os israelitas o apunhalam nas costas, quando é suposto serem um parceiro para a paz, mostrarem o que a paz pode trazer. Penso que Abbas agora não pode fazer nada. Esta é a política americana na região, em que a Palestina é um pequeno fragmento e o interesse de Israel estará sempre entre as prioridades americanas.
O Hamas deteve milhares de membros da Fatah em Gaza, e o mesmo faz a Autoridade Palestiniana contra o Hamas, na Cisjordânia. Os israelitas divertem-se com este jogo de wrestling e usam a presença do Hamas para afectar um milhão de meio de pessoas. As negociações são uma perda de tempo.
Gaza está doente
Considero-me um palestiniano com sorte, fui ao Extremo Oriente, à Europa, vi muito deste planeta e nunca quis viver noutro lugar que não Gaza. Mas desde Junho fiquei muito confuso. A verdade é que não se pode viver em Gaza. É muito difícil de descrever. É realmente assustador. Vive-se 24 horas sob pressão, e sinto que a moral, o comportamento mudaram muito. Estamos muito mais agressivos, mais vulneráveis, ao ponto de não nos podermos tolerar. As pessoas lutam por nada, de stress, de medo, não sei.
Não queria que as coisas chegassem a este ponto, mas, como qualquer palestiniano que ainda tenha vários anos para viver, quero viver em qualquer lugar que não seja aqui, neste ambiente perigoso, doente.
Gaza é exactamente como uma ilha rodeada de cercas electrónicas e o mar é patrulhado por esta Marinha israelita muito avançada tecnologicamente que identifica cada mosquito. Não há saída. Não há forma de planear amanhã. Não sabemos como será daqui a duas horas.
Se pudesse, ia-me embora hoje, mas não gostaria de viver na Europa ou nos EUA, talvez fosse para Ramallah ou Nablus, qualquer outra cidade palestiniana mais segura ou estável. Sinto que tenho de fazer crescer as minhas filhas aqui. Sempre lhes disse que esta era a terra delas e não as tiraria das suas raízes. Já não procuro prazeres, só quero dar às minhas filhas as necessidades mais básicas.
Fiquem connosco
Acreditamos que Israel não podia ter existido sem o apoio dos EUA e da Europa. Não queremos eliminar Israel, só que defendam os nossos direitos, de modo a que termine esta miséria. Queremos que escavem a verdade, que não aceitem apenas a agenda israelita. Fiquem connosco. Podemos ter uma vida melhor, se este conflito no Médio Oriente acabar. É óbvio que isto se reflecte em todo o mundo, e nós queremos verdadeiramente paz.
Agora estamos à espera que a luz volte para ver televisão, porque não podemos sair de casa. Não há gasolina, e lá fora não há nada senão perigo. Talvez cozinhemos algo para as crianças e vou ensinar a Mimi algum inglês, porque ela não foi excelente em inglês. Que vais cozinhar, Heba?

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