"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, janeiro 24, 2008

êxodo para o egipto

Êxodo de palestinianos em direcção ao Egipto
http://dn.sapo.pt/2008/01/24/internacional/exodo_palestinianos_direccao_egipto.html
PATRÍCIA VIEGAS

HATEM MOUSSA-AP
"Fui comprar uma porção de queijo branco para vender em Gaza e fazer algum dinheiro para mim. Aqui um quilo custa três shekels (1 dólar) e em Gaza custa cerca de 24", explicou à AFP Oum Hussein Al-Ghoul, uma viúva de 42 anos com oito filhos. E uma das muitas pessoas que ontem cruzaram a fronteira de Rafah para procurar ajuda no Egipto.

Foram cerca de 350 mil os palestinianos que, desde o amanhecer, passaram para o outro lado para ir comprar comida e bens materiais. Tal só foi possível, indicou o Times, porque, durante meses, militantes do Hamas danificaram parte da base do muro com um maçarico e ontem de madrugada fizeram-no explodir.

As forças de segurança do Egipto, desta vez, não tentaram deter o êxodo dos palestinianos e o chefe do Estado, Hosni Mubarak, declarou que as forças de segurança do seu país "acompanharam os palestinianos que [neste momento] sofrem de fome devido ao bloqueio israelita".

E esclareceu as suas ordens: "Eu disse-lhes para os deixarem entrar, desde que não tragam armas, para que possam comer e comprar produtos e depois voltar a casa". Interrogado sobre a solução para Gaza, sob bloqueio israelita desde dia 17, em retaliação pelo disparo de rockets contra território do Estado hebreu, respondeu que ela passa por uma reconciliação entre o Hamas e a Autoridade Palestiniana (AP).

O ex-primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh, já pediu uma "reunião de urgência no Cairo" com o líder da AP, Mahmud Abbas, bem como com os responsáveis egípcios. Os grupos palestinianos também se reuniram ontem em Damasco e o Irão anunciou uma reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros islâmicos na próxima semana.

O Hamas tomou o controlo de Gaza, com 1,4 milhões de habitantes, a 15 de Junho do ano passado. E logo foi isolado por toda a comunidade internacional e, em especial, por Israel. O Estado hebreu já manifestou ontem a sua preocupação com o possível aproveitamento da destruição do muro para fazer entrar novos carregamentos de armas em Gaza. Ao mesmo tempo em que era acusado pela Agência da ONU para a ajuda aos Refugiados, a Unrwa, de não facilitar a entrada da assistência humanitária necessária ao território. "Apenas 13 dos 50 camiões com ajuda humanitária [comida e medicamentos] diária chegam", disse, à AFP, o porta--voz Christopher Gunness.

Rafah, entre Gaza e o Egipto, é o cordão umbilical que liga os palestinianos ao mundo exterior. A cidade é dividida pelo muro de betão e aço que tem sete quilómetros de extensão e oito quilómetros de altura. E que ontem foi feito explodir.

O terminal que ali funcionava desde 2005, ano da retirada israelita, ficou a ser controlado pela AP, o Egipto, as câmaras de vídeo de Israel, e os observadores europeus. Mas desde que o Hamas tomou o poder o controlo jurídico tornou-se impossível - tal como a passagem de pessoas.

E se alguns aproveitaram a brecha apenas para fazer compras, desde cabras, a colchões e bilhas de gás, outros aproveitaram para sair de vez: "Nós vamos ter com a nossa família. Eles estão todos ali. Não os vemos há cerca de dez anos", disse, à BBC, uma palestiniana de Gaza, na altura em que atravessava a fronteira.|