Polémica nas exumações de soldados alemães
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06.01.2008, David Keys
Mais de 60 anos depois, os corpos dos militares fiéis ao Eixo estão a ser retirados de valas comuns e trincheiras e sepultados em cemitérios militares
Um milhão de soldados alemães da Segunda Guerra Mundial estão a ser reenterrados - mais de 60 anos depois da queda do III Reich. E, para criar ainda maior controvérsia , entre eles estão milhares de agentes das Waffen-SS, as tropas de elite nazis, cujos corpos se encontram espalhados por vários países europeus.
A operação está a decorrer em toda a Europa de Leste, onde mais de 15 milhões de civis foram mortos pela máquina de guerra alemã. Em muitos países o programa de exumações está a ser altamente contestado.
Até agora, foram exumados 520 mil corpos de valas comuns, velhas trincheiras e campos com sepulturas individuais por identificar, para depois serem devidamente enterrados em cemitérios alemães criados para o efeito. Mais 400 mil deverão vir a ser exumados nos próximos oito anos e pelo menos mais 100 mil depois disso.
As equipas alemãs de exumações estão actualmente a recuperar esqueletos do maior conflito mecanizado (com mais armamento pesado) da Segunda Guerra Mundial - a Batalha de Kursk, em que milhares de soldados do Exército alemão morreram. O primeiro cemitério oficial de Kursk deverá abrir no próximo ano. As exumações em massa estão a ser realizadas em outros campos em que ocorreram batalhas cruciais, incluindo Estalinegrado (actual Volgogrado).
Criminosos de guerra
Contudo, o projecto tem sido envolvido em grande polémica e desconfiança. Na Polónia, as autoridades verificam cuidadosamente o nome de cada um dos soldados alemães que devem ser sepultados nos novos cemitérios (cada um traz ao pescoço uma placa que o identifica) para garantir que nenhum criminoso de guerra figura nos monumentos que homenageiam outros soldados.
Na Bielorrússia e na República Checa não há ainda nenhum acordo intergovernamental envolvendo as exumações alemãs. Na realidade, na Bielorrússia, que perdeu 25 por cento da sua população na Segunda Guerra Mundial, apenas 2000 dos 150 mil alemães que ali morreram voltaram a ser sepultados.
No Sul da Rússia, foram precisos seis anos de negociações para convencer os habitantes locais de que o novo cemitério não serviria para glorificar os soldados alemães da Segunda Guerra. Finalmente, depois de algumas visitas à Alemanha, foi autorizada a construção de um cemitério militar alemão em Krasnodar, no Cáucaso. Vai abrir em breve.
Por todo o lado, na Rússia, a polémica tem marcado as operações sempre que se trata de dar nova sepultura a várias centenas de soldados das Waffen-SS. O Governo holandês recusou-se a ajudar a localizar familiares desses militares, argumentando que todos os holandeses que se juntaram aos nazis abdicaram automaticamente da sua cidadania e, por isso mesmo, eram exclusivamente da responsabilidade dos alemães.
Os russos que lutaram do lado alemão na Segunda Guerra Mundial também são controversos. Tem sido impossível contactar os seus familiares porque as autoridades russas recusam-se a reconhecer que do seu lado também havia colaboradores. Centenas destes russos e ucranianos que optaram por combater os aliados, membros do Russian Liberation Army (inicialmente formado pelos alemães na Segunda Guerra com propósitos propagandísticos), morreram a combater o Exército Vermelho na Polónia em 1944.
O programa alemão de exumações e novas sepulturas também abrange a polémica história de uma divisão de soldados espanhóis que foi enviada por Espanha, um país supostamente neutro, para combater ao lado de Hitler. De um total de 45 mil, cerca de 5000 foram mortos em combate na frente de Leninegrado (actual São Petersburgo). Actualmente estão a ser sepultados em Novgorod, a sul da cidade dos czares.

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