Por que é que ela tinha de estar lá?
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16.03.2008, Maria João Guimarães
Já é comum que um político apanhado num escândalo sexual surja na obrigatória conferência de imprensa acompanhado pela mulher. Mas no caso do antigo governador de Nova Iorque Eliot Spitzer, acusado de pagar milhares de dólares a prostitutas, a presença de Silda Wall Spitzer nas duas conferências de imprensa suscitou reacções inusitadas em toda a imprensa americana e parece ter surtido o efeito oposto ao pretendido, tornando o ex-governador ainda mais antipático aos olhos da opinião pública por ter sujeitado a mulher a tal humilhação.
"Uma vez, apenas uma vez, não adorariam ver o político no palanque a pedir desculpa à família... sozinho? Apenas uma vez, não adorariam que a mulher emitisse o seu próprio comunicado dizendo que o que ele fez foi inaceitável e que o vai deixar?", perguntava Sally Quinn no Washington Post. "Mas em vez disso vemos, uma e outra vez, as faces destas mulheres-vítimas, patéticas e cheias de dor, apoiando os maridos, ao seu lado, deixando-se ser humilhadas em frente ao mundo inteiro."
"Por que enfrentamos este ritual de vergonha pública com a mulher do político ao lado dele, quando ele admite indiscrições sexuais?", questionava o Los Angeles Times.
E, de facto, há um rol de casos. Houve a conferência de imprensa de Larry Craig, apanhado por um agente a fazer sinais numa casa de banho masculina de um aeroporto. "Não sou gay", garantiu o político republicano na conferência de imprensa. Ao lado estava a mulher, embora atrás de uns grandes óculos escuros.
O republicano David Vitter, cujo número de telefone foi encontrado na agenda de uma gerente de uma casa de prostitutas, também exibiu a mulher no palanque. O democrata Kwame Kilpatrick também falou das suspeitas do seu affair com a sua chefe de gabinete com a mulher ao lado.
E, claro, muitos lembram outro caso da esposa que se manteve ao lado do seu homem: Hillary Clinton, embora muitos sublinhem que ela ao menos não esteve ao lado dele, quando ele admitiu finalmente a traição e a relação imprópria com Monica Lewinsky.
Ironia, diz o diário londrino The Times: quando Silda Wall Spitzer decidiu abdicar da sua carreira para apoiar a carreira política do marido, pediu conselhos justamente à mulher de Bill Clinton.
O paralelo Spitzer/Clinton foi aliás explorado até à medula por comediantes desde David Letterman a Jay Leno. "Eliot Spitzer era um superdelegado de Hillary Clinton... E estava na lista de possíveis vice-presidentes. Bem, ela sabe escolhê-los, não?", comentou David Letterman. "Isto significa que Hillary Clinton é agora a segunda mulher mais zangada do estado de Nova Iorque", disse Jay Leno.
O marido em vez da carreira
Mas o que teve este caso de tão diferente para causar tanta revolta com a mulher ao lado do homem? Terá sido porque Silda Spitzer mal conseguia disfarçar o seu estado de devastação? Ou porque ela é uma mulher vista como tendo abdicado da sua carreira pelo marido - e agora acontece-lhe isto?
Silda Wall Spitzer conheceu Eliot Spitzer na Faculdade de Direito de Harvard, onde ambos estudaram. Era considerada uma profissional brilhante e aliás ganhava bem mais do que o marido.
Mas depois do nascimento da terceira filha (o casal tem três, uma com 17, outra com 15 e a mais nova com 13), em 1995, Eliot Spitzer decidiu concorrer a procurador do estado de Nova Iorque e ela acabou por se resignar a ser "a mulher" dele - embora tenha criado uma associação não governamental, Children for Children, a que dedica muito tempo e trabalho.
Um dos casos mais conhecidos de uma mulher que se sujeitou à prova da conferência de imprensa do marido foi Dina Matos McGreevy, que esteve ao lado do marido, o antigo governador de New Jersey (democrata) Jim McGreevy, enquanto este anunciava que era homossexual.
Dina Matos McGreevy escreveu depois um livro, Slient Partner, onde relatou a sua experiência, e foi ouvida por várias televisões e jornais americanos a propósito do "caso Spitzer".
"Apesar de ele me ter causado uma dor enorme, ainda era um homem que eu amei, e os sentimentos não se evaporam", tentou explicar. "E pensei na minha filha, se queria que dali a uns dez ou 15 anos ela me perguntasse porque é que eu não apoiei o pai na altura mais difícil da vida dele."
Um analista político tenta explicar que o manter-se ao lado do marido "é visto como o último dever da esposa". Segundo disse Tobe Berkowitz ao Los Angeles Times, estas mulheres passaram anos a sacrificar-se pelos maridos, e, sujeitas à enorme pressão, podem não ser capazes de tomar outra decisão. Afinal, como parte do casal, se ele perde, ela perde também. Alguns jornais notaram que Silda esteve entre os que mais se opuseram a uma demissão precipitada do marido.
Hillary Clinton ficou ao lado de Bill, mas não esteve presente quando ele admitiu a relação imprópria com Lewinsky

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