"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, maio 30, 2008

Estudo luso-nipónico
Descoberto o mais complexo quebra-nozes feito por chimpanzés
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1330541

29.05.2008 - 16h57 Lusa
Uma investigadora portuguesa descobriu o quebra-nozes mais complexo feito por chimpanzés selvagens na floresta de Bossou, na Guiné. A descoberta faz parte de um estudo que combinou investigadores da Universidade de Coimbra, Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Quioto, no Japão e utilizou técnicas de primatologia e de arqueologia.

"Trata-se de um quebra-nozes constituído por quatro elementos de pedra, um martelo, uma bigorna e dois calços. Até agora só eram conhecidos instrumentos com três componentes", descreve Susana Carvalho, que está a fazer o doutoramento em Cambridge e é a primeira autora do estudo publicado no Journal of Human Evolution.

A capacidade cognitiva necessária para combinar simultaneamente quatro pedras e uma noz "indicia que os chimpanzés são capazes de complexificar mais o seu comportamento durante a utilização de ferramentas de pedra do que se pensava", explica Susana Carvalho que também faz parte do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra.

“Existem semelhanças entre as ferramentas de pedra criadas pelos chimpanzés e os artefactos de pedra usados pelos primeiros hominídeos, há 2,5 a 2,6 milhões de anos", assegura Cláudia Sousa, especialista em primatologia na Universidade Nova de Lisboa e co-autora do trabalho.

O estudo mostra também a relação que os chimpanzés têm com o objecto. Os primatas utilizam, seleccionam e reutilizam as mesmas ferramentas durante períodos de tempo longos. Os objectos são abandonados quando deixam de cumprir a sua função.

Mesmo quando os objectos são pesados os chimpanzés continuam a transportar pedras e outros utensílios. Segundo a equipa, este comportamento demonstra não só uma relação de posse mas uma percepção de qualidade e eficiência das ferramentas.

Segundo Susana Carvalho os chimpanzés agem "de forma mais próxima ao nosso ancestral comum, no que diz respeito às primeiras tecnologias".

O trabalho contou com a colaboração do Professor Tatsuro Matsuzawa, do Primate Research Institute da Universidade de Quioto, que desde 1976 investiga a inteligência, o comportamento e a cognição nos chimpanzés selvagens.

A antropóloga Eugénia Cunha, docente do Departamento de Antropologia da faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra também participou no trabalho.