"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, maio 30, 2008

Macacos mexem braço artificial com a mente
http://jornal.publico.clix.pt/
30.05.2008, Ana Gerschenfeld


Dois macacos conseguiram comandar um braço artificial articulado usando o cérebro. Este avanço poderá, um dia, mudar a vida
das pessoas paralisadas


O macaco tem os braços presos dentro de uns tubos de plástico, mas apetece-lhe mesmo saborear a guloseima que alguém lhe apresenta numa espécie de espeto. De repente, um braço metálico articulado, mesmo ao lado do macaco, começa a mexer-se, a sua "mão" artificial (com apenas dois dedos) pega delicadamente no
petisco e aproxima-o da boca do ani-
mal, num gesto fluido, muito parecido com o de um braço natural. Empurra ligeiramente a iguaria para den-
tro da boca do macaco, que não a conseguiu trincar à primeira.
Quem movimentou o braço? O macaco. Como? Através da actividade neuronal da região do seu cérebro que normalmente controla os seus próprios gestos.
Andrew Schwartz e a sua equipa, da Universidade de Pittsburgh, nos EUA, revelaram ontem o feito na edição on-line da Nature. Há vários anos que estão a trabalhar nesta área, com vista à criação de próteses que, um dia, possam devolver às pessoas gravemente paralisadas - devido a um AVC, lesões da medula espinal ou doenças degenerativas como a do célebre físico Stephen Hawking - alguma capacidade de interagir com o mundo à sua volta. "A nossa meta mais imediata é desenvolver uma pró-
tese para as pessoas totalmente paralisadas", diz Schwartz num comunicado da sua universidade.
Vários macacos já tinham sido trei-
nados para controlar, com a mente, um cursor no ecrã de um computador. Mas o que os cientistas anunciaram agora representa um importante passo, uma vez que demonstra que é possível transpor essas experiências de movimento "virtual" do cursor para uma situação do mundo real, que, para além de ser tridimensio-
nal, é muito mais imprevisível e complexo.
Claro que a "transmissão do pensa-
mento" não se faz de forma etérea (não, não é telepatia). No cérebro dos dois macacos Rhesus, designados por "A" e "P" no artigo da Nature - mais precisamente no seu córtex motor, a região cerebral onde nascem os movimentos voluntários sob a forma de impulsos eléctricos - foi implantada uma série de eléctrodos, da largura de um cabelo humano, que registam a actividade de uma centena de neurónios. A seguir, um software especial avalia a actividade conjunta dos neurónios e tradu-la em comandos ao braço artificial, do tamanho do braço de uma criança, que "desenvolve as acções que o macaco tencionava desempenhar com o seu próprio braço", lê-se no mesmo documento.
Na realidade, no córtex motor, milhões de células disparam impulsos nervosos em simultâneo para gerar os movimentos físicos - algo que seria impossível registar com tão poucos eléctrodos. Mas a beleza do software desenvolvido pelos cientistas reside no seu algoritmo, que consegue deduzir a intenção motora do animal com base numa quantidade muito limitada de sinais neuronais.
Obstáculos por ultrapassar
Ainda há obstáculos para se chegar a uma prótese humana, escreve John Kalaska, da Universidade de Montreal, num artigo que acompanha os resultados. Os eléctrodos têm de
ser melhorados, pois os actuais de-
terioram-se em poucos meses "e os doentes vão ter de utilizar esta tecnologia durante muitos anos". O sistema inclui uma série de computadores, dispositivos de controlo do braço, dificilmente portáteis e que exigem a presença de um técnico. E uma futura prótese terá de ter sensores que digam à pessoa se está a exercer a pressão certa para pegar num objecto sem o esmagar. Estes e outros desafios, salienta Kalaska, "são problemas técnicos difíceis mas não inultrapassáveis."