"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

segunda-feira, junho 09, 2008

O SEXO OU A PÁTRIA?
http://dn.sapo.pt/2008/06/09/centrais/o_sexo_a_patria.html

MARCOS CRUZ
A ilha da polémica. Lesbos, terceira maior ilha grega, com 90 mil habitantes, está na origem do termo lésbica, que designa as mulheres lá nascidas e as que assumem a sua homossexualidade. Entre as primeiras, e respectivos familiares, há quem não goste da partilha. O duelo de significados segue amanhã num tribunal de Atenas

Grupo de residentes na ilha grega de Lesbos leva lésbicas a tribunal

Para muitos - ou, pelo menos, para muitas - será a sétima maravilha do Mediterrâneo. Para todos, é a sétima maior ilha do Mediterrâneo. Lesbos, pedaço de terra (1630 quilómetros quadrados) alojado no Nordeste do mar Egeu, deve a sua fama à interpretação dos poemas de Safo, mulher a quem se atribuem amores homossexuais e que se calcula ter ali nascido entre 630 e 612 a. C., mais precisamente em Eressos, cidade costeira.

Tendo Lesbos, segundo a mitologia, sido o deus patrono da ilha grega, e assim dado nome aos seus habitantes, Safo foi quem a celebrizou no mundo, inspirando a aplicação do termo lésbica para designar mulheres homossexuais. Sobre o mito, então, outro mito se criava: o de Lesbos como "santuário" das lésbicas. A abençoá-lo, a coincidência simbólica de dois picos montanhosos de altitude semelhante, como seios, dominarem o seu terreno de origem vulcânica e hoje coberto, a 40%, por oliveiras e árvores de outros frutos e, a metade dessa percentagem, por florestas de pinheiros e carvalhos. Há acasos fantásticos.

Claro está que, do ponto de vista turístico, a ideia (de alguém, não se sabe quem) trouxe proventos. Mas, como todas as ideias vivas, também trouxe maus ventos. Por um lado, a ilha ter-se-á convertido, para algumas lésbicas de todo o mundo, no que o túmulo de Jim Morrison representa para alguns fanáticos dos The Doors, ou seja, um local de visita obrigatória. Por outro, a sua colagem a uma orientação sexual que esse mesmo mundo nunca confiou verdadeiramente ao domínio da "normalidade" tornou-se um peso contínuo sobre os ombros de alguns habitantes, em particular de alguns homens casados e respectivas mulheres, pais e respectivas filhas, irmãos e respectivas irmãs.

Espanta é que, tendo isto tanto tempo, e estando o planeta numa era de abolição de fronteiras (geográficas, raciais, religiosas, sexuais, etc.), tal peso venha hoje, em pleno século XXI, à tona judicial e, logo, mediática. Mas aconteceu, recentemente. Foram três os naturais de Lesbos que levaram um grupo de defesa dos direitos homossexuais a tribunal por usar a palavra lésbica para definir mulheres que desejam sexualmente mulheres. Um deles, Dimitris Lambrou, queixou-se de que a irmã "não pode dizer que é lésbica", explicando não ser o recurso à justiça "um acto agressivo contra as mulheres homossexuais", mas apenas uma reivindicação para que aquele grupo, especificamente, retire a incómoda referência do seu título (chama-se Comunidade Lésbica e Homossexual da Grécia).

A justificação de Lambrou radica na História. "A nossa designação geográfica foi usurpada por certas mulheres que não têm ligação de espécie alguma a Lesbos", reclama. Para ele, nem mesmo Safo as... safa: "Ela não era gay, mas, mesmo que fosse, como podem as pessoas da ilha ser consideradas, por isso, homossexuais? Nós somos lésbicos há milhares de anos, ao passo que essa conotação é recente." O caso vai à barra de Atenas a 10 de Junho. Portugal que se cuide, não vá o Diabo tecê-las...

Humor à parte, é de amor que se fala. De amor próprio. De amor à liberdade. De ambos os lados: se umas (e uns, em sua defesa) lutam por se desprender de um estigma, outras (e outros, em sua defesa) lutam por se desprender de outro. Umas querem ser lésbicas no significado afectivo/sexual, outras querem sê-lo no significado patriótico. Umas querem o contrário das outras. Uma palavra divide-as. Pelos vistos, uma palavra também pode valer mais que mil imagens.