"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, junho 11, 2008

Todos os rostos do Renascimento no Museu do Prado
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07.06.2008, Nuno Ribeiro, Madrid


Não são só retratos de reis e de papas. Captam-se amigos, famílias ou amantes. A exposição sobre o retrato no Renascimento no Museu do Prado mostra a democratização deste género de pintura durante este período



São 127 obras de 70 artistas, de Jan van Eyck, Rubens, Piero della Francesca, Durer, Antonio Moro, Rafael, Sandro Botticelli, Ticiano, Lorenzo Lotto, Holbein, Giovanni Battista Moroni e outros importantes pintores dos séculos XV e XVI. Pinturas, esculturas, medalhas, desenhos e gravuras, são as peças de um percurso exaustivo pelos ambientes artísticos dos Países Baixos, Alemanha e Itália. Até 7 de Setembro, o Museu do Prado, em colaboração com a National Gallery de Londres, expõe a mostra O Retrato do Renascimento.

"Nunca houve tanta obra-prima numa mesma exposição em qualquer outro momento da história do Prado", assegura Miguel Zugaza, director do museu madrileno. "Esta mostra inclui muitos dos melhores exemplos da produção de cada artista, entre os quais estão algumas das imagens mais belas de todo o Renascimento", prossegue Zugaza. Uma exposição que, nas palavras do principal responsável do Prado, "eleva a autoridade intelectual do museu".
O motivo de tamanho contentamento é explicável. "O retrato é um dos temas mais importantes da história da arte, mas nunca foi objecto de uma exposição como género pictórico autónomo no Renascimento", sublinha o comissário da mostra, Miguel Falomir, chefe do departamento de pintura italiana do Renascimento do Prado e responsável das recentes exposições de Ticiano e Tintoretto.
A mostra abarca obras de 1400 a 1604. No primeiro caso, está a Dama de Perfil, de um anónimo flamengo, e a mais recente é o retrato de Brígida Spínola Dória, de Rubens. Este percurso de dois séculos de evolução da forma de retratar é marcado por dois vectores: democratização e tamanho.
"Até ao Renascimento, só se faziam retratos de príncipes, reis e papas, mas a partir do Renascimento os artistas começaram a receber encomendas de pessoas de quase todo o espectro social", salienta Miguel Falomir. É o que o comissário apelida como "retrato democrático".
O retrato, até então reservado aos poderosos e às famílias com mais dinheiro, passou a representar outra gente. Os que têm interesses intelectuais, claras aspirações sociais - do alfaiate ao talhante -, ou desejam manifestar as suas devoções religiosas. Foi então que o retrato passou a ter as funções que ainda hoje se lhe atribuem: memória, identidade e imagem. Capta amigos, famílias ou amantes. Retrata a amizade, o amor, o quotidiano e as devoções. É também abordado o denominado "contra-retrato", aquele cuja intenção de representação é o anti-ideal. Ou seja, os retratos de anões, bobos e as representações satíricas. Há ainda o auto-retrato, cujo expoente máximo na mostra do museu madrileno é o de Durer.
O tamanho importa
A revolução no tamanho é outra das características que a mostra evidencia. No início, o retrato era de pequeno tamanho, de 30 a 40 centímetros, pensado para ser guardado em caixas, ao estilo dos actuais álbuns de fotografias. Era algo de uso comedido, quase privado. No entanto, com o avanço do século XV, ao ser alterada a sua função, aumenta o tamanho. Os retratos são encomendados para serem mostrados e contemplados, num claro sinal de prestígio. É assim que, na exposição do Museu do Prado, os quadros de Ticiano, que ocupam a última sala, alcançam os três metros de altura.
"Esta exposição explica os modelos do retrato através da sua função social muita variada, o que nos permite a introdução nos mecanismos da vida do quotidiano", assinala o crítico Francisco Calvo Serraller.
Com 40 por cento das obras expostas pertencentes aos fundos do Prado, a crítica destaca, para além da importância do auto-retrato de Durer, alguns quadros importantes. Do Museu do Louvre, de Paris, veio a obra Sigismondo Pandolfo Malatesta, de Piero della Francesca. Da National Gallery londrina estão O Alfaiate de Giovanni Battista Moroni e Retrato de Mulher Inspirada em Lucrécia, de Lorenzo Lotto. "A grande ausente é La Gioconda, de Leonardo da Vinci, pois o Louvre nunca a empresta", lamenta Miguel Falomir.