"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, março 08, 2009

Há cem anos que os ratos ajudam a salvar vidas
http://dn.sapo.pt/2009/03/08/sociedade/ha_anos_os_ratos_ajudam_a_salvar_vid.html
SARA GAMITO

Investigação. Graças a estes pequenos animais, o tratamento de doenças deu grandes saltos. Os ratos usados nas experiências permitiram descobrir vacinas, tratamentos contra cancro e medicamentos psiquiátricos

Penicilina, primeiro antibiótico testado em roedores

Já salvaram milhões de vidas. Devemo-lhes o primeiro antibiótico, a quimioterapia usada para combater a leucemia, a vacina que praticamente erradicou a poliomielite do mundo. Comemora-se este ano um século desde que os ratos foram introduzidos nas experiências laboratoriais, permitindo o diagnóstico, a prevenção e o tratamento de várias doenças. Foi também graças à investigação em roedores que cientistas portugueses conseguiram utilizar fragmentos do estômago para reconstruir o esófago do pescoço ou iniciar os testes em humanos para tratar a doença dos pezinhos.

Hoje, nenhuma investigação de saúde escapa à utilização de ratos nas suas experiências. Como confirma Luís Graça, médico e investigador do Instituto de Medicina Molecular (IMM), no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, "os ratos têm sido os protagonistas em quase todas as áreas da biomédica". Aliás, segundo o especialista, "ninguém pensa ou justifica experiências em humanos sem provar nos ratinhos que existem vantagens".

As experiências em ratos estiveram por detrás de muitos prémios Nobel, ao estabelecerem avanços que mudaram a saúde humana, tais como o primeiro antibiótico para a tuberculose, remédios para a tensão arterial, medicamentos para o VIH/sida ou a aplicação da penicilina.

Já em Portugal, João Patrício, cirurgião e um dos fundadores do Laboratório de Experiência Animal dos Hospitais da Universidade de Coimbra, lembra que foi graças aos ratos que se treinaram as primeiras reimplantações de polegares. Com base em experiências realizadas no laboratório, João Patrício conseguiu ainda reconstruir um esófago, usando parte do estômago, e uma uretra, com uma parcela do intestino delgado.

Também Deolinda Lima, directora de biologia celular e molecular do Hospital de S. João, no Porto, faz investigação com ratos desde 1980. Actualmente, a sua equipa está a estudar uma terapêutica à base de botox para curar a hiperplasia (aumento) da próstata. Mesmo com alguns doentes a beneficiar dos primeiros testes, os animais continuam a ser indispensáveis para perceber "se existem efeitos secundários, degenerescência de nervos e quais os mecanismos que estão a funcionar", explica a perita.

Apesar de os primatas terem uma maior semelhança com o homem, não é apenas por uma questão ética que os ratos são os animais mais utilizadas nos laboratórios mundiais. "O rato é um mamífero que se reproduz facilmente em cativeiro, sendo fácil controlar as estripes e é muito resistente a infecções", adianta Deolinda Lima. Por outro lado, "com a sequenciação do genoma humano chegou-se à conclusão de que as semelhanças com o rato são muitíssimas".

Mas foi logo desde 1909 que os ratos se tornaram nas cobaias preferidas dos investigadores. Graças a Clarence Cook Little, um jovem estudante de Medicina da Universidade de Harvard, que conseguiu reproduzir ratos geneticamente idênticos (ver caixa).

Nas faculdades e hospitais portugueses, o uso de ratos em investigação terá começado pouco depois da experiência de Little e está hoje generalizado.

Maria João Saraiva, por exemplo, investigadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular, no Porto, dedicou décadas ao estudo da doença dos pezinhos e garante "os ratos foram fundamentais para apontar tratamentos que começam agora a ser testados".