Os americanos adoram-nos (agora um bocadinho mais)
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31.03.2009, Rita Siza, Washington
A América nasceu contra a Europa mas cresceu à custa de europeus que cruzaram o Atlântico à procura de uma vida melhor. Hoje, em tempos de crise, volta a olhar para o Velho Continente como o seu aliado natural
Os americanos são universalmente conhecidos pela sua inaptidão (quase) genética para aprender geografia, e pedir a alguém nos Estados Unidos para apontar no mapa a capital de qualquer país da Europa é um exercício que garantidamente acaba em gargalhada. Mas esta incapacidade relativa não ilustra, de forma nenhuma, um deliberado alheamento ou uma consciente rejeição da Europa pelos norte-americanos.
No quotidiano americano, a exposição à cultura europeia é quase nula e não pode ser comparada ao consumo maciço no Velho Continente da música, cinema e séries televisivas dos Estados Unidos. Ainda assim, na capital de Washington, o noticiário da britânica BBC é dos que têm mais audiências; o canal francês TV5 encontra-se no alinhamento do cabo e a estação pública de rádio NPR transmite uma hora por dia produzida pela alemã Deutsche Welle.
As férias de sonho dos americanos são em Paris, a sua comida preferida é pizza e o desporto mais praticado nos liceus é o futebol (soccer). Aqui, a celebração do padroeiro da Irlanda no St. Patrick's Day é uma obsessão nacional. E há mais homens a vestir kilt para cerimónias importantes do que na Escócia.
Ao contrário do que apregoa o preconceito europeu sobre a ignorância americana, o nível de conhecimento que os americanos têm da Europa não é risível, nem os seus comportamentos são de tal maneira diferentes que se tornam incompreensíveis. Por exemplo, de uma maneira geral, "os americanos sabem tanto ou tão pouco sobre a burocracia e o funcionamento da União Europeia quanto os europeus", compara ao P2 John Glenn, director de Política Externa do German Marshall Fund dos Estados Unidos.
Daí que seja natural que considerem os europeus como os seus "aliados naturais": o estudo anual sobre as Tendências Transatlânticas que o German Marshall Fund colige demonstra que a opinião da sociedade americana sobre a Europa se mantém consistentemente positiva e que, ao largo do espectro político dos Estados Unidos, seja manifesto um desejo de que os europeus exerçam a sua liderança no palco internacional.
Outros relatórios, com destaque para os inquéritos do Pew Research Center, demonstram como os americanos têm cada vez mais uma "mentalidade europeia", como descreve o colunista conservador Jonah Goldberg. Segundo as conclusões de sucessivos estudos daquele centro, há uma assinalável convergência nas atitudes e opiniões dos americanos e europeus numa variedade de assuntos, desde o papel do governo ao valor da religião.
"Há uma certa visão liberal que abertamente tenta 'europeizar' a política social americana há décadas. E há uma parte do país que olha para o sistema de saúde europeu, para as regras dos seus sindicatos, as políticas fiscais, o modelo industrial, a política externa ou mesmo os seus costumes e comportamentos sexuais e pensa que aqui, nos Estados Unidos, devíamos ser mais como eles", repara Goldberg.
Nascimento de uma nação
Nem sempre foi assim. Na génese dos Estados Unidos (e na construção da identidade do país) esteve uma profunda rejeição de todas-as-coisas-europeias. Como explicam os historiadores, em 1776, os americanos não declararam a sua independência apenas da Coroa britânica; estabeleceram claramente uma fronteira política contra o modelo monárquico, a tradição aristocrática e as ideias agressivas, bélicas e colonialistas praticadas pelos europeus.
Este novo país, declarou George Washington, o primeiro Presidente dos Estados Unidos, não podia estar mais "afastado e distante das armadilhas, das ambições e rivalidades europeias, dos seus interesses, humores e caprichos". Essa visão da América dos séculos XVII e XVIII como o Novo Mundo, por oposição à "velha ordem", corrupta e decadente, que vigorava na Europa, permanece nos manuais escolares dos alunos dos Estados Unidos até hoje.
Sucessivas ondas de imigração europeia povoaram as grandes cidades americanas um século mais tarde. Quarenta milhões de pessoas atravessaram o Atlântico e tornaram-se cidadãos dos Estados Unidos - e estas novas comunidades, integradas num novo sistema político, não esqueceram as suas tradições. Ainda hoje, muita da informação que os americanos conhecem da Europa tem uma fonte próxima: a sua própria família.
Antes da sociedade mediática, era a literatura que alimentava a sociedade dos Estados Unidos com um sentimento de superioridade moral face aos europeus. Henry James, enamorado pela cultura e história europeias, instalou-se em Inglaterra, mas os seus personagens americanos que fizeram a mesma viagem, em obras como Os Europeus ou Retrato de Uma Senhora, só encontraram desapontamento e infelicidade.
O poderio americano consolidou-se com as duas Guerras Mundiais e a sensação de que só os Estados Unidos conseguiam salvar a Europa de si própria. Ao mesmo tempo, nota John Glenn, "as duas guerras e, mais tarde, a luta comum contra o comunismo marcaram várias gerações de americanos e estabeleceram esta visão de forte aliança entre os Estados Unidos e a Europa". Acrescente-se a isso a dependência económica que os dois blocos estabeleceram durante o século passado: "Os Estados Unidos são o maior parceiro comercial europeu e vice-versa. Em termos de comércio e investimento, os interesses são enormes", refere o mesmo especialista.
Depois da queda do Muro de Berlim, e igualmente da derrota da afirmação da União Europeia como "contrapeso aos Estados Unidos" ou das teorias que diziam que a Europa não precisava da América, o relacionamento entre os dois blocos atlânticos encontrou um novo equilíbrio.
"A visão positiva da Europa pela América não é apenas uma coisa cultural, faz parte da realidade política: os Estados Unidos encaram favoravelmente a ascensão da Europa como líder global. O que não quer dizer", ressalva o especialista do German Marshall Fund, "que os políticos americanos encarem o modelo político europeu como uma inspiração".
"Há demasiados interesses comuns em problemas globais, desde a perspectiva de um Irão nuclear ao ressurgimento da Rússia, a estabilização do Afeganistão, as questões ligadas às alterações climáticas ou ao comércio global...", enumera John Glenn. "No mundo de hoje, é difícil imaginar que a Europa ou os Estados Unidos serão capazes de resolver estes problemas sozinhos", conclui.
Esse é um quadro que parece relativamente estável e quase que imune às mudanças políticas conjunturais (leia-se, à sucessão dos governos, de um e outro lado do oceano). A aliança transatlântica sobreviveu relativamente incólume aos últimos anos de desconfiança, alimentada sobretudo pela reacção europeia à decisão americana de invadir o Iraque.
Obama, o menos europeu
A eleição de Barack Obama para a Casa Branca, e a mudança de tom da sua Administração relativamente a um conjunto de matérias altamente valorizadas pela opinião pública europeia - o encerramento da prisão militar de Guantánamo, o princípio de retirada do Iraque, a defesa da ciência face à religião, as declarações a favor dos direitos dos homossexuais e os compromissos alcançados para o combate às alterações climáticas - é "um princípio prometedor" em termos do fortalecimento da interacção transatlântica.
Curiosamente, assinalava The Economist, Obama até pode ser considerado, na linhagem dos líderes do partido Democrático, como o "menos europeu". Kennedy estudou na London School of Economics, Bill Clinton na Universidade de Oxford e John Kerry não só falava francês como parecia francês, lembrava a revista.
As elites americanas ainda são vincadamente "eurocêntricas", mas o mundo em que cresceu Obama e as pessoas que o rodeiam escapou a essa atracção. Apesar disso, a obamamania tomou conta da Europa e o Presidente dos Estados Unidos goza de uma boa-vontade sem precedentes na sociedade europeia.
"Para já, os europeus têm vindo a responder às iniciativas americanas com um renovado optimismo", observa John Glenn, alertando, contudo, para um excesso de optimismo do outro lado do Atlântico. "Há muitos problemas de resolução difícil e há muito pouco espaço de manobra", alerta.
O que não há, na Administração de Obama, é qualquer resquício do neoconservadorismo eurofóbico que vingou durante a Administração de George W. Bush. Sem a oposição à guerra do Iraque a inflamar os ânimos, deixou de fazer sentido para os americanos distinguir os seus parceiros transatlânticos em diferentes categorias - a retórica da "Velha Europa" e da "Nova Europa", segundo a classificação de Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz, desapareceu do discurso oficial.
O fim dos tabus?
Mas o fantasma dos excessos da Europa, que remonta à fundação do país, continua arreigado no debate público dos Estados Unidos. "A Europa é sempre mencionada, sobretudo pela ala direita conservadora, de forma negativa, como uma personificação de tudo o que está errado com o governo. É, obviamente, uma simplificação retórica e não reflecte os dados dos mais variados estudos, que demonstram as opiniões positivas dos americanos", sublinha.
Perante a actual recessão económica, e a forma como os governos e as populações estão a ser afectados de um e outro lado, os americanos têm olhado com mais interesse para o que se passa na Europa. E alguns tabus começam a cair.
Como disse há dias Charles Murray, do conservador think tank American Enterprise Institute de Washington, "não há nada de sinistro" nos esforços da nova Administração para "emular" o modelo social-democrata europeu. "Obama e os seus conselheiros partilham a visão - que é intelectualmente respeitável - de que os modelos sociais e regulatórios europeus são mais progressistas do que os da América, e defendem reformas no sentido de aproximar o sistema americano ao europeu", notou.
Murray foi mesmo mais longe e desdramatizou os defeitos da organização europeia denunciados pelos conservadores. "Em muitos aspectos, o modelo europeu funciona. Fico sempre encantado quando vou a Estocolmo ou Amesterdão, já para não falar em Roma ou em Paris. As pessoas não parecem estar a lutar e a gemer sob o jugo de um sistema maléfico. Muito pelo contrário, há muitas razões para gostar da vida do dia-a-dia na Europa", considerou.

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