"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sábado, abril 25, 2009

Desempregados americanos refugiam-se nas bibliotecas

Para aceder à Internet, para manter uma rotina diária, e até para esconderem que estão sem trabalho, muitos nova-iorquinos (e não só) acorrem a um lugar que antes raramente visitavam.

Luís M. Faria
17:31 Sábado, 25 de Abr de 2009

http://aeiou.expresso.pt/desempregados-americanos-refugiam-se-nas-bibliotecas=f510986
Ninguém se recorda de ver tanta gente de fato e gravata nas bibliotecas públicas de Nova Iorque como agora. O motivo é a crise. Uma boa parte dos novos frequentadores são pessoas que ficaram subitamente desempregadas. Lugar tranquilo e seguro, a biblioteca proporciona um conjunto de facilidades (a começar pelo acesso à Internet ) absolutamente essenciais nesta altura.

Os funcionários não desconhecem o papel que podem ter no esforço de reconstrução de muitas vidas pessoais. "Há décadas que estamos nesse negócio da busca de emprego", diz Paul LeClerc, presidente da instituição. Além do venerável e famoso edifício na rua 42, a New York Public Library (NYPL) tem dezenas de sucursais espalhadas pela cidade. Em todas elas tem havido um afluxo de desempregados à procura de ajuda, ou simplesmente dos computadores.

A busca de emprego é um processo muitas vezes longo, e que hoje em dia passa quase sempre pela Internet. Ter acesso gratuito a um terminal -- e funcionários treinados para ajudar, por exemplo, a preencher candidaturas de emprego -- pode significar a diferença entre uma situação normal ou a degradação progressiva e irreversível.

Conforme os psicólogos têm ultimamente lembrado, o desemprego não é mau apenas do ponto de vista financeiro. O sentido pessoal de auto-estima está frequentemente associado ao trabalho que se tem, ou não. A ausência de uma rotina diária é perigosa em si mesma. E os desempregados estão sujeitos a um conjunto de humilhações diárias que podem levar a estados de vergonha paralizantes.

Talvez por isso, segundo LeClerk, muitos dos actuais visitantes da NYPL não revelaram aos seus conhecidos que perderam o emprego. Alguns nem sequer terão contado à família. Saem de manhã como sempre saíram, como a roupa que sempre usaram, e dirigem-se à biblioteca, onde passam o dia.

Os funcionários da NYPL, como os de outras redes de bibliotecas pelo país fora, têm detectado inúmeras situações de fragilidade emocional. Ocasionalmente, essas situações desembocam em violência. As organizações com meios para isso procuram dar formação psicológica aos funcionários. Algumas disponibilizam um terapeuta para os ajudar a lidar com o seu próprio stress.

Numa biblioteca de Chicago, uma funcionária disse que não está habituada a pessoas com lágrimas nos olhos. Outra funcionária contou que os adultos muitas vezes se queixam das crianças que ocupam os computadores para se divertir com jogos, etc. Mas muitas crianças passaram a frequentar as bibliotecas justamente porque deixaram de ter Internet em casa. A ligação online é uma das despesas em que as famílias têm cortado.

Para alguns visitantes, outra dessas despesas era a própria aquisição de livros. Havia quem comprasse dois ou três por semana, hábito de repente tornado incomportável. Como um leitor voraz não se deixa dissuadir nem pela crise, essas pessoas continuam a ler. A diferença é que agora o fazem na companhia de muita gente que não vai ao lugar dos livros por causa dos livros.