"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, maio 22, 2009

no meio do lago uma casinha para patos

Reino Unido
Dinheiro público usado para construir jardim privado
http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1240635&seccao=Europa
por LUÍS NAVES

Um deputado conservador, também banqueiro, gastou 38 mil euros pagos pelos contribuintes no relvado de casa, incluindo um dispendioso lago. No meio, havia a casinha para os patos.

A ilha dos patinhos de Sir Peter Viggers, igual à da imagem ao lado, ficava bem em qualquer lago de jardim. O pior é que esta custou 1800 euros e terá sido paga pelo contribuinte britânico, ao abrigo do sistema de despesas da segunda residência dos deputados. A construção do lago artificial e do jardim custaram mais de 38 mil euros. Este episódio, denunciado pelo Daily Telegraph é o mais recente do escândalo que está a abalar a política no Reino Unido.

Viggers, membro do Partido Conservador e banqueiro, foi a última vítima do caso dos gastos parlamentares. O deputado não se irá recandidatar pela sua circunscrição de Gospost, que representava desde 1974. A confiança foi retirada pelo próprio líder conservador, David Cameron, que ficou furioso com o caso. O partido já pediu eleições antecipadas e organizou uma comissão interna para analisar as despesas dos seus próprios deputados, mas este caso embaraçoso ameaça destruir todos os esforços de Cameron de se demarcar do escândalo.

O exemplo de Viggers é um dos mais gritantes dos gastos absurdos, pois o deputado conservador gastou cerca de 38 mil euros em despesas de jardinagem, ao longo de três anos, incluindo 28 toneladas de estrume, no valor de 550 euros, tudo pago pelo contribuinte.

O esquema das despesas atinge cerca de 150 deputados, mas com diferentes graus de gravidade. Não escapa nenhum dos partidos e a questão abrange muitos dos políticos de destaque, incluindo os próprios líderes. Nos próximos dias são esperadas mais demissões.

Cinco deputados do Sinn Fein, incluindo Gerry Adams, reclamaram meio milhão de libras (mais de 550 mil euros), ao longo de cinco anos em despesas, mas nunca compareceram em sessões do Parlamento; o deputado John Austin redecorou por 11 mil euros o seu apartamento em Londres (que era a 15 quilómetros da sua casa principal) e depois vendeu-o com lucro; o ex-primeiro ministro Tony Blair reclamou o pagamento de uma parte dos juros da hipoteca da sua casa; o primeiro-ministro Gordon Brown mudou a segunda casa para primeira, de maneira a poder cobrar ao Parlamento mais de seis mil libras em despesas.

A lista de truques parece não ter fim. Há despesas de piscinas e um deputado que se separou foi ressarcido pela compensação paga à namorada por metade da casa. Houve um ministro que se fez pagar pela despesa de imposto de selo e muitos dos deputados não gastaram um tostão do seu bolso nos seus belos jardins.

O líder conservador, David Cameron, está entre os deputados que se mantiveram dentro das regras do sistema de gastos, mas mesmo ele tem uma factura de 600 libras para remover uma praga, dinheiro que o próprio reconhece ser para manutenção da casa e que, de acordo com o sistema, não estava dentro das despesas admissíveis. A verba será devolvida. Numa tentativa de parecer o partido mais moralizador, a oposição conservadora obrigará os seus prevaricadores a devolver o dinheiro mas para muitos deles será o fim da carreira.

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