Solidariedade
Celebridades em cadeia de greve de fome pelo Darfur
http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1237101
por HUGO COELHOHoje
A actriz Mia Farrow começou o jejum. O milionário Richard Branson tomou o lugar. Hoje é o segundo e penúltimo dia do nadador Josh Davis. E agora todos perguntam quem será a próxima vedeta americana a carregar o testemunho. Uma coisa parece certa: a causa da guerra no Sudão está de novo a mobilizar os famosos na América.
Quando Josh Davis acordar hoje, estará há dois dias sem comer. O nadador americano, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atalanta em 1996, é a celebridade que está a liderar a cadeia de voluntários que fazem greve de fome em solidariedade com as vítimas da guerra no Darfur.
Davis recebeu, há dois dias, o testemunho do consultor John Prendergast, que sucedeu ao músico Peter Gabriel, que se seguiu ao congressista afro-americano Donald M. Payne, que antes rendera o milionário dono do império Virgin, Richard Branson, que, por sua vez, tomara o lugar da actriz Mia Farrow, a activista americana que começou tudo, a 26 de Abril deste ano.
Desde então, mais de 400 anónimos, em 25 países, inscreveram-se na lista e o calendário está preenchido até final do mês de Junho (ver site fastdarfur.org). Na América pergunta-se: quem é a próxima celebridade a levar o testemunho?
Farrow começou um jejum de 16 dias para pressionar o Sudão a aceitar o regresso das 16 organizações humanitárias. O Governo de Cartum expulsou essas organizações, em Março, em represália contra a emissão de um mandado de captura internacional contra o Presidente Omar al-Bashir.
Bashir é acusado de crimes de guerra e contra a humanidade pelo apoio às milícias islâmicas que mataram 300 mil pessoas naquela região ocidental do Sudão. O conflito étnico já fez cerca de três milhões de refugiados que dependem da ajuda internacional para sobreviver, segundo estimativas da ONU.
A antiga mulher de Frank Sinatra e ex-namorada de Woody Allen foi obrigada a interromper a sua mediática greve de fome ao 12.º dia, por ordem do médico. Num vídeo difundido no YouTube, em que parecia mal se aguentar de pé, Farrow confessou-se desapontada: "Milhões de pessoas no Darfur estão a morrer de fome, enquanto eu posso acabar o meu jejum. Eles é que não têm opção."
Ao passar o testemunho a Richard Branson, que se ofereceu para cumprir a promessa por ela, Farrow começou, sem se aperceber disso, a cadeia de voluntários e mostrou como o Darfur continua a ser a causa das celebridades americanas.
A guerra naquela região do ocidente do Sudão mobilizou mais activistas nos EUA do que qualquer outra crise humanitária a seguir à guerra do Vietname nos anos 1960 e 1970.
A campanha Save Darfur ganhou visibilidade, logo em 2003, quando a Administração de George W. Bush - no que foi visto como uma tentativa para desviar as atenções da invasão do Iraque - usou a palavra "genocídio" para descrever o massacre.
O Darfur confirmou o estatuto de causa dos famosos nos Estados Unidos um ano depois, e à custa de uma outra tragédia africana: o Ruanda. Hollywood ficou chocado com Hotel Ruanda, um filme sobre o dono de um hotel que protegeu centenas de tutsis e hutus moderados, durante o genocídio de 1994.
Don Cheadle, o herói do filme, tornou-se depressa numa das personagens principais da campanha contra o conflito no Darfur.
O actor realizou o documentário Not on Our Watch (Não à Nossa Frente), que seria a palavra de ordem dos 15 mil manifestantes que, a 30 de Abril de 2006, se juntaram em frente ao Capitólio para exigir a George W. Bush que travasse o genocídio.
Nessa altura houve quem criticasse a hollywoodização do conflito no Darfur e denunciasse a inutilidade de tanto mediatismo. Mas os cépticos encontraram pela frente um inimigo de peso: Steven Spielberg.
O realizador de E.T. era o director artístico dos Jogos Olímpicos de Pequim e ajudou a convencer a China - protectora da ditadura sudanesa, por ter nela um principais fornecedores de petróleo - a permitir o envio de forças da ONU para o Darfur. Spielberg acabaria por se demitir do cargo meses depois, mas ao fazê-lo deixou uma nódoa no Jogos que na América ficavam conhecidos por "Olimpíadas do Genocídio

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