"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sábado, maio 30, 2009

Se não comes a sopa chamo um terrorista
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30.05.2009, Autor do texto


Já suspeitávamos, mas agora a ciência confirma-o, sem margem para dúvidas: eles, os mais pequeninos, já não têm medo do lobo mau. Em idades cada vez mais precoces, os medos viram-se para coisas reais e actuais. São os raptos, os terroristas, as doenças como a sida,
os furacões ou a morte que lhes roubam o sono. Por Andrea Cunha Freitas


Os monstros do armário ou os que vivem debaixo da cama podem estar a perder poderes. Um trabalho que envolveu mais de mil crianças entre os sete e os 18 anos resultou num novo top dos medos. Os raptos, o terrorismo, os furacões, os tiroteios, a sida, estão no topo da lista. A investigadora Joy Burnham tem mais de uma dezena de artigos publicados sobre os medos contemporâneos das crianças e diz que a culpa destas mudanças é, em grande parte, da televisão. Por cá, a pedopsiquiatra Paula Freitas, docente no Instituto de Ciências Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto, simplifica: "Os medos não mudaram, são os mesmos. São os rostos desses medos que podem ser diferentes". E pergunta: "Qual é a diferença entre o terrorista e o homem do saco das histórias antigas?".
Foi o El Mundo que o colocou em título: o lobo já não mete medo. Tudo por causa de uma nova investigação que apresenta os novos medos das crianças do século XXI. Segundo Joy Burnham, os terrores dos mais pequenos são cada vez mais reais e as personagens do imaginário estarão a perder o poder do susto em idades cada vez mais precoces. Quem sabe se, um dia, numa mesa de família, vamos ouvir: "Come a sopa, João. Come a sopa, ou vem aí um terrorista!".
"Alguns medos são normais em certas idades (o medo do escuro, de monstros ou de barulhos, para os mais novos). No entanto, nos últimos tempos, cada vez mais cedo as crianças revelam medo por coisas reais e não imaginadas", explica Joy Burnham numa conversa por correio electrónico com o P2. O estudo mais recente da investigadora sobre os medos contemporâneos das crianças foi publicado no Journal of Counselling and Development e chamou a atenção da imprensa internacional. A investigação é sobre os cinco medos mais citados em três grupos etários distintos: entre os sete e os 10 anos, entre os 11 e os 14 e entre os 15 e os 18. O projecto envolveu 1033 crianças e adolescentes de 23 colégios norte-americanos. Resultados? Eles hoje têm medo do rapto, de ataques terroristas, da sida, de serem ameaçados por uma arma e da morte. Olhando para o mesmo medo em diferentes idades, Joy Burnham encontrou a sida entre os cinco "maiores" medos nos sete, dez, 11, 14, 15 e 18 anos de idade.
"Acho que as mudanças na sociedade, as grandes preocupações mundiais e a exposição aos meios de comunicação fazem a diferença. Depois do 11 de Setembro, o medo de ataques terroristas aumentou. Percebi que, nas áreas afectadas pelo Katrina, os medos relacionados com estes fenómenos também aumentaram", nota. Sobre a influência das mudanças na sociedade na criação de novos pânicos entre os mais novos, Joy argumenta que hoje há mais crianças que dizem ter medo do divórcio dos pais. E, sobre os media, Joy não hesita: têm um papel central na formação dos medos contemporâneos destas crianças. É o acesso fácil e imediato à realidade que lhes inspira os terrores. Finalmente, os acontecimentos mundiais como as crises, os desastres, os furacões, as epidemias (agora, se calhar, encontramos crianças que estarão com pânico de gripe ou que têm medo de se raptadas como Maddie), também ajudam a formar medos, segundo esta especialista.
"Agora quero comparar os medos das crianças norte-americanas com os medos das crianças colombianas e, na fase seguinte, comparar os medos das crianças colombianas entre si. Estou também a conduzir uma nova sondagem para acrescentar alguns itens à lista de medos que consta no artigo publicado recentemente", adiantou ao P2. E as crianças europeias serão diferentes? "Há vários estudos que analisaram e compararam crianças norte-americanas e britânicas e também norte-americanas e australianas. Em muitos aspectos, os medos são idênticos nos vários países", diz Joy Burnham.
Apesar de ter constatado que o medo de coisas reais faz-se presente em idades cada vez mais precoces, Joy Burham acredita que os pânicos mais clássicos coexistem com os terrores contemporâneos. O medo do escuro, da trovoada, dos fantasmas, por exemplo, ainda estão lá. Serão apenas, cada vez mais cedo, "substituídos" por outros.
O homem do saco
"Preocupa-me que a instabilidade social e a insegurança dos adultos e os medos dos adultos transformem o mundo num mundo que é percepcionado pela criança como um mundo mais inseguro e mais ameaçador. Um mundo em que estes adultos, que também se sentem inseguros, não oferecem uma âncora suficientemente forte e protectora para a criança", diz Paula Freitas, pedopsiquiatra e docente de Saúde Mental no ICBAS. A médica sublinha o papel e o poder dos pais na construção de um sentimento de segurança dos seus filhos e contextualiza a transformação anunciada pela investigadora da Universidade de Alabama. "O que pode, de facto, estar a mudar é onde vamos buscar o medo. O medo é do lobo mau ou de sermos raptados ou de ser roubados? O que é o terrorista? Qual é a diferença entre o terrorista e o homem do saco das histórias antigas?", contrapõe. Por fim, dá a sua resposta: "Talvez o medo seja o mesmo. O medo do desconhecido. O rosto é que pode ser outro".
Quanto ao medo da sida, das doenças e das catástrofes naturais, Paula Freitas acredita que estamos perante uma constante actualização e que, "quando surgem devastações naturais, estes medos aparecem fortalecidos". "Não só na criança, nos adultos também", acrescenta.
"Muitas destas catástrofes chegam até nós pela televisão", admite a pedopsiquiatra, defendendo, no entanto, que este acaba por ser apenas o meio em que a realidade confirma os medos que temos.
Assim, a pedopsiquiatra não está surpreendida com os resultados do estudo norte-americano, ainda que não sinta estes novos medos tão presentes nas crianças portuguesas. "É normal que os medos se adaptem à realidade. É normal que a roupa que esses medos vestem tenha a ver com a realidade. Se nós vivemos num mundo que sentimos como mais inseguro, que faz com que os adultos se sintam mais inseguros, isto acaba por ter reflexos nas crianças." Se falássemos das crianças portuguesas, Paula Freitas juntaria o medo do "estrangeiro" a este top norte-americano. "O rosto do medo tem a ver com a cultura que vivemos e, por cá, os mais novos expressam muito o medo pelo que é diferente, nomeadamente de outras culturas e etnias. O estrangeiro dá um rosto para a ameaça. A maior diversidade étnica e o maior número de imigrantes poderão justificar este medo do "estranho", afirma.
Mas há medos comuns a todas as crianças. Paula Freitas aponta para o exemplo dos animais: aos três, quatro anos, há o medo do leão e do lobo. Quando crescem, ficam com medo de animais mais pequenos e, na idade escolar, não gostam nem de ouvir falar de aranhas ou cobras. Já o medo da morte, das doenças e contágios, refere a especialista, surge por volta dos sete e nove anos de idade.
E o que é que os pais devem fazer para ajudar os mais pequenos a gerir este mundo assustador de medos clássicos e contemporâneos? "Quanto mais seguros os adultos se conseguirem sentir, maior segurança conseguem transmitir à criança." E se os pais tiverem medo, devem fingir? "Não. As crianças não são estúpidas. Percebem muito bem essas coisas e não se deixam enganar facilmente. A criança tem menos amortecedores para as emoções e, por isso, menos capacidade de autocontrolo. Tanto exprime uma alegria esfuziante como um medo aterrorizador e compete ao adulto conter esse excesso de expressão emocional. O papel do adulto é regular o medo quando ele é excessivo em relação aos perigos reais", aconselha a especialista, alertando também para o "efeito protector do medo". "É importante que a criança não atravesse a estrada sem medo de ser atropelada." Fica o aviso: "Uma criança sem medo é um perigo".

Paula Rego pintora
De tudo. Do escuro, do diabo que vinha pelo corredor abaixo. Do cão muito pequenino que os meus pais me compraram e que tinha tendências suicidas. Das moscas. De sair à rua para o jardim no Estoril. Não passou. As crianças sabem o que é o medo melhor do que ninguém.

Adolfo Luxúria Canibal músico
Quando era criança vivia na serra, num meio isolado, na zona de Vieira do Minho. Tinha basicamente três medos. Tinha medo do escuro que, no fundo, é medo do desconhecido. Tinha medo dos ciganos pelas histórias que se contavam na altura. Diziam que roubavam, que levavam as criancinhas. Por causa desse medo tinha medo dos padres. Sempre que via um homem de batina, vestes escuras e colarinho, fugia. Não com medo do padre mas do cigano. E, finalmente, tinha medo do lobo, do animal selvagem que andava por lá perto, que matava cães e que, por vezes, via da janela.

valter hugo mãe escritor
Tinha medo do escuro. Não era capaz de me levantar, de me mexer para acender a luz. Não tinha candeeiro na mesinha de cabeceira e partilhava o quarto com o meu irmão que ficava mais perto do interruptor. Esperava as horas que fosse preciso até que alguém acendesse a luz mas não me levantava. Tinha medo dos fantasmas ou que algum bicho me agarrasse e levasse sei lá para onde... para os sítios onde os bichos vão. Vivíamos numa casa muito grande, com muitos quartos fechados, com um sótão onde nunca íamos, com muitos sons.

Albuquerque Mendes artista plástico
Nasci numa vilória nos anos 50. Os meus medos eram muito diferentes dos que sentem os que viviam na cidade. Nunca tive medo dos bichos, nem dos ruídos da casa - havia sempre muitos barulhos no sótão -, nunca tive medo do escuro porque brincava na rua e a noite era normal, tínhamos sempre a luz da lua e não havia persianas. A única coisa que me fazia medo era uma coisa que não entendia: o cemitério. Não era o local em si mas no Verão vi fogo a sair das campas e isso fazia-me medo. O fogo dos cemitérios. Cheguei a sonhar com isso, sonhava que aquelas chamas avançavam Trancoso. Hoje adoro cemitérios.
Paulo Ribeiro coreógrafo
O meu medo... era que os meus pais desaparecessem. Tinha medo que um dia eles não voltassem para casa. Sempre tive um ambiente familiar muito estável, eles viveram sempre juntos. Não me lembro de ter medo de monstros, do escuro, de fantasmas, bichos ou do lobo mau. Esse era o meu medo. Que um dia eles não chegassem a casa.

Júlio Machado Vaz psiquiatra
Tinha um medo que prima pela falta de originalidade: medo do escuro. Lembro-me que, quando andava pela casa, assobiava para espantar o medo. Não era medo do papão, era uma sensação inespecífica de ameaça, sentia que - porque estava escuro - qualquer coisa de mau me podia acontecer. Depois, lembro-me que tinha outro medo. Vivia com os meus pais e a minha avó materna e, raramente, os meus pais íam jantar fora ou ao cinema. Sempre que isso acontecia e eu ia dormir sem que eles tivessem chegado fazia o mesmo sonho: sonhava que estava a ser perseguido em casa por assaltantes e que, acerta altura, tropeçava e caía e ia ser apanhado. Acordava angustiadíssimo.
Era uma sensação de falta de protecção - o que é extremamente injusto para a minha avó que era uma mulher de armas e que me protegeria sempre - e não é preciso ser psiquiatra para fazer essa leitura. Nunca sonhei isso com os meus pais em casa.