Detroit A cidade sem futuro
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02.06.2009, Autor do texto
Parece Nova Orleães no pós-Katrina, mas por aqui não passou nenhum furacão. Fábricas esventradas, casas em ruínas, desemprego,
crime, desespero e vazio. A cidade que já foi dos
"Três Grandes" (General Motors, Ford e Chrysler)
vive uma morte lenta. Por Rita Siza, em Detroit
O centro comercial que ocupa os pisos térreos do quartel-general mundial da General Motors (GM), em Detroit, chama-se "Renaissance" e tem quase todas as lojas fechadas. A ironia e o simbolismo não passam desapercebidos nem aos mais distraídos: o complexo é o exemplo mais acabado do impasse em que vive a empresa e a cidade, ambas perdidas no fracasso do seu rico passado industrial e sem saber como reagir perante a perspectiva de um futuro incerto.
Nos corredores e patamares interiores das torres de aspecto vagamente futurístico há um constante movimento, mas não há barulho, não se sente vida. Os elevadores e escadas rolantes debitam pessoas que logo desaparecem de vista: para onde foram e como se sumiram tão depressa?
"Há quanto tempo se fala de renascimento... Andam a prometer-nos desde sempre que as coisas vão ficar melhores, mas eu só me lembro de tudo sempre a piorar", lamenta Clyde Allen, enquanto conduz o seu Oldsmobile pela deserta baixa de Detroit. À direita e à esquerda vai apontando para os esqueletos dos arranha-céus que, nas décadas de 20 e 30, rivalizavam com os que cresciam ao mesmo tempo em Nova Iorque.
O triangular Lafayette Building, um rebuscado edifício Arte Nova, está ao abandono. A dois quarteirões, o prédio antes ocupado pelo Detroit Free Press, um dos diários da cidade, está entaipado e coberto de graffiti. O neogótico Metropolitan Building, que foi dos maiores centros de joalharia do país, continua à espera que avance um projecto de reconversão em lofts de luxo. Está fechado desde os anos 80.
Mesmo os arranha-céus que ainda estão funcionais exibem uma decrepitude tal que mais parecem abandonados. O Ford Building tem um anúncio de aluguer em todas as janelas do rés-do-chão - aliás, parece não haver uma única construção na Baixa da cidade que não esteja para vender ou arrendar. As montras estão todas vazias: quase não há comércio, com a excepção de uns poucos balcões de comida rápida.
Avançando em direcção à periferia, para a Milha 8 [celebrizada pelo rapper Eminem no filme 8 Mile], ou mais ainda até à Milha 14, a paisagem é cada vez mais desoladora. O antigo estádio dos Tigers, a equipa de basebol da cidade, é um imenso lote vazio onde sobrou um quarto de bancada. Nos bairros residenciais, as casas estão escondidas por sebes de ervas daninhas. Há automóveis largados, queimados, nos passeios.
As ruas assustam no seu misto de vandalismo e negligência. As moradias que vão sendo abandonadas são imediatamente esventradas, primeiro vão as louças sanitárias e os equipamentos eléctricos, depois são as tubagens e canalizações, finalmente as caixilharias e os painéis de madeira. As fachadas enchem-se de tinta, ou então tornam-se negras, como pedaços de carvão.
Quarteirão atrás de quarteirão, circulando pela Chene Street, o cenário torna-se ainda mais desconfortável pela sua ridícula semelhança com um outro lugar de tragédia: parece que estamos no desfavorecido Lower 9th Ward de Nova Orleães depois do Katrina, com a única diferença de que aqui não passou nenhum furacão.
Mas nenhum outro edifício simboliza de forma mais autêntica a glória e decadência de Detroit como o Michigan Central Depot, a espectacular central ferroviária de estilo neoclássico que definha, solitária, entre dois ramais de auto-estrada.
Nos seus 18 andares não há uma única janela envidraçada. Fechada desde 1988, a antiga estação já esteve para ser reconvertida em casino, quartel de polícia e uma câmara de comércio internacional - nenhum desses projectos passou do papel. Em tempos, o abandono do edifício serviu de metáfora ao triunfo do automóvel sobre qualquer outro tipo de transporte colectivo. Hoje, é o ícone da "detroitificação", um novo termo da linguagem do urbanismo, que serve para descrever o declínio constante de uma região outrora próspera.
À espera
Como o resto de Detroit (e, para o caso, todo o estado do Michigan), o futuro do edifício está suspenso do Plano de Recuperação e Reinvestimento Económico lançado pela Administração Obama para estimular a economia e ultrapassar a recessão dos EUA. O financiamento estatal é o remédio que buscam tanto aqueles que querem salvar o edifício como os que defendem a sua demolição, mas nenhuma decisão foi ainda tomada sobre o destino da antiga estação. Como o Central Depot, também a cidade está à espera.
"Até pode ser que as coisas venham mesmo a melhorar, mas quem pode ficar à espera mais dez ou quinze anos para ver isso acontecer?", questiona-se Clyde Allen, que aos 46 anos de idade nunca viveu noutro lugar. "Os que têm filhos pequenos estão a ir, porque as escolas são uma porcaria. As ruas estão cheias de criminosos. As casas estão vazias. Na minha rua, em menos de um mês três moradias foram desocupadas. É só uma questão de tempo até que alguém lhes pegue fogo", diz. "Essa é a verdade. Por isso, a ideia de ir embora daqui passa-me frequentemente pela cabeça", confessa.
"Esta é uma cidade que para ser funcional exige dois milhões de pessoas, mas a população agora deve andar bem abaixo dos 800 mil", notou ao P2 Shawn Kwa, um artista gráfico que trocou Detroit por Chicago há mais de quatro anos e não tem planos para voltar. "Detroit tem todos os inconvenientes das grandes cidades mas nenhuma das vantagens. Viver aqui era muito difícil", lembra.
Ele e os amigos, todos ligados ao movimento da música techno (além da famosa Motown, Detroit foi o berço e sede deste género musical), recebiam constantes ameaças dos vizinhos, que não gostavam de ter uma casa ocupada por brancos num bairro predominantemente negro. Certo dia encontraram uma granada à porta de casa e perceberam que tinha chegado o momento de mudar.
"Antes disso, uma das nossas diversões era ver as casas a arder. Não havia um mês em que não ardesse pelo menos uma, às vezes mais. As pessoas saíam para a rua e ficavam a assistir ao incêndio, até não sobrar nada, só madeira queimada", conta.
Shawn e os amigos com quem partilhava a casa tinham-se decidido por aquele bairro da zona leste da cidade por causa do trabalho de Tyree Guyton, um excêntrico artista responsável pelo Heidelberg Project, uma gigantesca instalação urbana que se estende por toda a rua com o mesmo nome. Aí estão esculturas feitas com antigos aspiradores, carros de supermercado, partes de automóveis, bancos de jardim - são enfeitados com bolas coloridas, sapatos desirmanados, antigos telefones, uma imensidão de bonecos de peluche...
"Os vizinhos não gostam disto, acham que é um monte de lixo", explica Shawn, que estava em Detroit para um festival de música electrónica e levara a sua amiga Joyce a conhecer o projecto. "É junk-art", explicava, mas mais do que isso, dizia, "é um retrato perfeito desta cidade: um lugar abandonado, sujo, gasto, inútil", descreve. "Eu acho que este projecto é espectacular", aprecia.
Esta galeria aberta atrai milhares de pessoas ao bairro McDougall-Hunt (cerca de 275 mil visitantes por ano segundo o site oficial www.heidelberg.org), que percorrem o espaço com um sentimento divertido de espanto e uma sensação difusa de desconsolo, como Joyce. As instalações de Tyree não deixam de surpreender e provocar - como a decrepitude das casas e dos rostos daqueles que também vivem na mesma rua. Nas suas casas também há lixo à porta, só não está organizado por cores.
William Power, a mulher e os filhos vão usando as casas abandonadas de Detroit como abrigo. "Vivemos um pouco por toda a cidade", explicou ao P2, que deu com ele na Tri-Centennial Village, uma área de intervenção de 16 quarteirões da Habitat for Humanity, uma organização não-governamental de inspiração cristã, dedicada à reabilitação de áreas residenciais.
Como confessou Power, agora prefere ficar por aqui: desde que a organização se instalou na parte oeste da cidade e começou a trabalhar, o bairro está muito melhor. "Agora há mais pessoas a chegar do que a ir embora. Quando fechou a fábrica da GM na Michigan Avenue, o bairro ficou quase vazio. Mas agora temos gente nova, mães solteiras com filhos", notou, apontando o passeio cheio de crianças a correr.
A "casa de um dólar"
No selecto bairro histórico Boston-Edison, unanimemente considerado como o melhor sítio para viver em Detroit, as casas remontam ao início do século XX e estão razoavelmente bem tratadas. Do lote, destaca-se a residência em estilo revival renascentista italiano construída por Henry Ford em 1908. A sua actual proprietária, Marilyn Mitchel, tem um evidente orgulho na sua casa e na indústria que está na sua génese. "Não consigo imaginar este pais sem indústria automóvel, é ridículo", desabafa ao P2.
Outras coisas que Marilyn acha ridículas: a falta de polícia, que incentiva ao roubo e vandalismo, a irresponsabilidade das pessoas que continuam a insistir em guiar grandes SUV, a inexistência de visão e de liderança na sua cidade, a ganância das grandes corporações que nunca se adaptaram à evolução dos tempos... "As coisas estão muito más. Sinceramente, não esperávamos que o melt-down fosse tão grave", diz.
A sua zona rica da cidade não escapa à "detroitificação" nem sobrevive imune às atribulações mais recentes da economia americana. Marilyn e o marido formaram uma associação com outros moradores para tentar salvar do esquecimento e declínio algumas das construções mais emblemáticas do seu bairro. Em colaboração com outras organizações não-governamentais, gerem um projecto para adquirir e reabilitar 50 casas. Não conseguiram, contudo, resgatar a última casa do seu quarteirão, a última a ser fechada e com uma tabuleta a indicar que a hipoteca foi executada pelo banco. "Não acredito que a vendam tão cedo", lamenta Marilyn.
E a dois minutos deste relativo oásis, é outra vez a desolação. Na esquina das ruas Traverse e Murat, no número 8111, o P2 encontrou a (agora) famosa "casa de um dólar": uma moradia de três quartos que em 2006 valia 65 mil dólares e um ano mais tarde foi vendida pelo inimaginável preço de um dólar e ainda permanece entaipada, no mais completo abandono. Um dólar é o preço de uma pizza, ou de uma lavagem do carro na bomba de gasolina da Milha 14.
"Já não há esperança para essa casa, ninguém nunca mais vai pegar nisso", grita desde o outro lado do passeio Rob McKenzie, que está a pintar de vermelho os quatro degraus da escadaria que leva à porta da casa vizinha. Este foi o bairro onde nasceu e cresceu - a casa que está a ajeitar é onde vive a sua mãe, que, ao contrário dos filhos, se recusa a deixá-la: "É aqui a igreja dela, o supermercado... Ela já não se quer dar ao trabalho de conhecer um bairro novo", explica o filho.
Os filhos fartam-se de insistir. O panorama à volta é desolador. Em frente à "casa de um dólar" está outra moradia abandonada. "Dois dias depois de a família sair, a vedação metálica já tinha sido toda arrancada", diz Rob. As outras duas casas, imediatamente contíguas, também estão vazias. E ao lado ficam dois lotes onde cresceu um mato de ervas daninhas - há já muito tempo que as antigas construções foram demolidas sem que outras novas viessem tomar o seu lugar.
"Nos anos 60 este bairro era lindo", diz Rob, que antes avisara para a necessidade de manter a conversa curta e ir embora do bairro antes de anoitecer. Quando os McKenzie se instalaram, eram a única família negra no seu quarteirão. Actualmente não resta um único residente branco: saíram todos com os motins raciais.
Com o progressivo emagrecimento e encerramento das fábricas de automóveis, o bairro foi perdendo população e riqueza. Mas McKenzie não culpa a crise da indústria automóvel pelo estado a que chegou o seu antigo bairro e a sua antiga cidade. "Uma coisa destas não acontece de um dia para o outro. Não é a falência da GM que é responsável por esta situação. Isto está em decadência há décadas. Há vinte anos este bairro já era mau. Agora é muito pior. Quando muito, a falência dos fabricantes de carros é a última acha da fogueira que está a consumir Detroit lentamente", considera.
A implosão imobiliária de Detroit está bem patente nos crus números coligidos pela Michigan Association of Realtors: no primeiro trimestre de 2008, o preço médio de uma moradia na cidade era de 37 mil dólares. Este ano, o valor desceu para nove mil dólares, uma queda de 75 por cento que coloca o preço médio do square foot (a área standard para os americanos) na casa dos 20 dólares.
Como ironiza Clyde Allen, a situação chegou a um ponto em que "fica mais barato comprar uma casa do que um carro". "E, como sabemos, os carros também já não valem muito", repara.

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