Um gigante moderno deixa-nos
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28.07.2009, Vanessa Rato
Baryshnikov diria que ele revolucionou a dança e depois esperou por um público que entendesse o seu legado. Aos 90 anos, era um gigante do século XX
Palavras transparentes, as dele: "É preciso amar a dança para continuar a dançar. Não nos devolve nada a não ser aquele momento fugaz em que nos sentimos vivos. Não é para almas instáveis".
É uma questão de entrega e Merce Cunningham persistiu nessa entrega, primeiro como um dos maiores bailarinos norte-americanos e, depois, como um dos mais importantes coreógrafos do mundo - um dos mais determinantes artistas do século XX. Morreu no domingo em Nova Iorque, onde vivia desde que, em 1939, entrou num comboio em Centralia, no estado de Washington, e foi juntar-se à companhia Martha Graham. Graham era a grande pioneira da dança moderna. Merce tinha 20 anos: "Desci [do comboio], olhei para a silhueta da cidade e pensei: 'Estou em casa.'", recordou há dez anos numa cerimónia pública.
A companhia que fundou em 1953 e esteve em Portugal por várias vezes - 1966, 1994, 2001... - fez ontem o anúncio da morte sem divulgar a causa, mas Cunningham tinha feito 90 anos em Abril e relatos recentes explicam que, com os problemas de artrite que tinha há décadas, a sua energia física era cada vez menor. Naturalmente longe da figura alta e esguia de longo pescoço cuja invulgar graciosidade seria comparada à de Nijinsky - o mesmo tipo de leveza e improvável capacidade de parecer imobilizar-se no ar, como se este fosse o seu verdadeiro elemento. E, contudo, em vez de um solista de renome como Nijinsky ou Baryshnikov, Cunningham assumiu a ideia do colectivo, com uma influência que expandiu muito para lá da dança, mas que nem sempre foi bem compreendida pelo grande público.
Baryshnikov diria que ele reinventou a dança e depois esperou pelo público que pudesse entender o seu legado. Esse público existe, mas nunca até hoje na forma do verdadeiro culto popular dedicado, por exemplo, a Pina Bausch, a grande Papisa da dança europeia, morta também há menos de um mês, aos 68 anos. Talvez a sua linguagem fosse demasiado técnica e despojada para esse tipo de adesão, sem o convite explícito à fruição mais lúdica, sem o piscar de olho ao entretenimento.
Nenhuma da teatralidade ou pesquisa psicológica que servem de âncora ao olhar menos experimentado, nenhuma das estratégias de composição em binómios causa, efeito ou clímax, anticlímax: Cunningham, o principal responsável da modernidade na dança depois de Graham e dos Ballets Russes, estava aquém e além disso - com ele, o movimento valia por si, na sua relação com o tempo e o espaço.
Cunningham estudaria com Balanchine, o último grande coreógrafo dos Ballets Russes antes da dissolução da companhia em 1929. Foi ao tipo de pesquisa aberta na primeira grande companhia de bailado independente do mundo que deu continuidade: a ideia de que a dança pode basear-
-se na expressão corporal e procurar novas formas; a noção de que deve estar ligada à contemporaneidade, qualquer que ela seja; a dissonância por vezes extrema entre música, figurinos e movimento; a reinterpretação total do que o corpo pode ser e fazer em palco, não só como presença individual, em que cada bailarino é ao mesmo tempo solista e elo do conjunto composto por todos os corpos e restantes elementos da obra; o afirmar de que artistas de todas as áreas podem trabalhar em conjunto, para o mesmo fim, sem que uns ilustrem o trabalho dos outros...
Os Ballets Russes tiveram Picasso, Stravinsky, Satie; Cunningham teve Andy Warhol, Robert Rauschenberg e Jasper Johns, teve, sobretudo, John Cage, o compositor dos polémicos quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio tocados ao piano que revolucionaram a música contemporânea, companheiro e colaborador desde os anos 1940 até à morte, em 1992.
A dança de Cunningham tinha muito a ver com esses "4'33" com que Cage quis dar a ouvir a musicalidade do mundo - o som da chuva, lá fora, das páginas da partitura a serem viradas, do próprio público, a tossir, a mexer-se na cadeira, incómodo. Cage e Cunningham estudaram filosofia zen. Foi a ela - bem como às experiências dada - que Cunningham foi buscar os métodos do acaso segundo os quais sequenciava as frases rigorosamente construídas em estúdio com lançamentos de dados, tiragens de I Ching e, depois, recorrendo a um sistema computacional que ajudou a desenvolver - o Dance Forms. Diria: "Algumas pessoas acham que é inumano e mecânico lançar moedas em vez de roer as unhas e bater com a cabeça na parede, mas o sentimento que tenho quando componho assim é que estou em contacto com um recurso natural muito maior do que a minha inventividade, muito mais universalmente humano do que os hábitos particulares da minha prática".
Seria também à filosofia zen que Cunningham iria buscar a inspiração para trabalhar a ideia de um corpo com vários centros, em que a cabeça, o torso, os braços e as pernas tinham expressividade autónoma. Foi para estudar essa técnica que, em 1986, o coreógrafo Francisco Camacho se mudou para Nova Iorque. "Poder explorar o movimento pelo movimento, sem dar cargas emocionais, foi a minha primeira grande evolução", diz.
Na altura, e apesar de ter dançado até aos 73 anos, Cunningham já dava poucas aulas, deixando-as aos seus bailarinos e investigadores. Mas vinha frequentemente fazer os exercícios, a um canto, ao fundo do estúdio. "Com muita naturalidade, sem os cultos de personalidade que se ouve de outros coreógrafos", diz Camacho.
Na sua mais recente colaboração com a conhecida coreógrafa norte-
-americana Meg Stuart - Blessed, prémio da crítica francesa para Melhor Espectáculo Estrangeiro em 2008 -, Stuart pediu-lhe que fosse buscar alguma dessa técnica. Quando atende o telefone e lhe damos a notícia, Stuart não consegue impedir um longo e triste "não", quase um grito. "Hoje, mais do que nunca, percebo como Cunningham era radical. Ele sempre ouviu um ritmo inerente ao mundo, a nós mesmos. A forma como visualizava a música, como mostrava como certas coisas se dissolvem, desaparecem, reaparecem... Inspirou-me profundamente. É inevitável, mas triste: pensei que ele era imortal."

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