Expressões faciais também se perdem na tradução
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por PATRÍCIA JESUSHoje
Distinguir uma expressão facial de medo de uma de surpresa, ou uma cara de nojo de uma de ira, é mais complicado para os asiáticos do que para os ocidentais, argumenta um estudo da Universidade de Glasgow. Os investigadores contestam a noção de que as expressões faciais são universais e explicam porquê num artigo publicado esta semana.
A alegria, a tristeza e o medo são sentimentos universais, mas a forma como se reflectem na nossa cara, e como nós os percebemos nas expressão dos outros, não. Pelo menos segundo investigadores da Universidade de Glasgow, na Escócia. Um estudo publicado esta semana contesta a noção de que as expressões faciais são universais e defende que a maneira como as interpretamos é condicionada pela nossa cultura.
Segundo esta investigação, publicada na revista Current Biology, uma cara de nojo não é vista da mesma forma por um ocidental e por um asiático, por exemplo. Os asiáticos, em maior grau do que os ocidentais, tendem a ver nojo numa cara que realmente mostra ira. Ou surpresa numa expressão de medo.
E a diferença não está na expressão em si, mas na forma como olhamos. Rachael Jack, co-autora do estudo, explica que os indivíduos de diferentes culturas tendem a observar partes distintas da cara para interpretar uma expressão: os asiáticos concentram-se sobretudo nos olhos do interlocutor, enquanto os ocidentais olham para o conjunto da cara, incluindo a boca.
Assim, as pessoas da Ásia oriental têm maior dificuldade em distinguir expressões, dizem os investigadores, porque "a região dos olhos é mais ambígua" e dá informação mais confusa.
A experiência consistiu em mostrar a 13 ocidentais e a 13 asiáticos imagens de rostos com expressões faciais que indicavam: felicidade, tristeza, surpresa, medo, nojo, ira ou uma indiferença ou neutralidade. Monitorizando o movimento dos olhos dos participantes foi possível determinar para onde é que eles olhavam, o que permitiu analisar as diferenças entre os membros de um grupo e do outro. E concluir que enquanto os ocidentais tentam abarcar toda a cara, os asiáticos se concentram nos olhos. O estudo sugere ainda que estas diferença são um reflexo de outra característica cultural: os asiáticos usam mais os olhos para comunicar emoções.
Curiosamente, um programa de computador em que foi inserida a informação recolhida pelos olhos dos participantes asiáticos também não conseguiu distinguir entre o nojo e a ira, nem entre o medo e a surpresa. O que leva os investigadores a afirmar que esta não é a melhor estratégia.
Por outro lado, Rachael Jack considera que, quando têm dúvidas, os asiáticos tendem a escolher a emoção socialmente mais confortável - "surpresa, em vez de medo, por exemplo" - e que isso realça as diferenças culturais no que toca à "aceitação social das emoções" . Ou seja, as expressão faciais também precisam de tradução.

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