Picasso torna-se um mito só após libertação de Paris
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por LusaOntem
Henry Gidel, autor de uma biografia de Picasso agora lançada, afirma que "o mito" do pintor se iniciou no final do Verão de 1944 aquando da libertação de Paris da ocupação nazi.
Segundo o autor de "Pablo Picasso", editada pelas Publicações Europa-América, "foi nessa altura que Picasso se tornou um monstro sagrado".
Até então, segundo o autor, podia passear pelas ruas e cafés de Paris que ninguém o importunaria.
Para o facto terá também contribuído a "ressuscitação" do pintor espanhol, na medida em que proibido de expor durante a ocupação nazi de Paris, refugiado na casa da amante, a imprensa ocidental dava-o como fuzilado pelo III Reich.
Segundo Gidel, Picasso "tornara-se o campeão da liberdade e o arquétipo do resistente", considerando haver "muita ingenuidade e ilusão neste ponto de vista".
Nesta biografia de 386 páginas, o autor descreve a par e passo o percurso do espanhol, "as suas bruscas mudanças de humor", referindo os diferentes encontros com artistas e intelectuais, os casos amorosos, e a sua infância em que "teve uma educação machista" e "tornou-se um paxá".
Pablo Picasso nascido na central Plaza de la Merced de Málaga em 1881 "era um anjo e um demónio" a quem as mulheres que o criaram "o acarinharam e o mimaram e cederam a todos os seus caprichos".
Segundo o biógrafo, "mesmo que isto não explique tudo, ajuda a compreender melhor o seu posterior comportamento para com as mulheres".
Gidel afirma que para as muitas mulheres que teve era "extremamente agradável, [mas] podia tornar-se de repente particularmente odioso" e até "de uma incrível grosseria".
O autor traça o percurso do genial pintor, cioso da sua independência, enquadrando-o nos acontecimentos sócio-políticos. Picasso viveu quase um século, atravessou duas guerras mundiais, por exemplo, tendo morrido em 1973 em Mougins (Sul de França).
Foi sepultado no palacete de Vauvenargues, um momento a que apenas assistiu a sua última companheira, Jacqueline, que "queria aquele morto só para ela", escreve o biógrafo, já que "proibiu a entrada aos filhos".
Ao longo da narrativa, referindo várias fontes, citando até diálogos íntimos, conversas, cartas, artigos, refere-se sempre a Pablo Picasso como "um bom espanhol".
Henry Gidel recorre muitas vezes à nacionalidade espanhola do pintor para explicar a sua complexa personalidade.
"Mas a representação das piores tristezas não impedia o artista de conservar a sua alegria, a vivacidade sorridente e o humor. Essa é uma das espantosas contradições que a alma espanhola manifesta e, nesse aspecto, Pablo é um bom espanhol", escreve o autor.
Henry Gidel, autor de várias biografias, designadamente das de Sarah Bernardt e Jean Cocteu, foi distinguido em 1991 com o Prémio Goncourt da Crítica Literária.

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