"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, outubro 11, 2009

Para além do fado, como poderemos proteger o nosso património imaterial?
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/11-10-2009/para-alem-do-fado-como-poderemos-proteger-o-nosso-patrimonio-imaterial-17991783.htm
Por Alexandra Prado Coelho

É muito bom que esteja em preparação uma candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade, que deverá ser apresentada no próximo ano à UNESCO, mas é sinal de que devemos apostar muito mais fortemente na protecção do resto do património imaterial em Portugal, afirma Luís Marques, director regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo. Para isso, deveria ser criado para o imaterial um instituto como existe para o património construído, defende.

Há por todo o país uma série de manifestações e práticas culturais - que vão de canções de trabalho a procissões, de fórmulas mágicas a cantos de desafio - que merecem ser inventariadas e registadas, diz.

Esse trabalho começou já a ser feito pelo Departamento do Património Imaterial do Instituto dos Museus e da Conservação (a quem o PÚBLICO dirigiu uma série de perguntas para as quais não obteve resposta até ao fecho desta edição), mas também, no caso de Lisboa, pela Direcção Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo (DRCLVT).

O que Luís Marques, antropólogo e especialista em património imaterial, defende é que é preciso mais. No que diz respeito ao fado, o facto de a candidatura (lançada com o apoio da Câmara de Lisboa e do Museu do Fado) estar a ser coordenada pelo musicólogo Rui Vieira Nery "dá todas as garantias". Mas há "outras expressões culturais que podem estar em perigo, sujeitas a eventuais atentados e ao esquecimento".

É importante "não nos fixarmos apenas numa das expressões que tem mais projecção internacional", avisa. A candidatura do fado ao estatuto de Património Imaterial da Humanidade voltou a ser notícia na última semana depois de ter sido anunciado que a Unesco reconhecera esse estatuto ao tango, na sequência de uma candidatura apresentada pela Argentina e o Uruguai. O embaixador de Portugal na Unesco, Manuel Maria Carrilho, declarou entretanto que a candidatura do fado será apresentada no início de 2010, o que deverá permitir a sua classificação no ano seguinte.

Um dos objectivos deste tipo de classificação é garantir a protecção de práticas que estejam ameaçadas de desaparecimento (não é o caso do fado, tal como não é o caso do tango). O que preocupa Marques são as tradições mais vulneráveis. "É preciso haver registo, documentação" e para isso é preciso haver uma aposta política clara nesta área. Para isso o director da DRCLVT propõe que seja dado a estas práticas uma importância equivalente à que é dada ao património material, criando para o imaterial um instituto próprio.

Dado que a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial entrou em vigor em Portugal em Agosto de 2008, e que já existe um regime jurídico para a protecção desse tipo de património, é preciso agora disponibilizar os instrumentos necessários para que isso possa acontecer, diz o antropólogo.

Na recolha que tem vindo a fazer, a DRCLVT está a tentar identificar várias rotas do património imaterial na região de Lisboa e Vale do Tejo, que dividiu em cinco subáreas: zona litoral (Peniche, Nazaré, Sintra, etc.), área metropolitana de Lisboa, Lezíria do Tejo, Médio Tejo e província de Setúbal.

É possível, por exemplo, fazer uma rota dos Caminhos do Sagrado, com uma série de santuários (às vezes apenas uma rocha ou um penhasco) ligados a milagres ou aparições, ou uma rota das procissões navais, quando os barcos engalanados saem para o mar a agradecer a protecção na faina, ou localizar os lugares onde existem os cantos das Janeiras e dos Reis, as cegadas, as queimas e enterros do Entrudo, as festas da Quinta-Feira da Espiga. Ou ainda, por exemplo, todas as tradições ligadas aos avieiros do Tejo ou à cultura do touro no Ribatejo.