"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Estudo explica que cavalos-marinhos têm forma curva como estratégia de caça
27.01.2011
PÚBLICO

http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1477331

Os cavalos-marinhos evoluíram de um corpo direito e esguio para uma curiosa forma curva para melhorar a sua estratégia de caça, revela um estudo publicado na revista “Nature”.

Sam Van Wassenbergh, do Departamento de Biologia da Universidade de Antuérpia, explicou que a postura em “S” do cavalo-marinho permite-lhe alcançar as presas – pequenos camarões e larvas de peixes -, já que a sua estratégia de caça consiste em esperar que o alimento passe por si. Ao contrário das marinhas-comuns, por exemplo, - espécies esguias e com corpo direito do mesmo Grupo dos peixes ósseos – que nadam em direcção às suas presas, os cavalos-marinhos têm capacidades limitadas de locomoção, com apenas uma barbatana dorsal e duas peitorais pequenas. Por isso são predadores que ficam escondidos e camuflados nas ervas marinhas, à espera.

Os investigadores compararam as estratégias de alimentação entre estas espécies e concluíram que os cavalos-marinhos ganharam esta anatomia única - com uma posição da cabeça inclinada em relação ao tronco - uma vez que precisam de mover a cabeça mais rapidamente e de estar perto das presas, para o efeito de sucção funcionar. Já para as marinhas-comuns – onde o tronco está alinhado com a cabeça -, a rapidez não é tão importante porque se podem deslocar atrás da presa.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Huckleberry Finn

http://jornal.publico.pt/noticia/11-01-2011/nova-edicao-apaga-a-palavra-nigger-219-vezes-20971489.htm

Nova edição apaga a palavra "nigger" 219 vezes
A New South Books vai reeditar a obra-prima de Mark Twain, rasurando o termo ofensivo "preto" ("nigger") e substituindo-o por "escravo". O objectivo, diz, é evitar que Huckleberry Finn seja banido das escolas. Se fosse vivo, Twain provavelmente reagiria explicando qual é a diferença entre um relâmpago e um pirilampo... Por Luís Miguel Queirós


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PartilharImprimirComentarEnviarDiminuirAumentarAproveitando o recente centenário de Mark Twain (1835-1910), uma editora sediada no estado norte-americano do Alabama, a New South Books, prepara-se para lançar uma controversa reedição censurada de As Aventuras de Huckleberry Finn. Ao longo de todo o texto, as palavras "nigger", forma considerada ofensiva de referir uma pessoa de cor (para usar o português politicamente correcto), e "injun" (forma igualmente considerada ofensiva de referir os índios americanos) serão respectivamente substituídas pelos termos "slave" (escravo) e "indian" (índio).

A editora New South Books e o responsável pela edição - o professor Alan Gribben, um especialista na obra de Twain que ensina na Universidade de Auburn, também no Alabama - terão achado que talvez fosse um bocadinho forçado de mais pôr personagens do início do século XIX a utilizar a expressão "native american" (nativo americano).

Se o termo "injun" só aparece ocasionalmente, a palavra "nigger" ocorre, segundo o editor, 219 vezes (total que presumivelmente inclui as ocorrências do plural "niggers"). A editoraassegura que, em todos os casos, sem excepção, o termo depreciativo foi substituído por "slave". O que quer dizer que, para citar apenas um exemplo, onde, no capítulo VI, líamos "according to the old saying, "Give a nigger an inch and he"ll take an ell"" ["de acordo com o velho ditado "Dá uma polegada a um preto e ele tira uma vara""], teremos agora, por assim dizer, um novo velho provérbio.

Gribben argumenta que esta medida terá um efeito duplamente benéfico: fazer desaparecer "dois epítetos nocivos" e "contrariar a censura preventiva" que tem levado a que, por todo o mundo, "importantes obras literárias" sejam "retiradas dos currículos". E que As Aventuras de Huckleberry Finn é uma importante obra literária é algo que poucos se atreverão hoje a negar. Hemingway escreveu: "Toda a literatura americana vem de um livro de Mark Twain chamado Huckleberry Finn. [...] Não houve nada antes. Não houve nada tão bom desde então." Das várias edições portuguesas da obra, a mais recente é da Relógio d"Água, com uma nova tradução de Sara Serras Pereira.

A favor de Gribben, há que dizer que "nigger" (em Portugal, mas já não no Brasil, "preto" traduz melhor a intenção depreciativa do termo) é hoje, provavelmente, a palavra com maior potencial ofensivo da língua inglesa, ainda que, em contexto informal, possa ser usada sem intenção ofensiva, quando ambos os interlocutores são negros. A própria imprensa, quando se vê obrigada a usá-la, opta frequentemente pela expressão "the N-word" (a palavra [começada por] N).

Gribben também não está a exagerar quando afirma que o livro vem sendo banido de currículos escolares pela inusitada frequência da palavra maldita. Nas últimas décadas, têm sido muitos os protestos de pais a exigir que os seus filhos não sejam "forçados" a ler na escola as aventuras de Huck Finn e do seu amigo Jim, um escravo fugitivo, ao longo do Mississípi. Segundo a Associação das Bibliotecas Americanas, é mesmo o livro cuja presença nas salas de aulas dos Estados Unidos tem sido mais contestada. Um caso a que a imprensa deu relevo, por causa da polémica pública que desencadeou, ocorreu em 2003 no liceu público de Renton, no estado de Washington, quando Beatrice Clark, presidente da associação conjunta de docentes, pais e alunos da escola tentou impedir um professor de dar a ler o livro numa disciplina que era frequentada pela sua neta Phair, de 16 anos. Em declarações a um jornal de Seattle, Phair afirmou: "Senti-me humilhada e horrorizada por se estar a ensinar esse livro, que tem a palavra "negro" 215 vezes." (Ter-lhe-ão escapado quatro, já que, a confiar na contabilidade de Gribben, serão mesmo 219.) A sua avó, que apenas conseguiu que o liceu nomeasse uma comissão para estudar a forma mais adequada de apresentar a obra aos alunos, argumentou: "Não é apenas uma palavra: carrega o sangue dos nossos antepassados; chamavam-lhes isso quando estavam a ser linchados, ou enquanto eram enforcados."

Na verdade, a polémica é antiga a ponto de o próprio Twain ainda ter apanhado com ela. A edição inglesa da obra saiu em 1885 e a americana foi publicada logo no ano seguinte - ou seja, 20 anos após a emancipação dos escravos nos Estados Unidos -, mas o romance reporta-se ao Sul da primeira metade do século XIX, anterior à eclosão da guerra civil. Twain foi muito criticado pela presença do racismo no livro, mas sempre se recusou a alterar fosse o que fosse.

"Podemos aplaudir Twain como um autor realista proeminente que registou a fala de uma determinada região durante uma época histórica específica", reconhece Gribben. Mas acrescenta que os "insultos raciais abusivos" são "repulsivos para os leitores de hoje".

Muitos académicos ingleses e americanos já se insurgiram contra o que consideram ser uma despropositada concessão ao politicamente correcto. Geff Barton, director da escola secundária inglesa King Edward VI, acha "deprimente" que "não se confie nos jovens para perceber o contexto das obras", e, numa alusão à personagem shakespeariana do agiota judeu Shylock, pergunta: "Também vamos ensinar uma versão purificada d" O Mercador de Veneza?"

O pirilampo e o relâmpago

A questão de se saber se uma obra que promove o racismo ou outras ideologias igualmente repugnantes deve ser ensinada, ou mesmo lida, ainda que se lhe reconheça qualidade literária, é antiga e não tem respostas consensuais. Mas o que distingue este caso, como sublinhou a professora de Literatura Americana Sarah Churchwell, da universidade de East Anglia, é que As Aventuras de Huckleberry Finn não só não é um livro racista, como é claramente um livro anti-racista. Confessando ter ficado "incandescente de raiva" quando soube que se preparava esta edição, defende que "o problema não está no livro, mas sim no ensino".

"Os livros de Twain não são apenas textos literários, mas também documentos históricos, e a palavra em causa é icónica, porque codifica toda a violência da escravatura", diz a académica. E acrescenta: "A questão do livro é que Huckleberry Finn começa por ser um racista numa sociedade racista e depois deixa de ser racista e abandona essa sociedade." Para Churchwell, a rasura do termo "nigger" vai ocultar dos leitores "a evolução moral do carácter" do protagonista.

Twain, de resto, era um crítico feroz do racismo e contribuiu financeiramente para as primeiras associações de direitos civis que surgiram nos Estados Unidos. E basta passar os olhos por meia dúzia de ocorrências da palavra "nigger" no seu livro para se perceber como esta é eficazmente utilizada para mostrar até que ponto o racismo estava entranhado na sociedade sulista anterior à guerra civil. Veja-se, no capítulo 32, o diálogo no qual Huck conta à sua tia Sally que viu um naufrágio. "Santo Deus! Alguém ficou ferido?", pergunta a tia. "Ná. Morreu um negro [nigger]", responde o rapaz. "Bem, foi uma sorte, porque às vezes há mesmo pessoas que ficam feridas", replica a tia.

A palavra "nigger" foi sempre ofensiva, e era-o na época em que Twain escreveu o livro. Se a usou 219 vezes, não foi decerto por acaso, sobretudo tendo em conta que se trata do homem que, numa carta enviada em 1888 ao padre George Bainton (que a publicou no seu livro The Art of Authorship), escreveu: "A diferença entre a palavra quase certa e a palavra certa é deveras vasta - é a diferença entre um pirilampo e um relâmpago."

terça-feira, janeiro 04, 2011

Cientistas põem em causa idade e origem do Homo sapiens
Dentes humanos encontrados em gruta de Israel são mais antigos do que Homem moderno

http://www.publico.pt/Ciências/dentes-humanos-encontrados-em-gruta-de-israel-sao-mais-antigos-do-que-homem-moderno_1473109


30.12.2010 - 20:42 Por PÚBLICO

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A descoberta de oito dentes numa gruta de Israel levanta questões sobre a nossa origem. Uma equipa de cientistas da Universidade de Telavive descobriu fósseis que parecem ser de Homem moderno, mas que estão em camadas de terra com idade entre os 400 e 200 mil anos – mais antigas do que o nascimento dos antepassados directos do Homem.
Os fósseis de dentes com 400 mil anos, encotrados perto de Telavive (Baz Ratner/Reuters)

O estudo, que tem vindo a ser desenvolvido desde 2006, foi publicado online na revista American Journal of Physiscal Anthropology. “Há muitas possibilidades”, disse à agência Bloomberg Avi Gopher, professor de arqueologia da Universidade de Telavive que co-dirigiu a escavação na gruta de Qesem. “É preciso sermos cuidadosos, não podemos atirar para o lixo um paradigma só por causa de alguns dentes.”

Qual é o paradigma? Apesar de ao longo do último milhão de anos diversas migrações feitas por várias espécies de hominídeos terem colonizado a Terra, pensa-se que a última tenha começado há cerca de 60 mil anos, feita pelo Homem moderno. Estes nossos antepassados, segundo o que se conhece hoje,evoluíram há 200 mil anos, em África, e migraram para o resto do mundo, substituindo os humanos que existiam em cada local.

Um dos fenómenos mais conhecido nesta viagem foi o encontro e substituição dos neandertais pelo Homem moderno, que sucedeu na Europa, apesar de já existirem provas genéticas de ter havido cruzamento sexual entre os dois grupos.

Os dentes molares encontrados na gruta competem com esta visão. No resumo do artigo, os autores defendem que estes fósseis têm muitas parecenças com outros crânios encontrados em Israel de Homem moderno, que são muito mais recentes. O que pode mudar aquilo que se sabe sobre a idade e origem da nossa espécie.

“É aceite que o mais antigo Homo sapiens que se conhece foi descoberto na África Oriental e tem 200 mil anos de idade, ou um pouco menos. Não conhecemos mais nenhum local onde alguém defenda a existência de um Homo sapiens mais antigo”, disse Gopher à AFP.

Paul Mellars, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, disse que outra hipótese é que estes dentes possam ser de neandertal. O artigo também diz que os dentes têm algumas características destes humanos.

“Esta região do mundo tem sido um cruzamento para movimentos da população humana durante um longo período de tempo e está situado mesmo ao lado de África e da Europa”, explicou à Bloomberg Rolf M. Quam, um dos investigadores que produziu o estudo, professor de antropologia na Universidade Estatal de Nova Iorque.

“É possível que os dentes mais velhos representem uma espécie e os mais novos representem uma espécie diferente, já que sabemos que diferentes espécies humanas estavam a ocupar a Europa e a África durante este tempo”, acrescentou o investigador.

Além das características dos fósseis, há outros factores que suportam a teoria dos dentes pertencerem ao Homem moderno. No local verificou-se a existência de lâminas sílex, do uso habitual de fogo, caça, corte e partilha de carne animal, e de actividade mineira de sílex para a produção de utensílios – actividades e objectos que, segundo os autores, traduzem um comportamento que corresponde à aparição do Homem moderno.

A escavação continua a decorrer na gruta. Os cientistas esperam encontrar mais provas que ajudem a confirmar esta descoberta.