"Bomba nuclear é contrária ao islão", diz 'ayatollah' iraniano
http://dn.sapo.pt/2006/09/23/internacional/bomba_nuclear_e_contraria_islao_ayat.html22 de Setembro de 2006
POR António Rodrigues e Manuel Almeida
Entrevista a Yussef Saanei, "Ayatollah" de Qom.As ideias que Khomeiny tinha quando fez a Revolução ainda permanecem vivas no Irão?As ideias do imã Khomeiny, tal como são conhecidas e mantidas na sua essência, serão, agora e sempre, perceptíveis para toda a humanidade e podem ser concretizadas.As pessoas que hoje dirigem o país estão a seguir os preceitos de Khomeiny?Em parte, não totalmente.Qual é a parte que não está a ser cumprida?Se se tivessem concretizado todas as suas ideias, a taxa de participação nas eleições seria muito mais elevada do que foi na última eleição presidencial. Se os governantes do Irão, assim como o resto do mundo, tivessem seguido essas ideias e as tivessem aplicado na sua essência, não teria havido nem a Al-Qaeda nem o terrorismo. Não quero dizer que desapareceria o terrorismo mundial, mas seria bem menor o seu impacto.Porquê?Durante os 20 anos que o imã Khomeiny lutou contra o Governo do xá Reza Pahlevi, e contra os Governos das grandes potências, nunca permitiu que se recorresse à luta armada. Inclusivamente, o atentado que vitimou o primeiro-ministro do xá não foi autorizado por ele. Em toda a sua vida nunca instigou ninguém a atingir o seu objectivo através do terrorismo. Quando o imã regressou ao Irão, depois do triunfo da Revolução, foi recebido por cinco milhões de pessoas, quando morreu, mesmo tendo governado uma década, dez milhões de pessoas estiveram no funeral.A grande taxa de abstenção nas eleições do ano passado mostra, então, que as pessoas estão descontentes com o rumo da revolução?Ou não se importam ou estão descontentes. O imã Khomeiny tinha a capacidade de criar um sentimento de amor pelos governantes. Um Governo ao mesmo tempo sentimental e racional. E este tipo de Governo exige que o povo não seja maltratado e os seus direitos sejam respeitados.Isso quer dizer que hoje em dia não se respeitam os direitos do povo no Irão?Não se respeitam da forma que pretendia o imã Khomeiny. Até certo ponto, não se respeitam.Quais são os direitos que não se respeitam?Cabe aos governantes, aos que têm o poder, dizê-lo, as minhas palavras não servem para nada.No entanto, é um líder religioso importante, tem seguidores. A sua opinião não tem influência?Sim, é verdade, mas aos governantes não lhes importa aquilo que eu digo. Mas é preciso fazer alguma coisa para que as pessoas participem mais nos actos eleitorais, para que os filhos da revolução sejam bem tratados, para que os pobres tenham mais atenção. As eleições não podem ser controladas por quatro pessoas do Conselho dos Guardiães.O senhor também fez parte do Conselho de Guardiães?Naquele tempo, éramos 12, tal como agora, mas havia uma pessoa para servir o chá e duas para administrar tudo. Hoje, o orçamento do Conselho de Guardiães supera 200 milhões de rials (quase 20 mil euros) e tem 300 mil inspectores. Também é preciso encontrar uma solução para mudar as penas islâmicas, porque o islão está a perder os jovens.Está a defender a necessidade de uma revisão constitucional no Irão?Basta que se ponha em prática a Constituição aprovada nessa altura.A Constituição do tempo de Khomeiny não está actualmente em vigor?Acrescentaram algumas alíneas e o Conselho de Guardiães interpreta--as à sua maneira.Acredita que a energia nuclear é essencial para a sobrevivência da República Islâmica do Irão?O assunto nuclear é um entretenimento e não vale a pena discuti-lo. Os Governos estão apenas a tocar o clarim. Javier Solana esteve aqui, tal como Kofi Annan; todos acabarão por se entender.Acha que o Irão pagará um preço muito alto por ter provocado esta crise nuclear?Não. Saddam Hussein ficou louco e pagou por isso, mas os Governos do Irão e dos países ocidentais não farão o mesmo. Os ocidentais têm uma boa vida e vivem num excelente lugar e não o estragarão por causa da guerra.Afirmou numa entrevista que ter a bomba nuclear contrariava o islão. Se o Irão desenvolver a arma nuclear estará a ir contra o islão?Já o disse e volto a repetir: a bomba nuclear é contrária ao islão. Inclusivamente, produzi-la e guardá-la. Utilizá-la, então, é muito pior. Se alguém no Governo quiser produzir este tipo de armas estará a ir contra o islão. Até mesmo para autodefesa é proibido. Ou seja, mesmo atacados com uma arma nuclear, não devemos responder também com uma arma nuclear, porque ao utilizá-la vamos provocar uma catástrofe para o meio ambiente, morrerá muitíssima gente, desaparecerão espécies de animais e isso é proibido. Um exemplo: durante a guerra Irão-Iraque, os iraquianos atacaram-nos com armas químicas e biológicas e nem uma vez o Irão respondeu com as mesmas armas.As suas interpretações do Alcorão são minoritárias no Irão - sobre as armas nucleares, sobre os atentados suicidas, que também condena, sobre os direitos das mulheres
Os direitos humanos, porque acredito que todos os seres humanos têm os mesmos direitos.Acha que a sua interpretação tem possibilidades de se impor no futuro?Enfrentamos muitas restrições e obrigações neste país; no entanto, as minhas palavras possuem muitos seguidores nas universidades e fora delas. Esse é o caminho que a história trilhará e a humanidade e o Irão, se Deus quiser, encontrarão esse caminho. Há dois dias disse a um jornalista do Washington Post: o ser humano chegou a um ponto em que odeia a guerra, a violência, os maus tratos de seres humanos e é muito diferente do homem do passado, porque já não pode viver com a falta de democracia e de liberdade.No entanto, no Irão há ainda uma grande falta de liberdade?Oficialmente e legalmente ainda demorará tempo. Se fosse no tempo do imã Khomeiny já tudo se teria cumprido, mas hoje, para chegar àquilo que defendo, ainda vamos demorar. É preciso ter em conta que, nas últimas presidenciais, Rafsanjani, um dos pilares da revolução, e o senhor Karubi, um mullah muito importante, foram derrotados por uma campanha eleitoral negativa, e o doutor Ahmadinejad conseguiu votos dessa forma. Ninguém poderia imaginar que Hashemi Rafsanjani não iria ganhar as eleições, mas foi tanta a propaganda negativa que no fim acabou mesmo por não conseguir. Esta opinião é partilhada por Rafsanjani, mas como este tem um cargo oficial muito importante no Governo não se atreve a expressá-la publicamente. Há algum tempo esteve em Qom e veio aqui a minha casa e eu aproveitei para lhe perguntar: "Antes, falava de uma forma muito mais aberta nas orações de sexta-feira, porque é que agora não denuncia isto?" E respondeu-me que não se atrevia a fazê-lo e que se sentia mal por isso.Algumas pessoas aqui no Irão afirmam que os direitos das mulheres são os direitos básicos a melhorar para que todos os outros se alterem para melhor. Está de acordo?Não só os direitos das mulheres, os direitos das minorias religiosas, o direito de voto, o primeiro direito dos seres humanos que hoje está nas mãos do Conselho dos Guardiães. Outro problema prende-se com o facto de os governantes pretenderem proibir os líderes religiosos de emitir opiniões que sejam contra os interesses do Governo.Não teme que as suas palavras lhe possam causar dissabores?Não, porque se tiver dissabores ao citar as palavras do imã Khomeiny é sinal de que já acabaram com a revolução islâmica. Se a madrassa [escola corânica] Feizeh [onde dá aulas] não fosse independente poderia ter problemas, assim não.O Governo iraniano parece estar a endurecer a sua actuação no que diz respeito à liberdade de expressão.Acontece o mesmo em todos os países do mundo, está-se sempre a discutir os limites da liberdade de expressão. Umas vezes mais liberal, outras mais limitada, e cada ministro que chega tem uma opinião diferente.Mas as suas opiniões podem entrar na interpretação restrita que o Governo terá dos interesses do Estado e da salvaguarda do Irão.Informar não causa problemas; tudo o que cumpre as regras de Deus e a Constituição não causa problemas. Lamento que a situação tenha levado a que as pessoas no exterior do país pensem que há muita pressão e muito controlo no país.E não há?Não tanto como vocês pensam. Antes, sim, havia, mas da parte de grupos que não pertenciam ao Governo. Mas, sobretudo desde a época do presidente Khatami, já não existe essa pressão sobre as pessoas. Como existem pessoas boas no Governo, o mundo está desperto e a pensar.O que pensa deste primeiro ano do Governo de Ahmadinejad?Toda a gente diz que ainda não chegou a hora de fazer juízos sobre a matéria.E quando é que se poderá emitir uma opinião?Quiçá quando acabarem os seus primeiros quatro anos. Mas, por exemplo, o Governo decidiu aumentar o ordenado mínimo dos trabalhadores, o que provocou muitos despedimentos nas empresas. Isso levou a que tivessem que diminuir o salário outra vez, mas muitas empresas não voltaram a contratar os trabalhadores que tinham despedido. E o descontentamento dentro das empresas também foi grande, porque deram o aumento e depois tiraram-no. Vamos ver também o que se vai passar com o preço do petróleo e como vão solucionar a falta de gasolina no país nos próximos seis meses. Se vão introduzir o limite de apenas três litros de gasolina por automóvel - só para que as pessoas ponham o carro a trabalhar e a bateria não se gaste -, ou se pretendem solucionar o problema de outra maneira. E o que acontecerá se subirem o preço da gasolina. Hoje, os preços já são muito altos, o que é que sucederá amanhã? A resolução destes problemas depende da questão nuclear, porque se esta for solucionada talvez os governantes possam pensar noutros assuntos e o investimento regresse ao país. Mas se me perguntam a minha opinião sobre o nuclear, então digo que tudo não passa de uma história, contos para entreter o povo iraniano e os povos ocidentais.* Jornalistas da Lusa/Especial para o DN