"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, abril 10, 2007

Martin Strel nadou mais de dois meses
Esloveno atravessa o rio Amazonas
http://expresso.clix.pt/Actualidade/Interior.aspx?content_id=385215
POR Pedro Chaveca
10 de Abril de 2007


Martin Strel nadou dos confins do Peru ao nordeste brasileiro. Tudo para bater mais um recorde pessoal e entrar para o Guinness.


Martin Strel nadou mais de dois meses
Esloveno atravessa o rio Amazonas
Pedro Chaveca

A máscara de protecção não surtiu o efeito desejado
09:03 terça-feira, 10 ABR 07





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Quando Martin Brel deu a última braçada no Amazonas conseguiu duas coisas: terminar a epopeia que iniciara no dia 1 de Fevereiro e bater o seu recorde pessoal de 4003 quilómetros, estabelecido ao nadar o gigantesco Yang-Tsé na China. Tornando-se assim, sábado passado, o primeiro homem a atravessar o Amazonas na sua totalidade, o rio com maior caudal do planeta.
O esloveno de 52 anos atravessou o segundo maior rio do mundo, a uma média de 80 quilómetros por dia, perfazendo os 5265 quilómetros que compõem a sua extensão total em 65 dias. O ponto de chegada foi já perto do Oceano Atlântico, nos arredores da cidade brasileira de Belém, a 2400 quilómetros do Rio de Janeiro.
As autoridades brasileiras, ou não tivéssemos na terra do forró, já organizaram uma festa para o aventureiro quinquagenário, num tributo ao que poderá ser o mais recente recorde do Guinness.
Kate White, porta-voz do Guinness World Records, confirmou que a organização está a aguardar o envio dos documentos necessários por parte da equipa de Strel, para ser determinado, se existe um novo máximo estabelecido ou não.
Segundo a mesma fonte o processo de avaliação "poderá demorar seis a oito semanas a ser concluído".
Cara queimada
Os grandes obstáculos que se interpuseram entre a vontade deste verdadeiro “Homem da Atlântida” e a foz do Amazonas foram o cansaço extremo e o delírio, para além do convívio, felizmente sempre pacífico, com os habitantes do rio.
As dificuldades começaram logo no início da prova, com Strel a ser fustigado com queimaduras de segundo grau no rosto. A equipa de apoio ainda lhe arranjou uma máscara de protecção, feita com a fronha de uma almofada, mas o desconforto e a dificuldade em respirar impediram-no de a usar com regularidade, o que fez com que o estado das feridas piorasse.
Em declarações feitas, à Associated Press, na passada quinta-feira e ainda durante a prova, o nadador não escondeu estar perto do limite, “a parte final está a ser o momento mais difícil até agora”, disse quando faltavam apenas 100 quilómetros para a chegada.
“Quanto mais perto estou do fim, menos quilómetros consigo nadar”, queixou-se Strel que vê nas correntes do rio a causa para a perda de rendimento: “As marés do oceano têm muita influência nas correntes e por vezes são tão fortes que me arrastam para trás”.
Piranhas, sanguessugas & tubarões-touro
Pressão sanguínea elevada, insónias, infecções cutâneas, desidratação, espasmos musculares e a sempre confortável diarreia, para quem está dentro de água, foram mais alguns inimigos com que o obstinado desportista teve de lidar.
Martin Strel não se esquece também das vezes em que as dores eram tantas, que precisou de auxilio para entrar na água, ou da ajuda preciosa do seu médico contra as alucinações, “ele fala comigo, pergunta-me sobre as dores e redirecciona o meu pensamento para outras coisas”.
Strel julga que se tornou numa espécie de Tarzan do Amazonas. Só assim consegue explicar não ter sido incomodado por piranhas, pelas minúsculas sanguessugas que se alojam nos orifícios humanos ou pelos maciços tubarões-touro, uma espécie que consegue sobreviver em água doce. “Já nado com eles há tanto tempo que devem pensar que eu sou mais um”, brinca o esloveno.
O Nilo, esse “pequeno carreiro”
Apesar de ter dificuldade em manter-se em pé e de ter sido aconselhado pelo médico a não continuar a prova, tudo acabou bem para este herói por conta própria.
Questionado se está a pensar em atravessar o Nilo, para juntar ao seu currículo o maior rio do mundo, Strel não deixa margens para dúvidas: “não o vou atravessar. É enorme mas não representa um grande desafio. É apenas pequeno carreiro. O Amazonas é muito mais grandioso”.
Depois do Danúbio, do Mississipi, do Yang-Tsé, do Amazonas e com tanta ambição, parece já não restarem muitos desafios para o esloveno. Quem sabe, se um dia a água voltar a Marte, talvez…