"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, outubro 16, 2007

Isto é feio
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16.10.2007, Isabel Coutinho, em Frankfurt

Umberto Eco esteve na Feira do Livro de Frankfurt a lançar e a falar sobre a sua mais recente obra História do Feio, que amanhã vai para as livrarias portuguesas numa edição da Difel. A obra segue a mesma lógica que a História da Beleza, numa revisitação do feio através da história da arte ocidental
Umberto Eco a dançar sem parar em Frankfurt? Esta é uma das histórias que os editores portugueses gostam de relembrar sobre os bons momentos que passaram na feira do livro. Nas conversas sobre Frankfurt surge sempre aquele ano em que Umberto Eco, o autor de O Nome da Rosa, esteve na festa mais badalada da feira - o jantar que o grupo Bertelsmann/Random House organiza no Hotel Arabella - e não parou de dançar a noite toda.
Este ano, o semiólogo e escritor Umberto Eco regressou à feira para lançar o seu mais recente livro História do Feio. Não o vimos a dançar na festa da Bertelsmann (que continua a ser a mais badalada das festas), mas andou a mostrar a feira a um grupo de alunos e deu uma entrevista ao Das blaue sofá, o programa de televisão sobre livros organizado pelo Der Club Bertelsmann e a ZDF, e que é gravado num espaço aberto na feira com público a assistir. História do Feio vai para as livrarias portuguesas amanhã numa edição da Difel, o livro ilustrado está a ser publicado em vários países europeus ao mesmo tempo. Foi por uma data de razões que Umberto Eco depois de fazer a História da Beleza partiu para a História do Feio. "Quando fizemos a História da Beleza, achávamos que era um bom projecto mas nunca suspeitámos que fosse um livro que viria a ter 27 traduções para outras línguas. E o meu editor - vocês sabem como são os editores, eles também andam à procura de ter lucro -, disse-me: "Agora temos que fazer outro livro"", explicou Umberto Eco na conversa no sofá azul. ""Olha que a História da Beleza não vendeu pelo seu conteúdo mas pelo título", disse. Podíamos colocar lá dentro a lista telefónica que ninguém se importaria, porque o título funcionava tão bem, e não existem muitos temas tão bonitos como a história da beleza". Então tivemos subitamente esta iluminação de fazer a história do feio [ri-se]. E foi uma grande surpresa para mim descobrir como era muito mais divertido estar à procura do feio, porque o feio é muito mais interessante que o belo. A beleza é frequentemente monótona!" Mas há o outro lado do espelho: "Ao fazer este livro, não fui perturbado por desejos sexuais", confessou em Frankfurt. "O belo mesmo mudando ao longo dos séculos sempre correspondeu a uma norma", explicou o professor universitário italiano. "O corpo humano não pode ser maior do que isto e menor do que aquilo, o nariz tem que ser mais ao menos assim; enquanto no feio há uma infinidade de deformações que podem acontecer. Podemos ter um gigante ou um anão, alguém com um nariz como o de Pinóquio, há uma infinidade de variações, a fenomenologia do feio é muito, mas muito mais rica do que a da beleza."O feio também não é o mesmo para todas as pessoas. O conceito de fealdade, como aliás o de beleza, é relativo, varia com as diversas culturas. Por exemplo, há quem considere que o kitsch é bonito. O kitsch é uma distinção de classe e sempre aconteceu os membros das classes altas julgarem desagradáveis ou ridículos ou de péssimo gosto os gostos das classes baixas. "Alguém de uma classe mais baixa, do ponto de vista intelectual e não necessariamente com pouco poder económico, considera bonitas coisas que a classe mais alta, os happy few, consideram feias, mas se formos subindo na escala social até pode ser considerado camp (é belo porque é horrível). Por isso, é interessante, há um mercado flutuante, uma espécie de bolsa de valores para o que é bonito e o que é feio. Não só o belo e o feio varia de país para país e através dos tempos mas também através dos estratos sociais."Hoje, disse Eco, se calhar não gostaríamos de ter um caso amoroso com uma das mulheres pintadas por Rubens por causa da imensa celulite, mas naquela época era considerado muito bonito. Tal como a anorexia há uns anos atrás era bela e agora está a começar a ser considerada feia.A mulher no quadro Mulher a Chorar de Picasso (1937) é feia ou não? Umberto Eco colocou esta imagem no livro para mostrar como é difícil julgar o que é bonito ou feio em épocas remotas e em períodos mais antigos da história. "Se alguém vindo do espaço olhasse para esta representação de mulher na obra de Picasso, acreditava que gostávamos de mulheres como estas, o que não é verdade. Mas posso comentar esta imagem de outro modo. Esta imagem é aquilo que consideramos uma pintura bonita, mas, tenham atenção, se o meu avô aqui estivesse acharia esta pintura horrível. Agora achamos que é bonita. Será que representa uma mulher feia? Não temos a certeza. Se representa uma mulher, talvez seja uma mulher bonita, mas é-o através da maneira cubista de olhar o mundo. Existem três aspectos: é uma bonita representação de uma pessoa que não sabemos se é bonita ou se é feia. Porquê? Olhem para o outro quadro, o Retrato de Velho com Neto, de Domenico Ghirlandaio (1490). Isto é uma bonita pintura, é uma bonita representação de uma pessoa feia e com um nariz horrível mas é uma qualidade de feio de que nós não desgostamos. É agradável. E temos esta representação da criança pequena que abraça este avô feio e mostra que há caras feias de que nós gostamos. Ele é feio mas gostamos dele. É por isso que a fenomenologia do feio é muito complicada."A fealdade de CristoNa antiguidade os deuses eram símbolo de beleza, mas com o cristianismo a representação de Deus pode ser feia. "Há um capítulo muito interessante na Estética de Hegel em que ele diz que o cristianismo começou a glorificação da fealdade do corpo divino, mas não só do corpo de Cristo, porque também os inimigos de Cristo são representados feios. Os santos também são habitualmente representados a sofrer, torturados, feridos, como se a apreciação do feio fosse um elemento positivo, usado para fins moralistas. É ambíguo porque temos o feio sagrado e também o feio do Inferno; há o feio do Diabo e o feio do Cristo." Na Idade Média, há muitas representações da mulher velha e da mulher feia. No Renascimento, a feiura feminina torna-se objecto de diversão burlesca. E, no século XX, no caso da fotografia Budapeste (o modelo), de Andres Serrano, que mostra uma mulher velha, ela é feia? "Se nós a vestirmos, ela fica com imensa dignidade, poderia ser uma Virginia Woolf de outros tempos. Transformou-se em feia porque está representada de uma forma lasciva, como se fosse uma cortesã, a fumar. Se estivesse vestida não seria feia. Tornou-se feia na representação do artista", continuou Umberto Eco. Eco, que é um conhecido coleccionador de livros e tem imensos livros sobre monstros, fez um capítulo só dedicado ao tema - "A mitologia dos monstros: o feio, o cómico e o obsceno". No livro fala de uma "estética do desmedido", de como Santo Agostinho dizia que os monstros eram belos enquanto criaturas de Deus. E dos monstros de hoje em dia: Drácula, Frankenstein, King Kong e mortos-vivos, algumas representações a meio caminho entre o mito e a ciência. O mistério do charmeÀs vezes não é fácil falar do feio. Esta mulher, por exemplo, diz o entrevistador alemão a apontar para Jurado nº4 (espírito de raposa), de Daniel Lee (1994), tem uma cara feia mas o corpo é belo... "É consigo. O que prefere?", riposta Eco. "Eu ficaria embaraçado se jantasse com ela. Mas este é um borderline, entre a beleza e o feio. E outra categoria sobre a qual seria muito difícil fazer um livro é o charme. O charme é uma qualidade misteriosa. O Gérard Depardieu e a Barbra Streisand são bonitos ou são feios? Estão para além destas categorias: eles têm charme. Mas este charme é fascinante, é uma qualidade misteriosa que pode depender dos olhos, de um pequeno movimento dos lábios, um movimento das mãos. Seria muito difícil definir o charme. E esta rapariga pode ser de alguma maneira charmosa."Mas nem sempre a beleza é charmosa. "Não quero ofender ninguém mas podia dizer-lhe uns quatro, cinco nomes de actrizes consideradas excepcionalmente bonitas mas com quem eu nunca quereria ter um affair porque, como dizemos em Itália, elas "não são o meu tipo", não são o meu género, não sinto o seu charme embora possa reconhecer que tecnicamente elas são muito bonitas.""Esta é o seu tipo?", pergunta-lhe, provocador, o entrevistador alemão e mostra-lhe uma imagem de uma mulher gorda, o quadro Mulher de Fernando Botero (1979). "Bem. Ela não é anoréctica, podia ser usada numa campanha contra a anorexia. Mas não me mostre só mulheres!" Porque é que as pessoas se põem feias? A próxima fotografia comentada é a de um punk com piercings. Eco colocou ao lado, em contraponto, pormenores de um quadro de Hieronymus Bosch, onde também se vêem rostos perfurados com anéis de vários géneros, porque o pintor representava os perseguidores de Jesus como criminosos, piratas e bárbaros. "O jovem contemporâneo de certa maneira quer ser atraente. Ele não me atrai a mim, mas parece que atrai muitas pessoas." "Não existe o absolutamente bonito e o absolutamente feio. Há muitas variações pelo meio, como eu e você, por exemplo", diz Eco, provocando imensas gargalhadas no público. O PÚBLICO viajou a convite das Edições ASA