Hélder Araújo, investigador da Universidade de Coimbra
Os robôs vão ser os nossos melhores amigos?
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1310896&idCanal=61
16.11.2007 - 10h17 , Maria João Lopes
Segue-nos para todo o lado, com dois olhos que parecem binóculos. Fita-nos de frente, de lado, gira o pescoço metálico para a esquerda, depois para a direita. O professor Hélder Araújo corre de um lado para o outro, salta para cima e para baixo, foge do robô, mas ele acaba sempre por encontrá-lo: “Ele responde tanto ao movimento rápido como ao lento”, garante o professor. Parece divertido, e é-o, mas é muito mais do que isso: é algo sério que pode vir a revolucionar o nosso quotidiano, sobretudo na área da saúde. “Não é robótica humanóide”, frisa o investigador da Universidade de Coimbra (UC), mas pode ser um passo importante também para ela.
O projecto que está ser desenvolvido por um grupo de cientistas da UC e de universidades estrangeiras tem um objectivo muito específico: aperfeiçoar o modelo de percepção visual e auditiva destas máquinas, tornandoas mais próximas de nós. Para já, os modelos matemáticos da percepção que serão aplicados são muito primários – são aqueles que, baseados em sistemas biológicos, são comuns aos humanos e aos animais. E é precisamente isto que é inovador no projecto: para além de investigadores na área da robótica, esta equipa integra médicos e neurocientistas. São eles que vão introduzir nos robôs os tais modelos matemáticos da percepção visual e auditiva primária, aquela que é despertada por estímulos simples como, por exemplo, a cor, um som agudo, o movimento, a textura ou a profundidade, e não a que tem a ver com as nossas experiências e memórias e que faz de nós seres complexos. Mas será que, no futuro, vai ser possível, de alguma forma, traduzir matematicamente a nossa complexidade e aplicá-la às máquinas? Até certo ponto, o professor Hélder Araújo, da Faculdade de Ciências e Tecnologias da UC, acredita que sim. Mas ressalva que é apenas a sua convicção e que, embora não esteja sozinho na comunidade científica, também não está apoiado por nenhuma espécie de consenso. Fazer tudo como nós Este é um dos tais campos em que a Ciência e a Filosofia se cruzam e, por isso, Hélder Araújo evita entrar na polémica. A este cientista, como a outros, interessa-lhe a pergunta, a pesquisa. A utilização, boa ou má, da descoberta científica é da responsabilidade dos humanos. “Para tudo há um ganho e um risco”, resume o investigador do Instituto de Sistemas e Robótica.Os robôs vão chorar a sério, rir como nós, desempenhar tarefas domésticas, intelectuais? Este professor, do departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores, acredita que sim. “Tenho fé que eles vão ser capazes de fazer tudo o que nós fazemos”, diz Hélder Araújo. Até investigação científica, o que pressupõe inteligência e criatividade? “Até investigação científica”, responde, sem medo. O professor lembra mesmo que, a nível intelectual, já há máquinas com um “desempenho razoável” a jogar xadrez e que, no que toca às emoções, elas têm “bases biológicas” e, por isso, também poderá ser possível aplicá-las matematicamente. Este cientista acredita que, “talvez dentro de 20 anos” – é apenas uma suposição –, eles vão ser capazes de mil e uma coisas: tomar conta de crianças, ajudar idosos, cozinhar com algum requinte, limpar o pó e por aí fora. Mas, para o bom desempenho de algumas destas tarefas, falta ainda apurar, entre outras especificidades, a fineza de movimentos dos robôs para que possam manusear objectos com cuidado. Adaptados ao meio E qual vai ser, afinal, a utilidade da investigação que está a decorrer nos laboratórios da Universidade de Coimbra? A confirmar-se o resultado esperado – que os robôs sejam capazes de responder ao meio ambiente de forma mais autónoma – estas máquinas terão inúmeras aplicações, na indústria, em sistemas de segurança e na área da saúde, sobretudo no que respeita ao aperfeiçoamento de próteses visuais e auditivas. O projecto ainda está em curso e os resultados finais só deverão ser visíveis em 2009. Para já, o instituto de robótica de Coimbra parece uma carpintaria de ciência. Há, pelo menos, dois robôs que respondem a estímulos visuais de movimento, ainda que um seja mais reactivo do que outro. Mas há mais: há material electrónico disperso em cima das mesas e supercomputadores com ecrãs que plasmam fórmulas, que parecem linguagem marciana aos olhos de leigos, espalhados pela sala. Ainda está tudo ainda em fase de construção. Em breve estarão em Coimbra os investigadores ingleses para introduzirem o sistema de som nos robôs e, quando chegarem os colegas alemães da neurociência computacional, aí é que vai ser.Expliquemos melhor: não é novidade que os robôs possam desenvolver tarefas mecânicas nem sequer que possam imitar emoções humanas, como o riso e o choro. Hélder Araújo chama a atenção para o interesse e o entusiasmo que os japoneses têm nesta área. Também já existem robôs que, uma vez programados para o efeito, podem ir para um terreno e até contornar obstáculos (é o que fazem alguns mísseis). Mas no caso do projecto da UC, se as fórmulas matemáticas da nossa percepção primária vingarem, os robôs vão ser capazes de responder a diversos estímulos visuais e auditivos, em diferentes ambientes e de forma mais autónoma. O que permitirá então, por exemplo, criar próteses visuais e auditivas muito mais perfeitas, sistemas de vigilância bastante mais efi azes e métodos de controlo industrial mais minuciosos. Corrigir deficiências Ficção científica? Hélder Araújo sorri. Defende que o projecto da UC não tem nada a ver com ficção científica nem com robótica humanóide. Mas, no fundo, tem pontos de contacto com a área, porque aproxima, ainda que de forma muito simples, as máquinas do nosso cérebro. A diferença é que, na robótica humanóide, as máquinas têm braços e pernas, porque são concebidas com um interface amigável e empático, e na investigação da UC isso pouco importa. Estes robôs não têm, aliás, aquele aspecto andróide que idealizamos, graças ao cinema e à literatura. Estes robôs, que podem vir a ser inovadores, parecem uns aparelhos de Oftalmologia, com um pescoço articulado e uns binóculos, ou melhor, uns “olhos”. Mas, se os testes e as experiências em curso tiverem sucesso, eles vão revolucionar um pouco o nosso dia-a-dia. Para além de potenciarem a indústria da robótica e de aumentarem o conhecimento da Neurociência acerca da nossa percepção, alargando-o à comunidade em geral, poderão trazer pelo menos um grande progresso: as tais próteses que permitirão, a quem tem deficiências visuais e auditivas, ver e ouvir. Porque estas máquinas – e isto é que é revolucionário – vão estar preparadas, tal como nós e os animais em geral, para reagir ao meio ambiente. Curioso ou assustado?

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