Contra o assédio sexual, México lança autocarros só para mulheres
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29.01.2008, Natália Faria
Nem soutiens queimados nem luta pelo direito à igualdade: as mexicanas querem
é ver-se livres do assédio masculino. Por isso pediram ao Governo que criasse autocarros
só para mulheres. A medida teve tanto sucesso que deverá agora ser alargada aos táxis
Para cortar pela raiz o problema do assédio sexual, na capital do México começaram a circular autocarros só para mulheres. A medida, em vigor desde 21 de Janeiro, veio responder às queixas de milhares de mexicanas cansadas de serem empurradas, assediadas e violadas por homens durante o trajecto.
Até agora, no metro da Cidade do México as três primeiras carruagens já eram interditas a homens. E o sucesso do alargamento desta medida aos autocarros é tal que o Governo está a pensar fazer o mesmo nos táxis. Dentro de pouco tempo, 50 destes veículos deverão passar a ser conduzidos por mulheres e só aceitarão transportá-las a elas e às crianças que as acompanhem.
"Agora sim, tratam-nos como mulheres", congratulou-se uma passageira ao jornalista do El Financeiro que andou pelas ruas da Cidade do México para colher reacções. "Havia dias em que sentia alguém a tocar-me nos seios ou mais abaixo e quando olhava à volta não havia ninguém para culpar", recordou outra, para acrescentar: "E não adiantava gritar por ajuda, porque, como a maioria dos passageiros era homens, ninguém ajudava. Bastava que a camisola subisse um pouco ao entrar no autocarro, para haver logo alguém a dizer que nos queria comer".
A única coisa que diferencia estes autocarros é uma placa cor-de-rosa na frente com o aviso "Só para mulheres". Mas a ideia, conforme assegurou ao La Jornada a directora da Rede de Transportes Públicos (RTP), Ariadna Montiel, é que os autocarros sejam pintados de cor-de-rosa para melhor identificação. Agora, qualquer homem que procure entrar é imediatamente posto fora pelo único homem, além do motorista, autorizado a viajar no meio das mulheres: um funcionário da RTP. Não são abertas excepções sequer para os idosos. E, entre o ruído provocado pelos aplausos generalizados de milhares de mexicanas, os anciãos já disseram que também querem autocarros só para eles. Tudo bem, responderam as mulheres, desde que não se misturem. É que "há velhinhos muito abusadores", justificou Maria Palafox, uma ajudante de cozinha citada no El País.
Na fase inicial, o Governo aplicou a medida a apenas duas das 88 rotas que ligam os vários pontos da capital mexicana - uma cidade por vezes próxima da ingovernabilidade onde, todos os dias, 21 milhões de pessoas viajam no metro e no autocarro. A ideia é, até Abril, estender os autocarros rosa a mais 15 rotas.
Até aqui, exceptuando as carruagens do metro onde os homens já não podiam entrar, as viagens nos transportes públicos eram um verdadeiro pesadelo para as mulheres. E não era só por causa dos engarrafamentos. Há mais de uma década que as autoridades locais vêm somando denúncias de delitos sexuais no metro, autocarros e nos táxis. Incluindo violações, nalguns casos perpetradas por grupos organizados.
No primeiro semestre de 1998, segundo os números avançados pela Cimacnotícias - um órgão de informação mexicano com "perspectiva de género" -, houve cinco mil queixas relativas a delitos sexuais. Só em Julho desse ano, as autoridades registaram 70 violações no metro e autocarros. E as reivindicações das organizações defensoras dos direitos das mulheres ganharam maior fôlego quando Hernández Landa - uma consultora da Organização das Nações Unidas que se encontrava na Cidade do México para participar num seminário internacional sobre as questões de equidade - acabou por ser assassinada dentro de um táxi. O corpo foi encontrado dias depois nos arredores da cidade. Mostrava sinais de violação.
Números alarmantes
Com as violência contra as mulheres a aumentar de ano para ano, o governo do distrito federal propôs-se reduzir as agressões recomendando-lhes que não frequentassem "lugares não aconselháveis" e policiando as posturas de táxis. Medidas que foram imediatamente contestadas pelas associações feministas, que consideraram que as mesmas responsabilizavam as mulheres pelas agressões de que eram vítimas.
Nem quando as autoridades conseguiram prender dois dos acusados de violar e filmar mulheres em táxis estes passaram a ser locais recomendáveis a mulheres sozinhas. Estas foram aconselhadas pelas autoridades a verificar a identificação do condutor, a evitar veículos com vidros fumados e a tomar nota da placa de matrícula.
Entre 1999 a 2001, o Governo local já tinha lançado uma campanha contra os abusos sexuais no metro, visando não só travar o problema como alertar para a população para o facto de se tratar de um crime, penalizado pela lei, e não uma mera falta administrativa. Em 2001, tinha havido 462 casos de agressões sexuais contra mulheres no metro. No ano seguinte, 468 queixas. Até que, em 2004, as três carruagens dianteiras foram reservadas para as mulheres e crianças, mas somente nas horas de ponta (das seis às dez da manhã e das 18h00 às 22h00). Apesar destas medidas, os delitos sexuais contra as mulheres aumentaram. Em 2006, o abuso sexual ocupou o segundo lugar na lista de delitos praticados no metro. À frente dos roubos.
Numa prova de que o combate é para levar a sério, a campanha Viajamos Seguras, lançada pelo Governo, prevê a instalação de videovigilância nas paragens de metro e autocarro. E a informação que vier a ser recolhida sobre agressores sexuais será canalizada para uma base de dados única. Esta deverá começar a funcionar já a partir de Março. Afinal, agora é o próprio Governo local o primeiro a reconhecer, pela voz da directora geral da Igualdade e Diversidade Social, Martha Fierro, que "a insegurança e a violência contra as mulheres contribuem para a desigualdade".
Além disso, as autoridades mexicanas puseram em marcha o programa Uma cidade para partilhar e desfrutar, que prevê atacar o problema. Como? Criando mil espaços públicos espalhados pela cidade onde os cidadãos são convidados a participar e a "gerar um ambiente de grupo", como descreve a Cimacnotícias. Parece que o Governo decidiu finalmente dar ouvidos aos alertas que especialistas como Ana Falú e Olga Segóvia têm insistentemente lançado: tanto no México como noutros países da América Latina, a luta contra a violência sobre as mulheres tem que sair do reduto familiar para se alargar ao espaço público. Só assim, garantem, "se consegue garantir o direito das mulheres à cidade".

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