"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, janeiro 13, 2008

Desempregado é autor de letra para hino de Espanha
http://jornal.publico.clix.pt/
13.01.2008, Nuno Ribeiro, Madrid


Tema ainda não foi aprovado mas será interpretado, pela primeira vez este mês, pelo tenor Plácido Domingo


"Viva Espanha!
Cantemos todos juntos
com diferente voz
e um só coração/
Viva Espanha!
Desde os verdes vales
ao imenso mar,
um hino de irmandade/
Ama a Pátria
pois sabes abraçar,
sob o seu céu azul,
povos em liberdade/
Glória aos filhos
que à História dão
justiça e grandeza
democracia e paz"
a Um desempregado de 53 anos é o autor da letra para o hino espanhol, uma iniciativa conjunta do Comité Olímpico de Espanha (COE) e da Sociedade Geral de Autores. Se conseguir o meio milhão de assinaturas indispensável, a letra será apresentada como iniciativa popular ao Parlamento, que, depois, a votará.
"A minha pátria é a da gente que paga hipotecas e anda de metro, é a pátria da gente média", disse, esta semana, Paulino Cubero, o autor da letra. Cubero escreveu uma das sete mil letras submetidas à análise de um júri, presidido por Emílio Casares, catedrático e musicólogo, das quais saíram 1400 para, depois, se proceder à escolha definitiva.
Foi um trabalho intenso, o de Casares e os outros cinco membros do júri: o historiador Juan Pablo Fusi, Aurora Egido, catedrática de Literatura, o compositor Tomás Marco, Jiménez de Parga, antigo ministro do Trabalho, embaixador e ex-presidente do Tribunal Constitucional, e a campeã olímpica Theresa Zabell. O objectivo era encontrar uma letra de consenso entre as várias sensibilidades políticas e sociais, respeitosa para todas as comunidades autónomas e que não incomodasse os idiomas do país.
Uma espécie de "quadratura do círculo" que, apesar do sucesso da transição democrática, por não ter sido desenhada no passado, impediu que o hino nacional de Espanha fosse cantado com letra. Situação que, na Europa, os espanhóis compartilham com os cidadãos da Bósnia e os naturais de São Marino.
Assim, os impulsionadores da iniciativa estão longe dos corredores da política. "Caiu-me a alma aos pés no Mundial de Futebol da Alemanha de 2006 quando vi os 30 mil adeptos espanhóis a cantarolarem um hino sem a força das palavras", reconheceu Alejandro Blanco, presidente do COE. Então nasceu a ideia. Não é a primeira vez que, em Espanha, se tenta dotar o hino com uma letra. No segundo Governo de José Maria Aznar, entre 2000 e 2004, Jon Jauristi, director da Biblioteca Nacional, integrou uma comissão para o efeito. Trabalho impossível.
Exaltação da natureza
O apelo à cidadania foi a fórmula encontrada para evitar escolhos. A letra vencedora (ver caixa) não é um primor. Não exalta feitos históricos, as habituais referências a proezas militares sanguinárias comuns a muitos hinos. Refugia-se na exaltação da natureza, dos verdes vales ao mar imenso. Inscreve valores consensuais - justiça, democracia e paz -, como os defendidos pelo homem comum. Como comum é o seu autor, Paulino Cubero. Mas dá vivas a Espanha, fala da Pátria e da sua grandeza. Suficiente para reparos e críticas.
"Tem um sabor reaccionário", criticou Gaspar Llamazares, dirigente da Esquerda Unida, que engloba os comunistas. A Esquerda Republicana da Catalunha não se pronuncia... pronunciando-se: "Não é o hino da nossa Pátria." O Governo recordou que é apenas uma proposta e que tem de ser votada no Parlamento. E até Mariano Rajoy, líder do conservador Partido Popular, escudou-se nos seus poucos conhecimentos para não avaliar o trabalho de Cubero. Assim, não se sabe com que moral Plácido Domingo interpretará o hino, a 21 deste mês, na gala do Comité Olímpico Espanhol. O tenor, que interpretou a Marselhesa, em 1981, na cerimónia da tomada de posse de François Mitterrand como Presidente da República, tem pela frente um difícil début.