Árabes fascinados por concurso Poeta dos Milhões
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23.03.2008, Maria João Guimarães
Poesia declamada torna-se "mais popular que o futebol". Parte da cultura árabe de séculos, especialmente
dos beduínos, já chegou
aos toques de telemóvel
As luzes são fluorescentes, o cenário é colorido, há música em alto volume, e a audiência interrompe para aplaudir quando se entusiasma. No final, os concorrentes ouvem um veredicto do júri, e o público que não está presente pode votar por SMS no seu favorito. O vencedor ganha um prémio milionário.
Parece um normal concurso de talentos, mas tem diferenças relativamente a programas como Ídolos: a audiência está separada por sexos (nas imagens no YouTube, só se vê a parte masculina) e o júri não humilha os concorrentes, antes faz uma avaliação que chega a ser pedagógica. Isto para além do tema: os concorrentes não cantam nem dançam, declamam poesia.
O Poeta dos Milhões é um programa de uma estação de televisão de Abu Dhabi que está a ter uma atenção inusitada e um sucesso pelo mundo árabe que tem atraído concorrentes de locais desde o Iémen à Mauritânia.
Todas as terças-feiras, conta um artigo no diário britânico The Times, cerca de 70 milhões de telespectadores por todo o mundo árabe vêem os concorrentes recitar poesia tradicional. Escrevem no estúdio e competem por um prémio de um milhão de dirhams (mais de 176 mil euros).
Quem não viu a emissão ao vivo pode ver vídeos no YouTube (para quem não fala árabe, pode procurar por Million"s Poet). E há também toques de telemóvel com frases ditas pelos concorrentes.
Ressuscitar a poesia nabati
A produtora Nasha alRuwaini explicou ao diário britânico que a ideia surgiu de uma encomenda do príncipe de Abu Dhabi, Mohammad bin Zayed Al Nahyan, para ressuscitar a poesia nabati na televisão.
Este tipo de poesia é diferente da clássica ou erudita; usa um árabe mais coloquial e é tradicionalmente de expressão oral, uma arte nas tribos nómadas beduínas desde o século IV, servindo para elogiar a tribo, fixando a sua história ou para transmitir conselhos ou notícias. Muitos dos concorrentes vêm de tribos beduínas de zonas pobres.
A primeira edição já terminou, a segunda vai a meio. Cerca de sete mil pessoas - incluindo algumas mulheres - candidataram-se à participação no programa na primeira edição. Foram seleccionados 48, que puderam declamar os seus poemas ao vivo. Estes são de tema livre, na primeira parte do programa que tem um total de duas horas. Na segunda parte, há um tema dado pelo júri - já foram propostos tópicos como camelos, café ou o respeito pelos pais.
O júri avalia a qualidade dos poemas tendo em conta vários critérios. Um dos membros do júri, o poeta Salman al Amimi, explica, citado no diário americano Providence Journal: pelo tema, linguagem, mestria, imaginário e pela performance do recitar.
Inicialmente as críticas tiveram a ver com o ambiente em que era dita a poesia - as luzes, o barulho, a cor. "Disseram que isto se parecia com uma discoteca", lembra a produtora.
Agora, há quem critique o programa por algum tribalismo que pode encorajar, e há quem objecte a alguns tópicos - já houve poemas inspirados em divórcios, na guerra no Iraque ("A América vem e faz guerra contra os meus vizinhos e eu perdoo"), ou nos ordenados baixos na Arábia Saudita ("Precisamos de dinheiro, não podemos beber petróleo").
"A poesia é uma grande parte da cultura árabe", explicou a produtora ao jornal americano. "No Golfo, é indispensável a um verdadeiro homem", garante. "Pegámos nessa tradição e misturámo-la com os media modernos. Agora todos pensam: "Uau! A poesia é cool.""
"Este programa tem estado a ter mais audiência do que o futebol. Mais do que o futebol - conseguem imaginar isso?", espantava-se um concorrente de 33 anos da Arábia Saudita, Mahdi al-Wayli, citado pelo Times.
Distinções nacionais
E qualquer distinção é motivo de honra: no Iémen, o concorrente iemenita Abdulrahman Al-Ahdal, que venceu duas "medalhas" no concurso, regressou a Sanaa para receber uma distinção do ministro da Cultura, escreveu o Yemen Times (em inglês).
Abdulrahman Al-Ahdal tentou explicar o segredo do seu sucesso num dado poema, A filha do arabismo. "Combinei dialecto do Golfo, dialecto iemenita e árabe standard. Enquanto o escrevia chorei, e quem o ouviu também. Usei árabe, linguagem do Corão e dos que procuram o paraíso", contou.

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