"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, março 18, 2008

Quantos iraquianos morreram

150 ou 600 mil? Quantos iraquianos morreram?
http://jornal.publico.clix.pt/
18.03.2008, Sofia Lorena


Um dia teremos um número muito aproximado das vítimas da guerra do Iraque. Se os especialistas não desistirem e lá voltarem quando a violência diminuir


92%
das mortes contabilizadas no estudo publicado na Lancet puderam ser confirmadas por certidões de óbito
a Muitos iraquianos morreram já nesta guerra. Facto consensual. Só entre Março de 2003 e Julho de 2006 morreram mais de 600 mil que não teriam morrido se a guerra não tivesse acontecido. Mas também menos que consensual: o número, divulgado em Outubro de 2006 num estudo publicado na revista médica The Lancet, foi descrito como "exagerado" pelo Pentágono e "ridículo" por Bagdad. Por causa dele, Christopher Hitchens, colunista da Vanity Fair, acusou o
editor-chefe da Lancet, Richard Hor-
ton, de ser "um orador da aliança es-
querdista-islamista que forma a coligação britânica Stop the War". "Não é credível", disse o Presidente George W. Bush.
Quem conta os mortos iraquianos? Conta o projecto Iraq Body Count (IBC)
- segundo o seu site morreram até ontem entre 82.199 e 89.710. Conta o Governo iraquiano - em 2006, chegou a proibir o Ministério da Saúde de divulgar mortes mensais às Nações Unidas, mas depois realizou um inquérito com a OMS, segundo o qual morreram 151 mil até 2006. E contou a ORB (Opinion Research Business), um grupo de sondagens britânico, que em Setembro de 2007 divulgou um inquérito (margem de erro de 2,4 por cento) que elevava para um milhão o número de mortos até então.
Os métodos usados para chegar a qualquer um destes números são diferentes e explicam parte das divergências. O IBC só contabiliza mortes confirmadas pela imprensa. "Para além da Bósnia, não encontramos nenhum conflito em que a vigilância passiva [usada pelo IBC] registasse mais de 20 por cento das mortes me-
didas por métodos baseados no con-
junto da população" - ou seja, inquéritos com amostras, responde o estudo da Lancet.
Metodologia provada
A reacção de Londres aos números da Lancet não foi muito diferente da reacção do Presidente Bush. Mas a
BBC encontrou um memorando do
principal conselheiro científico do Ministério da Defesa britânico, sir Roy Anderson, segundo o qual "o estudo emprega métodos tidos como próximos da "melhor prática" nesta área".
A BBC citou outro documento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, um e-mail em que um responsável pergunta a respeito do estudo: "Temos mesmo a certeza de que é provável que o estudo esteja certo? É isto que o memorando supõe". A resposta, de outro responsável: "Não aceitamos os números como exactos". E umas linhas abaixo: "Contudo, a metodologia de inquérito usada não pode ser descrita como disparatada, é uma forma experimentada e provada de medir a mortalidade em zonas de conflito".
O estudo da Lancet foi realizado pelo Centro de Resposta a Refugiados e Desastres da Escola de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins. Teve críticas políticas, mas também científicas: uma amostra demasiado pequena e aquilo a que os peritos chamam "preconceito da rua principal", ou tendência para en-
trevistar moradores em ruas residenciais centrais, mais expostas a combates ou carros armadilhados.
Gilbert Burnham, co-director do centro, supervisionou o estudo, treinando os médicos iraquianos que fizeram as entrevistas e acompanhando os resultados. Diz que "há fórmulas para calcular a amostra necessária" e que "a amostra era mais do que ade-
quada". Quando à segunda crítica, explica ao PÚBLICO, "deve-se a uma má interpretação". "A amostra foi cal-
culada a partir de todas as ruas residenciais numa área. Para além disso, quase todas as mortes registadas aconteceram fora de casa."
O epidemiologista sublinha, por exemplo, que o seu estudo foi o úni-
co a pedir certidões de óbito - disponíveis em 92 por cento das mortes contabilizadas. E nota que a maioria das limitações que enfrentaram são factores que mais depressa subestimariam os dados e não os inflacionariam. Por exemplo, "mortes que os sobreviventes preferiram não re-
latar". Ou o habitual "preconceito do
sobrevivente": "o inquérito não conta as mortes em casas que foram completamente destruídas".
Quem entrevista
Entre os diferentes números, a divergência mais difícil de perceber é a que separa o trabalho de Burnham dos 151 mil mortos de outro estudo, publicado em Janeiro deste ano noutra revista médica conceituada, a New England Journal of Medicine, fruto de um inquérito realizado por ministérios iraquianos e pela Organização Mundial de Saúde.
Burnham acredita que os entrevistados se sentiram mais à vontade com os seus entrevistadores, médicos de uma instituição académica, do que com entrevistadores apresentados como funcionários governamentais. Além disso, diz, o estudo OMS--Governo não incluiu na amostra as
áreas mais violentas, onde o da Lan-
cet "contou 30 por cento" das mortes totais.
Talvez nenhum destes dados explique as diferentes estimativas. Certo é que os mortos do Iraque não se podem contar pelos obituários dos jornais. A violência continua a matar todos os dias no Iraque e há muito tempo que os mortos deixaram de ser notícia diária. Esta é a guerra em que, num só dia e num mesmo ataque, foram mortos entre 400 e 600 membros da minoria religiosa yezidi, no maior atentado no mundo desde o 11 de Setembro. E em que isso não fez manchetes.


"Os resultados seriam sempre distorcidos porque este é um assunto político"

18.03.2008




O responsável pelo inquérito publicado na Lancet lembra que estudos sobre outros conflitos usam os mesmos métodos e são aceites. É director do Centro de Resposta a Refugiados e Desastres da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins.
O que é que explica as diferenças tão grandes entre estudos e balanços dos mortos?
Os números que aparecem na imprensa estrangeira representam os corpos encontrados ou os mortos resultantes de grandes acontecimentos, como carros-
-bomba. Os nossos dados mostram que os assassínios se fizeram a uma escala mais pequena e em grande parte fora de Bagdad, onde a imprensa estrangeira está concentrada. A informação da imprensa é útil para seguir tendências, mas de forma alguma pode ser interpretada como representando o total dos mortos. Qualquer pessoa com experiência de recolha de dados em contextos difíceis compreende isso. Mas os que pretendem minimizar o impacto do conflito agarram-se a estes números mais baixos para reduzirem a devastação causada por esta guerra. E ignoram que contar só os mortos noticiados numa situação de conflito é ignorar a maioria dos mortos.
Esperava que o estudo fosse tão criticado?
Esperávamos críticas e sabíamos que os resultados seriam distorcidos porque este é um assunto político. Mas ficámos surpreendidos porque há resultados de outros conflitos que usam os mesmos métodos e são largamente aceites, às vezes pelos mesmos que agora nos criticaram.
Alguma vez saberemos quantas mortes está esta guerra a provocar?
Essa é a grande pergunta. A resposta é sim, usando os métodos padrão. As famílias raramente esquecem as mortes. A escala das mortes da Segunda Guerra ainda pode ser estimada através de inquéritos. Quando a violência acalmar no Iraque e houver bons recenseamentos disponíveis, vai ser muito mais fácil conseguir uma estimativa adequada das mortes. É muito importante que isso se faça, que não nos fiquemos pelos números incompletos. S.L.